Posto aqui cometários pessoais sobre acontecimentos e outras reflexões que ligo à ufologia - pela qual nutro várias simpatias. Com apreensão, observo cada vez mais o interesse e o estudo sobre vida e a inteligência fora da Terra e além da humanidade derivar, dentro dos meios chamados "ufológicos", para as mais tacanhas formas de crendice e superstição, reforçando o obscurantismo, a irracionalidade, o fundamentalismo religioso e a pseudociência.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
Revelações de 225 milhões de anos atrás
Em vários jornais da semana passada (19/12/2012) saiu uma notícia sobre a descoberta, aqui (Santa Cruz do Sul) ao lado, no interior da cidade de Agudo, de fósseis bastante completos do período Triássico, uns 225 milhões de anos atrás. Um deles, de um “sauropodomorfo”, estaria com os ossos todos articulados, o que possibilitará um entendimento ainda mais preciso de como eram e como viviam esses primitivos animais – antepassados dos grandes dinossauros, que depois chegariam a pesar 12 toneladas e medir 30 metros.
Liderados por professores, técnicos e estudantes da Unipampa, os fosseis serão estudados por longa data e deverão produzir uma série de estudos, decifrando um pouco mais o longínquo passado da nossa região e do próprio planeta Terra e seu habitantes. Os materiais ficarão num centro de pesquisa em paleontologia no município de São João do Polêsine (ao lado de Agudo, próximo a Santa Maria, a uns 120km de Santa Cruz).
Não é fascinante isso? E não se trata de alguma “visão”, de algum “relato”. É algo ao mesmo tempo extraordinário e muito concreto, que “fala” sobre a trajetória do nosso planeta, da origem e desenvolvimento da vida.
Os detalhes são tão complexos e as elucubrações intelectuais são tão intensas e emocionantes que chega a ser uma tolice querer achar algo “além”, quando temos tantas possibilidades de ampliar a compreensão sobre o mundo onde estamos, caso dos estudos paleontológicos. Como tudo que quer chegar a respostas factíveis, a “ciência dos fósseis” exige uma dedicação séria, compenetrada, em permanente teste de suas hipóteses, aberta a novos dados que chegam – sem cair em apelos a fantasias, que remetem ao obscurantismo e ao travamento da inteligência.
Lastimável que a ufologia não raro produza esse embotamento, ao tornar-se (ou a manter-se) acientífica – muito mais uma forma de religiosidade ou refúgio existencial em uma ficção. Acredito que ganharíamos muito mais se estudássemos com mais afinco temas como a mencionada paleontologia – um do estudos científicos que vem nos tirando das trevas da ignorância e dogmatismo religioso.
Nas ilustrações (divulgação) acima e abaixo, pesquisadores da Unipampa trabalhando no local da descoberta dos fósseis, em Agudo.
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*Prezado camarada Rafael Amorim, pesquisador do fenômeno e, sem dúvida, referência gaúcha e brasileira no assunto:
Tu tens razão: não dá para generalizar, porque se sabe que há muita gente empenhada em NÃO fazer da ufologia uma “ufolatria”, como tu mesmo dizes, ou seja, uma espécie de “novo culto”, de uma “nova igreja”, com seus rituais, sacerdotes e até “santos”, do tipo Asthar Sharan (no Céu) e Urandir (na Terra). Ou, se não um culto, tem uns que fazem da ufologia um novo folclore, colaborando na consolidação no imaginário popular de novos “seres bizarros”, como o Chupa-Cabra e o ET de Varginha, ao lado da Mula Sem Cabeça, Saci Pererê, o Lobisomem e a Cuca... Ou misturam tudo isso e constroem um ogro de papelão sustentado por um discurso pseudocientífico que parece seduzir muita gente. A vontade é de rir, não fosse a engambelação flagrante, explorando até monetariamente, como costumam fazer tantas igrejas (supostamente) baseadas na coletânea de contos e admoestações chamado Bíblia – e também em outros vários “escritos sagrados”, interessantes como obras históricas, mas perversamente alçadas a “verdades eternas”...
Aliás, meu novo “guru”, o jornalista Christoher Hitchens, recentemente falecido (lamentavelmente, porque era um cara em plena e madura produção intelectual), disse o seguinte sobre nossa propensão a cair no engodo, no “171”:
“Não é esnobismo perceber a forma como as pessoas exibem ingenuidade e seu instinto de rebanho, e seu desejo ou talvez necessidade de serem enganadas. É um problema antigo. A credulidade pode ser uma forma de inocência, e até mesmo inócua em si, mas é um grande convite a que malvados e os espertos explorem seus irmãos e irmãs e, portanto, é uma das grandes vulnerabilidades humanas. Não é possível nenhum relato honesto do crescimento e da persistência da religião sem referências a esse fato inflexível." (p. 149-150, Hitchens, 2006)
Para encerrar, é preciso reconhecer que a ufologia, ao contrário da paleontologia, não possui sequer um objeto material ou outra prova incontestável da existência de naves e seres extraterrestres. Lidamos com hipóteses e relatos (mesmo que documentados, o que não altera a sua pouca ou inexistente materialidade). A paleontologia tem os fósseis (em anexo, duas fotos divulgando o referido achado paleontológico em Agudo, RS) e outras indicações materiais (marcas em paredes, solos, pedras etc.) que formatam a teoria e demonstram a veracidade da existência, por exemplo, de dinossauros – não como fantasias hollywoodianas do tipo “O Parque dos Dinossauros”, mas como seres que habitaram a Terra.
Sobre discos voadores e ETs, temos pouco mais que os filmes de ficção e a “vontade de acreditar”... Mas isso já é algo para impulsionar uma busca! O problema é NÃO fazer de tal busca uma caça infantil travestida de seriedade (o exemplo patente é o que se vê no “Projeto Portal”). Muito bom que tenhamos – como o Rafael cita – gente “pé no chão” e não delirantes e espertalhões a comandar todo cenário da ufologia brasileira e mundial.
Abraço!
Iuri
**Marcelo, Daniel e demais colegas,
Eu sempre acho as falas do Daniel excelentes, de uma ponderação lúcida, aberta e simpática – um camarada extraordinário, literal e sinceramente.
A comparação da ufologia e da bacteriologia é muito boa e me deu vontade de ver esta biografia do Pasteur. Mas, infelizmente, a ufologia, conforme está estabelecida, encabeçada por caras como o XXXXXX [nome omitido, para evitar complicações jurídicas], que se diz “pesquisador e ufólogo”, está cheia de “contaminações”. Acho que será preciso um longo processo para torná-la cientificamente e academicamente reconhecida, porque, pela minha observação, a grande parcela dos que se declaram ufólogos têm um perfil que não se ajusta a um cientista, e estão mais próximos de um estereótipo de guru ou apóstolo de uma congregação de místicos da “Nova Era”. Aposto mais em exobiologia ou astrobiologia e até na exossociologia como caminhos mais seguros e profícuos para a investigação de manifestação de vida e inteligência extraterrestres. A própria denominação “ufologia” está incorporada no imaginário popular como algo da ordem do “fantástico”, na mesma linha do “fenômeno” dos lobisomens...
O Daniel também tem razão sobre o “fundamentalismo científico”. Como também comentei com o Marcelo, a dimensão da fantasia, do fantásticos, do mítico, da imaginação, do próprio devaneio, da especulação aparentemente mais descabida são fundamentais para construirmos as explicações – sempre tentativas, mesmo as “científicas”, já que precisamos considerar todas as indicações de nossas naturais limitações enquanto mamíferos habitando este ecossistema terreno, tendo um cérebro moldado a quase perfeição (como as mãos!) para nossas primatas necessidades de sobrevivência, mas que, miraculosamente (oba!), abriu “fendas” para espiarmos uma imensidão “incomensurável”, como disse Thomas Kuhn, o cara do “A Estrutura das Revoluções Científicas”, que popularizou o hoje quase abusado termo “mudança de paradigma”.
Agradeço o carinho e a consideração dos amigos em seus comentários sobre os textículos (não confundir com testículos! Hehe!) que lhes envio de vez em quando!
Abraços!
Iuri
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
E o papa tuitou...
Uma amiga me repassou a notícia:
O papa Bento XVI tuitou pela primeira vez nesta quarta-feira, durante sua audiência semanal, no auditório Paulo VI, no Vaticano. Bento XVI escreveu em seu iPad uma mensagem de saudação aos mais de 670 mil seguidores. "Queridos amigos, estou feliz por entrar em contato com vocês pelo Twitter. Obrigado por sua resposta generosa. Eu abençoo a todos de coração", disse.
Pois até o Papa tem conta no Twitter e usa tablets... E com certeza o Vaticano está no Facebook, a grande rede de contatos, informação e interação, que está marcando o século 21 com novas formas de comunicação.
Essa situação sempre me chama a atenção – da Igreja (ou das igrejas) usar (em) a tecnologia. Há uma contradição, me parece. Todo o moderno aparato tecnológico foi construído “apesar” da religião judaico-cristã (entre outras). Física, química, engenharia, biologia etc. não tiveram um livre-desenvolvimento por intervenção de “sacerdotes”. Até hoje, avanços na medicina, como as possibilidades de uso de embriões, é travado por uma visão ortodoxa, da Idade do Bronze, época em que o Velho Testamento foi moldado – por isso são preceitos de tribos patriarcais seminômades das imediações do Mediterrâneo. Estudiosos e pensadores, mesmo cristão, como Giordano Bruno, foram mortos pela sua própria igreja (no caso, pela inquisição - Congregação da Sacra, Romana e Universal Inquisição do Santo Ofício); outros, foram duramente censurados, sob ameaças de tortura e assassinato, caso de Galileu Galilei. E até hoje esse sectarismo violento (virulento, também), anti-liberdade e anticientífico é praticado mais ou menos explicitamente por instituições religiosas e seus “fiéis” exaltados.
Talvez essa adesão a crenças irracionais e antiquadamente preconceituosas – enquanto usufruímos de produtos das engenharias mais sofisticas – seja culpa da nossa alienação em amplo sentido. Vivemos na superfície de tudo. Assim como não sabemos praticamente nada do que existe internamente e como funciona eletronicamente um telefone celular (apenas apertamos os botões na superfície do teclado ou tela), assim também não sabemos praticamente nada sobre as bases históricas, psicológicas e sociológicas da fé em, por exemplo, Nossa Senhora Aparecida. Em plena procissão a Santa, ligamos para nossa avó, para saber se tudo está bem em casa. Em ambos os casos – caminhar num evento que reverencia uma virgem que concebeu imaculada e usar o sistema de telefonia móvel – o nosso nível de consciência da complexidade envolvida no que está acontecendo é baixíssimo; nossa ignorância – no sentido técnico de falta de conhecimentos – é altíssima. Agimos como macacos puxando alavancas para ganhar uma banana.
Acho que o potencial humano vai muito além de puxar alavancas. Somos analfabetos funcionais na leitura das coisas que nos rodeiam. Precisamos urgente de um “mobral” científico-histórico-filosófico para entender o que de fato está sendo dito; não só assinar o nosso nome em documentos que não sabemos o conteúdo.
***Ao se referir a políticos e burocratas fundamentalistas na cabeça de governos como o do Paquistão, o jornalista Christofer Hitchens, em seu livro “Deus não é grande – como a religião envenena tudo” (Ediouro, 2007), uma denúncia veemente contra o obscurantismo e sectarismo religiosos, diz o seguinte:
“É uma ironia trágica e potencialmente letal que aqueles que mais desprezam a ciência e o método de livre investigação tenham sido capazes de surrupia-lo e incorporar os produtos sofisticados dele a seus sonhos doentios [de morte e destruição em massa].”
Calendário maia, fim do mundo e sorvete na testa
Nem mesmo a prestigiada revista brasileira de divulgação científica, a Ciência Hoje, escapou das confusões sobre as “profecias” do 21 de dezembro. Confusões estas que ficam à beira, por um lado, da histeria e, por outro, da piada. Estamos diante do “fim do mundo”, baseado no que estaria inscrito num calendário de nativos mesoamericanos, os maias.
Em sua edição número 295, ao abordar o assunto – “2012, afinal, é o fim do mundo?” – a Ciência Hoje publicou em sua capa o que deveria ser uma pedra esculpida, se referindo ao tal calendário maia. Na edição posterior, os editores reconheceram o “furo”: se tratava de uma imagem de um objeto... asteca... Não foi culpa do autor da matéria. O próprio banco de imagens de onde foi comprada a ilustração catalogava como “calendário maia”. Falhou a revista em checar isso muito bem. Em todo o caso, a matéria é boa e vai abaixo o link para quem quiser ler o que está no site da publicação.
Se a Ciência Hoje, uma revista sob responsabilidade da SBPC, uma tradicional organização de cientistas renomados, atuando pelo desenvolvimento da ciência ; se este pessoal não fez a revisão devida e deixou passar tamanho engano, fico pensando quanta bobajada está sendo dita, mostrada e repetida por aí. Aos enganos por lapsos e desconhecimento, some-se o que estão produzindo os “espertos”, sempre a fim de explorar esta nossa atávica nostalgia judaico-cristã do apocalipse. Vendem-se manuais, amuletos, “programas de salvação” etc. E mesmo sabendo que se trata de mais um sorvete na testa, daqueles de duas bolas grandes (chocolate e morango), socamos a guloseima com um sorriso cândido, prenhes de esperanças infantis...
O fato é que no dia 21 de dezembro (daqui dez dias!) vai ser aquela mesmice mundial: acidentes, assassinatos, tempestades – um desfile de tragédias maiores e menores trazidas pela imprensa. Alguns vão dizer que “Está aí, começou, mesmo, o fim do mundo!” – e não vai adiantar nada ponderar coisa alguma. Quem quer acreditar, vai acreditar, e quando chegar o frustrante vigésimo primeiro dia do último mês do ano... vai embarcar em alguma desculpa (adiou-se o fim do mundo por conta de uma intervenção de Asthar Sharan, por exemplo). E logo-logo se terá mais uma previsão de armagedom e um bom tempo para se comprazer com a mais nova (e mórbida) esperança de que – “desta vez pra valer” – tudo vai acabar, enfim...
Afora os “apocalípticos clássicos”, há os que são adeptos – ou acabaram aderindo, tal a evidência da bazófia – para ideias não das explosões cinematográficas, da morte em massa, de gritos e uivos, mas de “uma nova era”, um novo ciclo... Bem, um novo ciclo começa todos os dias com a rotação da Terra e toda a coreografia (ia dizendo dança) dos planetas, estrelas, satélites naturais etc. que compõem a nossa galáxia e o universo que conhecemos. Todos os dias o mundo “termina” e “recomeça”, Sol e Lua, claro e escuro, vigília e sono, pintassilgos e morcegos... Não seria uma boa aproveitar isso e renovar a nós mesmo a cada transposição do dia e da noite; quem sabe buscar ir mais adiante em nossos esforços por conhecimentos embasados, ajudando a construir uma civilização mais harmônica, sem apelos patéticos ao irracionalismo e a emocionabilidade?
Acho que muito dessas expectativas “bíblicas” são geradas por insatisfação e angústia. Muitas pessoas não gostam de suas vidas e se sentem pressionadas por um mundo muitas vezes duro, cheio de injustiças e desgraceiras várias (crianças sendo prostituídas, florestas nativas desmatadas, autoflagelação em nome de Jesus...), onde estamos cheios de “responsabilidades” – contas a pagar, um chefe chato, enxaqueca, segundas-feiras etc. Um belo fim do mundo seria uma oportunidade de “zerar” as coisas e reiniciar tudo de novo!
***Quem puder, leia a matéria da Ciência Hoje que me referi: uma das coisas interessantes é a desmistificação da “harmonia” dos povos antigos da mesoamérica. Os maias, por exemplo, que não estão “extintos”, entraram em decadência por contas de guerras de poder e destruição ambiental. Estão longe desta ideia de uma civilização de sábios, zens, “evoluídos”. Óbvio que a grandiosidade de cidades, seus monumentos, técnicas de escultura, arquitetura, avanços na agricultura, na escrita, na astronomia, entre outros, são admiráveis. Mas também havia uma profusão de sacrifícios humanos, tortura e antropofagia rituais, ou seja, muito sangue, carne e vísceras humanas para aplacar deuses e saciar fomes.
http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2012/295/2012-afinal-e-o-fim-do-mundo
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Físico diz que conhecemos menos de um centésimo de milionésimo de bilionésimo do que compõe o universo (0,0000000000000001%)
Na coluna do físico George Matsas, na edição do mês de setembro passado da revista Ciência Hoje, ele fala do bóson de Higgs (na ilustração acima, a colisão de prótons, buscando identificar a partícula). E diz algo que me surpreendeu, que é o seguinte:
“(...) o bóson de Higgs está longe de completar o quebra-cabeça das partículas elementares. Argumentos teóricos sugerem que conhecemos menos de um centésimo de milionésimo de bilionésimo (10 na potência menos 15%) do conjunto total de peças [do atual Modelo Padrão das Partículas Elementares]. Assim, a menos que o restante do quebra-cabeça consista de uma enorme moldura branca de peças desinteressantes, ainda termos muito a aprender.”
Sim, “temos muito a aprender”... E mais: Matsas fala que, “De fato, dados provindos da astrofísica e da cosmologia têm indicado que aproximadamente 23% de toda a matéria do universo não é feita de prótons, nêutrons, elétrons, nem outras partículas do Modelo Padrão. Essa matéria desconhecida foi apelidada ‘matéria escura’, pois não é diretamente visível. (...) Tudo indica, portanto, que, no futuro, o Modelo Padrão terá de ser ampliado.”
Num parágrafo anterior, o físico, que é professor na Universidade Estadual Paulista, explica o que seria o tal Modelo Padrão: “O Modelo Padrão das Partículas Elementares (ou, simplesmente, Modelo Padrão) pode ser entendido como um grande quebra-cabeça. Cada peça representa uma partícula, enquanto a forma como se encaixam descreve a relação entre elas. Todas as partículas do Modelo Padrão que haviam sido teorizadas acabaram sendo encontradas. Faltava apenas o bóson de Higgs.”
Ou seja, apesar dos avanços, estamos a milhas e milhas (ou melhor, a anos e anos luz) de compreendermos todo o mistério da matéria ou energia ou seja lá o que componha o nosso cosmos, incluindo a nós mesmos. Entretanto, não sejamos apressados em “concluir” que “A FÍSICA” ou “A CIÊNCIA” confirmam que existe “algo além”. Certo, existe “algo além”, mas tudo indica que nada tenha a ver com fadas, santos, espíritos desencarnados e ETs do bem e do mal.
De qualquer modo, o tamanho descomunal do nosso desconhecimento enquanto humanos – e que gera tantas tentativas de explicação que remetem ao lendário, ao inabordável e ao irracionalismo – deve servir para não nos arrogarmos “senhores do universo” ou deste planeta que coabitamos com inúmeras espécies coirmãs (em termos de origem, lá no mesmo caldo primordial).
A ciência, por definição, cria explicações provisórias, ciente de suas falhas e sempre a pedir testes renovados. Mas o que dizer das religiões sectária (quase todas, infelizmente), que pretendem ter “a” explicação cabal, final, “imexível”, e, por isso, ditando o que é certo e errado para todo sempre? Na minha opinião, com exceções, são ideologias perversas, por limitarem as possibilidades do intelecto humano, além de reprimir outros tantos potenciais para o desfrute da vida. Em nome de Deus se cometem inúmeras barbaridades, incluindo a autoflagelação mental...
***Para ver todo o artigo de George Matsas, vai aqui o link: http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2012/296
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Ciência e moral
Para refeletirmos, duas passagens do livro de Michel Shermer (foto acima), "Por que as pessoas
acreditam em coisas estranhas: Pseudociência,
superstição e outras confusões dos nossos tempos", publicado no ano passado(2011) aqui no Brasil pela JSN Editora:
CIÊNCIA
"O que separa a ciência
das demais atividades humanas é o seu compromisso com a natureza
experimental de todas as suas conclusões. Não há respostas
conclusivas na ciência, apenas graus variáveis de probabilidade.
Mesmo os “fatos” científicos são apenas conclusões confirmadas
em tal grau que se torna razoável oferecer-lhes uma concordância
provisória, mas esse assentimento nunca é definitivo. A ciência
não é afirmação de um conjunto de crenças, mas um processo de
investigação voltado para a construção de um corpo testável de
conhecimentos constantemente aberto a rejeição ou confirmação. Em
ciência, o conhecimento é fluido e a certeza, fugaz. Isso está no
cerne de suas limitações. E isso constitui também a sua maior
força". p.155
MORAL
"A moral não existe na
natureza e, portanto, não pode ser descoberta. Na natureza existe
apenas ações – ações físicas, biológicas, humanas. Os humanos
agem no sentido de aumentar sua felicidade, seja lá com definam
pessoalmente. As sua ações se tornam morais ou imorais apenas
quando outra pessoa as julga como tais.. Assim, a moralidade é a
rigor uma criação humana, sujeita a toda sorte de influências
culturais e construções sociais, do mesmo modo que ocorre com
outras construções humanas". p.154
"Em um dia, fui a outro planeta e voltei", disse J. Cameron
Dias atrás mencionei o feito do projeto Stratos, com um
salto de paraquedas de altitude estratosférica (mais de 39 mil metros),
quebrando um recorde e, mais uma vez, desafiando limites físicos dos humanos
através de muita preparação e tecnologia.
(Aproveito para dar a dica deste e outros vídeos: “O ponto de vista de Felix
durante o Salto - Red Bull Stratos”, em http://www.redbull.com.br/cs/Satellite/pt_BR/Video/O-ponto-de-vista-de-Felix-durante-o-Salto-Red-021243271142460)
Pois agora segue abaixo o link para aa reportagem onde o recorde se dá de
maneira "inversa", quer dizer, um humano chega ao mais profundo
abismo do planeta (quase 11 mil metros), no oceano, e não nos céus (não sei
porquê se usa “céu” no plural...).
Como disse James Cameron, o piloto da cápsula submarina,
“fui a outro planeta". Claro que o também cineasta (Avatar e Titanic) está
se referindo ao tipo de ambiente e vida que existem em mais este lugar extremo
da Terra – e não em Marte ou alguma lua ou planeta em Alpha Centauri.
Temos companhias insuspeitadas aqui mesmo nesta bola
flutuante nos confins do universo, vivendo sem luz alguma, sob pressões
absurdas em fossas oceânicas. E queremos saber se há vida para além deste
pontinho cósmico onde habitamos. OK. Mas, muitos de nós, mal sabemos o que de
fato existe aqui na nossa “casa”. Não só não sabemos, como não valorizamos.
Corremos atrás de fadas, anjos, espíritos, mulas-sem-cabeça e ETs. Queremos nos
maravilhar, ora! Queremos que haja "algo além". Mas o fato é que
estamos muito aquém do potencial que realmente temos aqui, concretamente:
descobrir e compreender os seres e as coisas que nos rodeiam, usando
ferramentas como a biologia, a física, química, matemática, engenharias; a
psicologia evolutiva, a sociobiologia, a filosofia acadêmica, a antropologia
cultural etc.
Ou seja, a “magia da
existência” pode se revelar por fórmulas acessíveis, sem depender de
clarividência e outros esoterismos;
basta uma dedicação, um esforço sério a estudos e a habilidades reais e
atingíveis por nossos cérebros, por nossos cinco sentidos – ferramenta que a
evolução das espécies nos dotou após milhões de anos.
***Link
para a reportagem completa (com fotos e vídeos): http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/cameron-vai-ao-ponto-mais-profundo-do-oceano-e-volta-em-seguranca
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Monte Erebus - uma expedição pelas páginas da revista...
A National Geographic Brasil publicou em sua edição do último mês de agosto deste ano uma reportagem: “Monte Erebus: um mundo invertido na Antártica”.
E foi um grande prazer lê-la. É uma forma de "viajar" junto na expedição a esse lugar extremo da Terra – um vulcão na Antártica. Estiveram lá cientistas e a jornalista, Olivia Judson, que escreveu a matéria. Transparece que se trata de gente jovial, sem clima algum de "seriedade absoluta" – a não ser nos cuidados com a saúde e a pesquisa em si. A emoção vem de “conhecer” lugares e coisas que se ligam ao miraculoso universo onde vivemos. Embora um dos membro seja um exobiólogo, o pessoal que estava lá não buscava indícios de ETs. O que buscavam, em última instância, são indicações “de onde vem” e “como acontece” a vida no planeta. Ou seja, os aspectos químicos, físicos e biológicos que nos fizeram e nos fazem seres terráqueos.
Acho que o grande barato está aí, neste buscar entender o labirinto onde estamos todos metidos. Uma pequena pista, uma pecinha do infinito quebra-cabeça às vezes se insinua e a gente avança uma casa no jogo.
Para quem gosta deste assunto envolvendo “extremófilas: formas de vida que prosperam nos mais radicais ambientes que este planeta pode oferecer – ácido fervente, por exemplo”, segue uns trechos selecionados.
Para quem quer ver toda reportagem e IMAGENS MAGNÍFICAS, segue o link para a reportagem completa:
http://viajeaqui.abril.com.br/materias/monte-erebus-antartica-vulcao
-------------
NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL
EDIÇÃO 149 - AGOSTO DE 2012 - 27/07/2012
Monte Erebus: um mundo invertido na Antártica
Enquanto os cientistas tremem de frio, micróbios proliferam no solo de um vulcão
por Olivia Judson
(trechos da reportagem)
Embora os solos [em torno da cratera no Monte Erebus] sejam quentes – suas temperaturas podem chegar a 65°C –, o ar logo acima não é. Além disso, a menos de 1 metro de distância do ponto quente, a temperatura do solo cai drasticamente. A acidez também muda. No ponto quente, o solo é neutro; a pouca distância, ácido. E estéril: frio, seco, ácido e hostil à vida.
A presença dessas ilhas [de vida no entorno do Erebus] inspira questões intrigantes. Que micróbios vivem ali, e de onde vieram? Micróbios podem viajar no vento por centenas de quilômetros. Será que provêm dos solos quentes de vulcões mais ao norte? Ou será que os micróbios do Erebus são únicos, e – o que seria fascinante – terão vindo das profundezas da Terra? A biosfera da subsuperfície, onde esses organismos vivem em rochas muito abaixo da superfície terrestre, é um dos ecossistemas menos conhecidos e estudados do planeta. Mas pode ser um dos maiores – algumas estimativas indicam que um terço de todas as bactérias da Terra talvez viva lá – e dos mais estranhos. Esses micróbios não ganham a vida extraindo energia solar. Eles a obtêm de outras fontes, como do ferro ou do hidrogênio. Esse ecossistema profundo e escuro também poderia ser um dos mais primitivos do planeta e abrigar formas de vida que há muito tempo vêm seguindo um caminho evolucionário separado.
(...)
Herbold [um dos pesquisadores da expedição ao Monte Erebus] e eu acabamos falando sobre as estrambóticas arqueias. “São estranhas demais”, diz Herbold. “Não consigo entendê-las.”
As arqueias compõem um dos três ramos principais, ou domínios, da árvore filogenética. (Os outros dois são as bactérias e os eucariotos, organismos com núcleo nas células, como as plantas, os fungos e os animais.) E, embora as arqueias também vivam em lugares corriqueiros, como o mar aberto, têm fama porque são extremófilas: formas de vida que prosperam nos mais radicais ambientes que este planeta pode oferecer – ácido fervente, por exemplo. Assim, não é de surpreender que elas estivessem à espreita naqueles solos quentes do monte Erebus.
Essas arqueias antárticas, porém, são um tanto misteriosas. Encontradas em solos que o grupo coletou em viagens anteriores ao Erebus, até agora elas são conhecidas apenas por sequências de DNA, as quais têm pouca semelhança com as das arqueias descobertas em outras partes. Isso sugere, talvez, que elas de fato vêm seguindo o próprio curso evolucionário há muito, muito tempo.
E foi um grande prazer lê-la. É uma forma de "viajar" junto na expedição a esse lugar extremo da Terra – um vulcão na Antártica. Estiveram lá cientistas e a jornalista, Olivia Judson, que escreveu a matéria. Transparece que se trata de gente jovial, sem clima algum de "seriedade absoluta" – a não ser nos cuidados com a saúde e a pesquisa em si. A emoção vem de “conhecer” lugares e coisas que se ligam ao miraculoso universo onde vivemos. Embora um dos membro seja um exobiólogo, o pessoal que estava lá não buscava indícios de ETs. O que buscavam, em última instância, são indicações “de onde vem” e “como acontece” a vida no planeta. Ou seja, os aspectos químicos, físicos e biológicos que nos fizeram e nos fazem seres terráqueos.
Acho que o grande barato está aí, neste buscar entender o labirinto onde estamos todos metidos. Uma pequena pista, uma pecinha do infinito quebra-cabeça às vezes se insinua e a gente avança uma casa no jogo.
Para quem gosta deste assunto envolvendo “extremófilas: formas de vida que prosperam nos mais radicais ambientes que este planeta pode oferecer – ácido fervente, por exemplo”, segue uns trechos selecionados.
Para quem quer ver toda reportagem e IMAGENS MAGNÍFICAS, segue o link para a reportagem completa:
http://viajeaqui.abril.com.br/materias/monte-erebus-antartica-vulcao
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NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL
EDIÇÃO 149 - AGOSTO DE 2012 - 27/07/2012
Monte Erebus: um mundo invertido na Antártica
Enquanto os cientistas tremem de frio, micróbios proliferam no solo de um vulcão
por Olivia Judson
(trechos da reportagem)
Embora os solos [em torno da cratera no Monte Erebus] sejam quentes – suas temperaturas podem chegar a 65°C –, o ar logo acima não é. Além disso, a menos de 1 metro de distância do ponto quente, a temperatura do solo cai drasticamente. A acidez também muda. No ponto quente, o solo é neutro; a pouca distância, ácido. E estéril: frio, seco, ácido e hostil à vida.
A presença dessas ilhas [de vida no entorno do Erebus] inspira questões intrigantes. Que micróbios vivem ali, e de onde vieram? Micróbios podem viajar no vento por centenas de quilômetros. Será que provêm dos solos quentes de vulcões mais ao norte? Ou será que os micróbios do Erebus são únicos, e – o que seria fascinante – terão vindo das profundezas da Terra? A biosfera da subsuperfície, onde esses organismos vivem em rochas muito abaixo da superfície terrestre, é um dos ecossistemas menos conhecidos e estudados do planeta. Mas pode ser um dos maiores – algumas estimativas indicam que um terço de todas as bactérias da Terra talvez viva lá – e dos mais estranhos. Esses micróbios não ganham a vida extraindo energia solar. Eles a obtêm de outras fontes, como do ferro ou do hidrogênio. Esse ecossistema profundo e escuro também poderia ser um dos mais primitivos do planeta e abrigar formas de vida que há muito tempo vêm seguindo um caminho evolucionário separado.
(...)
Herbold [um dos pesquisadores da expedição ao Monte Erebus] e eu acabamos falando sobre as estrambóticas arqueias. “São estranhas demais”, diz Herbold. “Não consigo entendê-las.”
As arqueias compõem um dos três ramos principais, ou domínios, da árvore filogenética. (Os outros dois são as bactérias e os eucariotos, organismos com núcleo nas células, como as plantas, os fungos e os animais.) E, embora as arqueias também vivam em lugares corriqueiros, como o mar aberto, têm fama porque são extremófilas: formas de vida que prosperam nos mais radicais ambientes que este planeta pode oferecer – ácido fervente, por exemplo. Assim, não é de surpreender que elas estivessem à espreita naqueles solos quentes do monte Erebus.
Essas arqueias antárticas, porém, são um tanto misteriosas. Encontradas em solos que o grupo coletou em viagens anteriores ao Erebus, até agora elas são conhecidas apenas por sequências de DNA, as quais têm pouca semelhança com as das arqueias descobertas em outras partes. Isso sugere, talvez, que elas de fato vêm seguindo o próprio curso evolucionário há muito, muito tempo.
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Na mítica Roswell, uma experiência dos limites humanos...
Mesmo que o assunto da semana seja Sandy, A Tempestade, segue um comentário sobre um outro acontecimento nos EUA:
Vocês devem ter acompanhado isso. Eu li rapidamente o que saiu na imprensa no dia 15 de outubro passado, após o salto do rapaz. Pois achei fantástico– quase uma missão espacial!
O cara atingiu 38,6 mil metros e quebrou a velocidade do som, provando possibilidades humanas, suportando condições extremas de velocidade e altitude.
Só há pouco vi o vídeo e fiquei tenso e emocionado com mais esta “loucura”, buscando superar limites – com, claro, amplos cuidados e testes, como aconteceu nas missões Apollo, chegando-se à superfície lunar a partir de 1969 – embora alguns acreditam que isso não ocorreu, mesmo com todas as evidência, considerando que há, entre esses céticos em relação a alunissagem humana, os que, ao mesmo tempo, acreditam piamente em lobisomens e na concepção imaculada.
Aliás, o paraquedista estratosférico, Felix Baumgharter, bateu uma façanha, o recorde de altitude, estabelecido - assim com a chegada de humanos na Lua pelas missões Apollo - nos anos de 1960 (na verdade, exatamente em 1960), justamente por um dos comandantes da atual operação de paraquedismo no Novo México. O homem se chama Joe Kittinger, aposentado da força aérea Americana. Aí, mais uma evidência de que repetir ou superar feitos tecnológicos dependem de vários fatores, como foi e é o caso da chegada a superfície lunar.
Obvio que o merchandising é grosso (a missão se chamou "Red Bull Stratos"). Mas como viabilizar uma coisa dessas? Aliás, nas missões espaciais, muito da viabilidade financeira vinha também de “verbas de propaganda” das “potências” tecnológicas, EUA e União Soviética, buscando hegemonia político-ideológica mundial.
Ainda na borda da cápsula, mas já na “porta”, antes do “pulo”, olhando daquela altura absurda, o paraquedista disse:
"Às vezes é preciso estar bem acima para perceber o quão pequeno você é."
Uma constatação bem humorada e uma sabedoria que pode ser dita com uma convicção total somente pelos que visitam abismos...
Para quem por acaso ainda não viu, segue o links para a reportagem onde está o vídeo que mencionei. E, a seguir, um utro link de um vídeo editado, sintetizando todo o processo do salto.
http://ultimosegundo.ig.com.br/ciencia/2012-10-14/felix-baumgartner-faz-hoje-salto-da-estratosfera.html
http://tvig.ig.com.br/esporte/outros-esportes/novo-video-mostra-melhores-momentos-de-salto-da-estratosfera-8a49802639368a22013a69d9724430ea.html
***O nosso saudoso Carl Sagan já dizia que aquela foto (acima) tirada em uma das missões Apollo (a numerada de 8), onde aparece a Terra por inteira, em toda a sua beleza e solidão azul e branca, foi quando se inaugurou a era da “Cidadania Cósmica”; foi quando ninguém mais poderia ter dúvidas sobre o fato de vivermos todos numa mesma “Nave Mãe” em meio a um sem-fim e miraculoso universo; todas as fronteiras entre países e até entre espécies se anulava pela imeditada visualização da situação de estarmos TODOS embarcados em Gaya, em Pachamama...
****Aproveito par indicar a leitura de "História da conquista da Lua em imagens" (em três partes) publicado no blog
http://www.tecnoclasta.com/2009/07/24/historia-do-conquista-da-lua-em-imagens-parte-1/
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
“A presença humana no Sistema Solar nunca foi tão ampla”
Algo muito interessante li na coluna Ciência em Pauta da Scientific American Brasil de agosto deste ano (2012), com uma reportagem especial sobre sonda-jipe-robô Curiosity, naquela altura ainda não tendo chegado a superfície de Marte.
Os editores da revista anotam o seguinte na página 17:
Com a chegada [na órbita de Mercúrio em 2011 da sonda] Messenger, a Nasa e agências internacionais similares têm agora espaçonaves estacionadas em Mercúrio, Vênus, Marte e Saturno – sem mencionar a Terra e a Lua. Duas outras naves da Nasa estão a caminho de Júpiter e Plutão; outra deve deve atingir o planeta-anão, Ceres, em 2015. A presença humana no Sistema Solar nunca foi tão ampla.
E poderá ser ainda mais, com robôs espionando luas estranhas, que podem abrigar vida, ou mal compreendidos planetas externos.
É fantástica essa situação que vivemos. Estamos, enquanto humanidade, investigado muito de perto uma quantidade de áreas e objetos espaciais incríveis, produzindo uma quantidade de dados que possibilitam ampliar e qualificar nossos conhecimentos sobre o Universo.
Para os ufólogos e ufologistas, isso pode, absurdamente, ser algo desestimulante. Por quê? Porque embora tantos “olhos no espaço”, embora tantos canais de registro e divulgação de informações, ainda não tivemos UMA SEQUER PROVA de naves ou outro elemento indicando a presença de “alienígenas”. Enquanto ufólogos e ufologistas, continuamos nos “alimentando” de suposições e teorias conspiratórias (tipo “A Nasa esconde informações, porque o caos se instalaria” e outras pérolas que infantilmente divertem muita gente).
Das suposições eu gosto, enquanto hipóteses, enquanto possibilidades; teorias conspiratórias, cada vez mais me dão uma sensação de esvaziamento intelectual e escorregadela para um misticismo retrógrado, que pretende trocar a nossa tremenda angústia e ignorância – mesmo que consideramos todo o corpo de pesquisa e conhecimentos científicos disponíveis nesta segunda década do século XXI – por uma “esperança no além”, seja elas anunciadas por uma Virgem Maria os Asthar Sharan. Talvez isso esteja, como produto da evolução da espécie, registrado em nossa genética – a “vontade” ou “predisposição de acreditar”, para não nos “travar” pelo medo, pelos abismos da existência, auxiliando-nos na sobrevivência em um meio hostil desde os tempos da savana e das cavernas...
Os editores da revista anotam o seguinte na página 17:
Com a chegada [na órbita de Mercúrio em 2011 da sonda] Messenger, a Nasa e agências internacionais similares têm agora espaçonaves estacionadas em Mercúrio, Vênus, Marte e Saturno – sem mencionar a Terra e a Lua. Duas outras naves da Nasa estão a caminho de Júpiter e Plutão; outra deve deve atingir o planeta-anão, Ceres, em 2015. A presença humana no Sistema Solar nunca foi tão ampla.
E poderá ser ainda mais, com robôs espionando luas estranhas, que podem abrigar vida, ou mal compreendidos planetas externos.
É fantástica essa situação que vivemos. Estamos, enquanto humanidade, investigado muito de perto uma quantidade de áreas e objetos espaciais incríveis, produzindo uma quantidade de dados que possibilitam ampliar e qualificar nossos conhecimentos sobre o Universo.
Para os ufólogos e ufologistas, isso pode, absurdamente, ser algo desestimulante. Por quê? Porque embora tantos “olhos no espaço”, embora tantos canais de registro e divulgação de informações, ainda não tivemos UMA SEQUER PROVA de naves ou outro elemento indicando a presença de “alienígenas”. Enquanto ufólogos e ufologistas, continuamos nos “alimentando” de suposições e teorias conspiratórias (tipo “A Nasa esconde informações, porque o caos se instalaria” e outras pérolas que infantilmente divertem muita gente).
Das suposições eu gosto, enquanto hipóteses, enquanto possibilidades; teorias conspiratórias, cada vez mais me dão uma sensação de esvaziamento intelectual e escorregadela para um misticismo retrógrado, que pretende trocar a nossa tremenda angústia e ignorância – mesmo que consideramos todo o corpo de pesquisa e conhecimentos científicos disponíveis nesta segunda década do século XXI – por uma “esperança no além”, seja elas anunciadas por uma Virgem Maria os Asthar Sharan. Talvez isso esteja, como produto da evolução da espécie, registrado em nossa genética – a “vontade” ou “predisposição de acreditar”, para não nos “travar” pelo medo, pelos abismos da existência, auxiliando-nos na sobrevivência em um meio hostil desde os tempos da savana e das cavernas...
No planeta água, comer carne é abusar de um recurso cada vez mais escasso
Numa sessão da revista National Geographic Brasil de setembro (2012) é apresentado uma tabela com o consumo de água na produção de alimentos. Os dados se referem ao consumo do líquido por unidade de valor nutritivo (litro/kcal). E estarrecem: por exemplo, para produzir cereais (trigo, milho, centeio, arroz etc.) se gasta MENOS 10 VEZES água do que para produzir carne bovina. O índice é de 0,5 litro/kcal para 10,3 litro/kcal. Até na produção de carne de porco (2,2) e frango (3) se gasta menos água. Legumes e outros vegetais não ultrapassam o índice de 1,3 litro/kcal.
Assim é que quem se preocupa realmente com a sustentabilidade do planeta, afora considerações de ordem esotéricas (“espirituais”) ou éticas (a sessação da vida e a dor impingida a seres tão biologicamente próximos ao animal humano) sobre a matança de animais, há um motivo ambientalista evidenciado na absurda “necessidade” da água para que o camarada tenha o seu churrasco dominical.
Também não se está considerando os “custos” ambientais do desmatamento para a expansão das pastagens (como acontece na região amazônica e do pantanal brasileiros) e na produção da carne bovina nos matadouros e frigoríficos. Provavelmente, aí os números seriam ainda mais díspares e preocupantes. Tudo indica que o consumo do “prosaico churrasquinho” ou do “bifinho da mamãe” implica num impacto ambiental medonho. E há, sim, formas alternativas de uma alimentação saudável sem necessidade de tamanha matança e prejuízo ecológico.
Queremos salvar a Terra? Nos importamos com o futuro de nossos semelhantes? Mesmo? Então que tal diminuir o consumo de carne desses nossos irmãos, mamíferos com tantas semelhanças conosco?
***Nos últimos anos, tenho dito que sigo uma orientação vegetariana, e não que eu seja vegetariano restrito.
A razão principal do meu vegetarianismo é que quero evitar ao máximo causar sofrimento desnecessários a outros animais, concebendo que há uma hierarquia, estando os mamíferos no ponto mais alto da consciência e sensibilidade a dores físicas e emocionais. Considero também que há aspectos mais sutis, como a existência do corpo astral (ou algo que se assemelhe), que podem nos trazer prejuízos quando ingerimos a carne.
Mas acho que o humano é biologicamente um animal omnívoro. Ou seja, podemos comer carne. Por nosso livre arbítrio (mesmo que cheio de limitações), podemos nos abster de comê-la em situações de boa oferta de fontes proteicas e outros elementos nutricionais vegetais. Mas sempre me vem à cabeça as populações que vivem em ambientes extremos, como os esquimós daquele livro “No País das Sombras Longas”, onde a carne é completamente indispensável à vida. Obvio que, aí, o sacrifício é feito numa situação de extremo respeito àquele ser (respeito, reverência, agradecimento), e tudo – músculo, ossos, vísceras, couro (e até o conteúdo do estômago e intestino) – é aproveitado para a sobrevivência, sem haver mortes além do estritamente necessário.
Assim é que quem se preocupa realmente com a sustentabilidade do planeta, afora considerações de ordem esotéricas (“espirituais”) ou éticas (a sessação da vida e a dor impingida a seres tão biologicamente próximos ao animal humano) sobre a matança de animais, há um motivo ambientalista evidenciado na absurda “necessidade” da água para que o camarada tenha o seu churrasco dominical.
Também não se está considerando os “custos” ambientais do desmatamento para a expansão das pastagens (como acontece na região amazônica e do pantanal brasileiros) e na produção da carne bovina nos matadouros e frigoríficos. Provavelmente, aí os números seriam ainda mais díspares e preocupantes. Tudo indica que o consumo do “prosaico churrasquinho” ou do “bifinho da mamãe” implica num impacto ambiental medonho. E há, sim, formas alternativas de uma alimentação saudável sem necessidade de tamanha matança e prejuízo ecológico.
Queremos salvar a Terra? Nos importamos com o futuro de nossos semelhantes? Mesmo? Então que tal diminuir o consumo de carne desses nossos irmãos, mamíferos com tantas semelhanças conosco?
***Nos últimos anos, tenho dito que sigo uma orientação vegetariana, e não que eu seja vegetariano restrito.
A razão principal do meu vegetarianismo é que quero evitar ao máximo causar sofrimento desnecessários a outros animais, concebendo que há uma hierarquia, estando os mamíferos no ponto mais alto da consciência e sensibilidade a dores físicas e emocionais. Considero também que há aspectos mais sutis, como a existência do corpo astral (ou algo que se assemelhe), que podem nos trazer prejuízos quando ingerimos a carne.
Mas acho que o humano é biologicamente um animal omnívoro. Ou seja, podemos comer carne. Por nosso livre arbítrio (mesmo que cheio de limitações), podemos nos abster de comê-la em situações de boa oferta de fontes proteicas e outros elementos nutricionais vegetais. Mas sempre me vem à cabeça as populações que vivem em ambientes extremos, como os esquimós daquele livro “No País das Sombras Longas”, onde a carne é completamente indispensável à vida. Obvio que, aí, o sacrifício é feito numa situação de extremo respeito àquele ser (respeito, reverência, agradecimento), e tudo – músculo, ossos, vísceras, couro (e até o conteúdo do estômago e intestino) – é aproveitado para a sobrevivência, sem haver mortes além do estritamente necessário.
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Eram os deuses motociclistas?
Na interessante introdução feita pelo repórter alemão Ernst von Khuon no livro “Vieram os deuses de outras galáxia?” (com o subtítulo “Cientistas discutem as teses de Erich von Daniken”), publicado no Brasil em 1972 (originalmente saído na Alemanha em 1970), ou seja, logo após o lançamento das duas obras primeiras de Daniken, indicando a rápida e enorme repercussão que elas tiveram (deve-se também considerar o momento, quando a “corrida espacial” chega ao seu auge, com descida de astronautas americanos na Lua [“Um pequeno paço para um homem, mas um grande para a humanidade.”], causando uma comoção mundial, já iniciada com o cosmonauta russo Gagarim em 1961, orbitando a Terra pela primeira vez [“A Terra é azul!”]).
Khuon já nesta abertura do livro problematiza a associação de imagens milenares, feitas em pedra, caso de povos pré-colombianos na América Latina, a artefatos tecnológicos humanos contemporâneos (anos de 1960/70), caso de trajes e naves espaciais. Numa comparação um tanto jocosa, mas, por isso mesmo, bastante eficiente, ele diz que se é possível associar a imagem de um deus maia ou outra entidade de culturas mesoamericanas antiquíssimas a um astronauta da atualidade, melhor ainda, por maiores semelhanças, se poderia associá-lo a uma alegoria de um motoqueiro, com seu capacete, onde espia pelo visor, montado em sua possante Suzuqui ou Harley-Davison, cheia de “relógios”, luzes, velocímetro, odômetro e outros indicadores de desempenho da máquina, além de arabescos da conformação externa de um desses veículos velozes, de alta potência, com as reentrâncias próprias do motor, quadro, banco e, quem sabe, representação de pinturas do tipo "Easy Rider", com labaredas ou outros grafismos no tanque de gasolina e carenagens...
Nas palavras de Khuon:
“Acho eu que seria a coisa menos provável neste mundo que esses ‘astronautas’, que em eras primitivas venceram distâncias de anos-luz, se parecessem com os tripulantes dos voos espaciais da atualidade. O deus dos índios maias, no Templo das Inscrições, em Pelenque [México], bem podia ser visto como astronautas de nossos dias, mas, melhor ainda, como piloto de provas em uma motocicleta, com o pé no pedal e os instrumentos de controle em sua frente.”
E continua no mesmo parágrafo, complementando:
“É pouco provável que o astronauta de uma civilização mais adiantada do que a nossa usasse equipamentos parecidos com o usado por Neil Armstrong; a sua aparência deveria ter sido bastante diferente.”
Ressalta, ainda, o mais provável:
“Outrossim, a explicação dos arqueólogos de que o deus maia estaria realizando um culto continua igualmente crível, mesmo nessa formulação bastante vaga.”
A “vontade de acreditar” – sem uma boa dose de autoanálise e autocrítica – pode nos levar a grandes enganos, “vendo” em tudo indicações “óbvias” por aquilo que estamos “apaixonados”. Assim é que possíveis associações, mas não passando de remotas hipóteses, ganham status de “fato inconteste” na cabeça da pessoa, levando-a a um mergulho cada vez mais profundo naquilo que jamais passou de tese ou divagação, afogando o indivíduo numa intricada ilusão, que, às vezes, se torna o seu “sentido da vida”, tornando-se ainda mais “fortalecido” e “potente” quando encontra apoio em outros “crentes”, confrades, coirmãos, reunidos em uma comunidade de apoio mútuo.
Num dos artigos – “Inteligências em estrelas distantes – o sonho de Daniken e a realidade das chances biológico-evolutivas para inteligências extraterrestres” – desse mesmo livro organizado Ernst von Khuon, Joachim Ilies diz o seguinte (p. 54), de forma muito direta, simples e sintética:
“Todos nós conhecemos os casos de fanáticos por determinada ideia ou causa, os monomaníacos, que a cada passo encontram a prova de sua convicção. São indivíduos com ideia fixa, preconcebida, na qual baseia os seus fatos.”
Enfim, todo o cuidado na hora de observar algo para não moldá-lo de acordo com nossos desejos. Para uns, os deuses seriam astronautas, mas para outros, bem poderiam ser motociclistas...
*Como até já disse o prof. Ernesto Bono, todo cuidado para não fazer da ciência uma nova religião.
**Acho que não há nenhum caminho “seguro” ou único para a compreensão do mundo. A ciência contemporânea, em toda a sua precariedade inerente por ser ferramenta humana, esse ser ou, melhor, esse animal física e cognitivamente limitado, me parece, no momento, o menos falível ou falsificável, justamente porque é inerente ao seu método uma boa dose de auto-crítica e sua essência de hipóteses sempre provisórias, até que surjam outras com mais esclarecimento e menos falhas.
***Óbvio que o que diz o alemão Ernst - sobre os deuses serem motociclistas - é uma paródia ao que quer ver Daniken (astronautas). Aliás, em entrevistas, Daniken já teria admitido embustaes (alguns poderia dizer "estratpegias") deliberados “para captar a atenção do leitor” – como se ele estivesse escrevendo ficção, e não um ensaio apresentando hipóteses factíveis. Para mim isso é lamentável, porque destrói a confiança na "possibilidade de verdade", "forçando a barra" para persuadir o leitor sobre a realidade do que ele (daniken) está levantando.
Khuon já nesta abertura do livro problematiza a associação de imagens milenares, feitas em pedra, caso de povos pré-colombianos na América Latina, a artefatos tecnológicos humanos contemporâneos (anos de 1960/70), caso de trajes e naves espaciais. Numa comparação um tanto jocosa, mas, por isso mesmo, bastante eficiente, ele diz que se é possível associar a imagem de um deus maia ou outra entidade de culturas mesoamericanas antiquíssimas a um astronauta da atualidade, melhor ainda, por maiores semelhanças, se poderia associá-lo a uma alegoria de um motoqueiro, com seu capacete, onde espia pelo visor, montado em sua possante Suzuqui ou Harley-Davison, cheia de “relógios”, luzes, velocímetro, odômetro e outros indicadores de desempenho da máquina, além de arabescos da conformação externa de um desses veículos velozes, de alta potência, com as reentrâncias próprias do motor, quadro, banco e, quem sabe, representação de pinturas do tipo "Easy Rider", com labaredas ou outros grafismos no tanque de gasolina e carenagens...
Nas palavras de Khuon:
“Acho eu que seria a coisa menos provável neste mundo que esses ‘astronautas’, que em eras primitivas venceram distâncias de anos-luz, se parecessem com os tripulantes dos voos espaciais da atualidade. O deus dos índios maias, no Templo das Inscrições, em Pelenque [México], bem podia ser visto como astronautas de nossos dias, mas, melhor ainda, como piloto de provas em uma motocicleta, com o pé no pedal e os instrumentos de controle em sua frente.”
E continua no mesmo parágrafo, complementando:
“É pouco provável que o astronauta de uma civilização mais adiantada do que a nossa usasse equipamentos parecidos com o usado por Neil Armstrong; a sua aparência deveria ter sido bastante diferente.”
Ressalta, ainda, o mais provável:
“Outrossim, a explicação dos arqueólogos de que o deus maia estaria realizando um culto continua igualmente crível, mesmo nessa formulação bastante vaga.”
A “vontade de acreditar” – sem uma boa dose de autoanálise e autocrítica – pode nos levar a grandes enganos, “vendo” em tudo indicações “óbvias” por aquilo que estamos “apaixonados”. Assim é que possíveis associações, mas não passando de remotas hipóteses, ganham status de “fato inconteste” na cabeça da pessoa, levando-a a um mergulho cada vez mais profundo naquilo que jamais passou de tese ou divagação, afogando o indivíduo numa intricada ilusão, que, às vezes, se torna o seu “sentido da vida”, tornando-se ainda mais “fortalecido” e “potente” quando encontra apoio em outros “crentes”, confrades, coirmãos, reunidos em uma comunidade de apoio mútuo.
Num dos artigos – “Inteligências em estrelas distantes – o sonho de Daniken e a realidade das chances biológico-evolutivas para inteligências extraterrestres” – desse mesmo livro organizado Ernst von Khuon, Joachim Ilies diz o seguinte (p. 54), de forma muito direta, simples e sintética:
“Todos nós conhecemos os casos de fanáticos por determinada ideia ou causa, os monomaníacos, que a cada passo encontram a prova de sua convicção. São indivíduos com ideia fixa, preconcebida, na qual baseia os seus fatos.”
Enfim, todo o cuidado na hora de observar algo para não moldá-lo de acordo com nossos desejos. Para uns, os deuses seriam astronautas, mas para outros, bem poderiam ser motociclistas...
*Como até já disse o prof. Ernesto Bono, todo cuidado para não fazer da ciência uma nova religião.
**Acho que não há nenhum caminho “seguro” ou único para a compreensão do mundo. A ciência contemporânea, em toda a sua precariedade inerente por ser ferramenta humana, esse ser ou, melhor, esse animal física e cognitivamente limitado, me parece, no momento, o menos falível ou falsificável, justamente porque é inerente ao seu método uma boa dose de auto-crítica e sua essência de hipóteses sempre provisórias, até que surjam outras com mais esclarecimento e menos falhas.
***Óbvio que o que diz o alemão Ernst - sobre os deuses serem motociclistas - é uma paródia ao que quer ver Daniken (astronautas). Aliás, em entrevistas, Daniken já teria admitido embustaes (alguns poderia dizer "estratpegias") deliberados “para captar a atenção do leitor” – como se ele estivesse escrevendo ficção, e não um ensaio apresentando hipóteses factíveis. Para mim isso é lamentável, porque destrói a confiança na "possibilidade de verdade", "forçando a barra" para persuadir o leitor sobre a realidade do que ele (daniken) está levantando.
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Quando a religião sufoca e até esfola o conhecimento
No sábado retrasado olhei um filme que me deixou muito impactado e que recomendo a todos. O filme se chama “Alexandria”, produção espanhola de 2009, multipremiada e muito didática, contando, de forma romanceada, a história real da filósofa Hipátia, que viveu em Alexandria, no Egito, entre os anos 355 e 415, época da dominação romana naquela região do norte da África, mas sob pressão cada vez maior dos cristãos, que, de minoria oprimida, se tornam, cada vez mais, na maioria opressora.
Além dos aspectos do puro desejo de poder humano e manipulações de vários tipos, há na narração de “Alexandria” o caminho a que se chega com o obscurantismo, a fé cega, a superstição, ou seja, se chega a violência, a dor e castração da inteligência humana. Hipátia, uma pensadora independente, professora de ciências, como a astronomia, acaba sendo barbaramente apedrejada e arrastada pela cidade por monges cristãos, que a chamam de bruxa, herege, ateia etc. Aparece aí explicitamente a face da intolerância, do machismo extremo inerentes ao cristianismo e todas as seitas derivadas do patriarcalismo mais arcaico, autoritário, caso do judaísmo, de onde saiu Jesus.
Relacionei o filme a um e-mail que me foi repassado dias atrás. Contém uma “foto”, na verdade um desenho retratando Cristo conforme o estereótipo – um homem branco, magro, de cabelos compridos, com um rosto expressando dor, tendo na cabeça a terrível coroa de espinhos. Interessante que essa figura, que representa o amor incondicional, a bondade encarnada, a suprema compaixão, aquele que se dá pela salvação da humanidade... caso a gente não repasse o e-mail com tal figura, isto desencadeará uma grande desgraça... Referências como a de ter sido “divulgada até no [programa da Rede Globo] Fantástico", um presidente sem nome da Argentina (cujo filho morreu), uma pessoa chamada Alberto Martines (imaginei-o um mexicano ou costa-riquenho)... a expressão "o poder Ele tem", "milagres", ganhar na loteria, o prazo de "13 dias"... tudo isso me perturbou justamente pela superstição, o obscurantismo evidenciados; a crendice mais simplória e, aí é o ponto, ao que parece, compartilhada por pessoas que tenho o maior apreço e consideração, pela amizade e por suas capacidades intelectuais; pessoas que atuam em uma academia de ensino superior (assim como Hipátia, do filme “Alexandria”). Ao ler o texto, pensei que, só numa primeira olhada, já se vê a precariedade e, “ouso dizer”, o embuste erguido em cima de algo sem sustentação, sem base, que lida só com o nosso lado fantasista, paranoico, crédulo e medroso – o irracionalismo que contradiz todas as conquistas da humanidade em seu tortuoso caminho, mas que, a final, tem nos levado a um entendimento cada vez mais profundo do cosmos e da vida, vide as tantas e complexas conquistas científicas e tecnológicas de nosso uso cotidiano, afora coisas impensáveis como uma sonda movida a energia atômica pesquisando Marte.
Pois o filme “Alexandria”, dirigido pelo mesmo cara que fez o oscarizado “Mar Adentro” (Alejandro Amenábar), é um libelo pela liberdade de pensamento e contra concepções que travem a expansão do saber, travando a análise crítica e, especialmente, a auto-crítica. É um libelo pelo “amor à sabedoria” e contra a cegueiras do dogmatismo, da irreflexão. Hipátia é esfolada porque se recusou a aderir a uma crença que coíbe questionamentos e se impõe, se não pelo convencimento, pela força mais brutal.
Bem, era isso. Fica a dica de filme. Segue um link com a sinopse e treiler:
http://www.imagemfilmes.com.br/imagemfilmes/principal/filme.aspx?filme=103236
Além dos aspectos do puro desejo de poder humano e manipulações de vários tipos, há na narração de “Alexandria” o caminho a que se chega com o obscurantismo, a fé cega, a superstição, ou seja, se chega a violência, a dor e castração da inteligência humana. Hipátia, uma pensadora independente, professora de ciências, como a astronomia, acaba sendo barbaramente apedrejada e arrastada pela cidade por monges cristãos, que a chamam de bruxa, herege, ateia etc. Aparece aí explicitamente a face da intolerância, do machismo extremo inerentes ao cristianismo e todas as seitas derivadas do patriarcalismo mais arcaico, autoritário, caso do judaísmo, de onde saiu Jesus.
Relacionei o filme a um e-mail que me foi repassado dias atrás. Contém uma “foto”, na verdade um desenho retratando Cristo conforme o estereótipo – um homem branco, magro, de cabelos compridos, com um rosto expressando dor, tendo na cabeça a terrível coroa de espinhos. Interessante que essa figura, que representa o amor incondicional, a bondade encarnada, a suprema compaixão, aquele que se dá pela salvação da humanidade... caso a gente não repasse o e-mail com tal figura, isto desencadeará uma grande desgraça... Referências como a de ter sido “divulgada até no [programa da Rede Globo] Fantástico", um presidente sem nome da Argentina (cujo filho morreu), uma pessoa chamada Alberto Martines (imaginei-o um mexicano ou costa-riquenho)... a expressão "o poder Ele tem", "milagres", ganhar na loteria, o prazo de "13 dias"... tudo isso me perturbou justamente pela superstição, o obscurantismo evidenciados; a crendice mais simplória e, aí é o ponto, ao que parece, compartilhada por pessoas que tenho o maior apreço e consideração, pela amizade e por suas capacidades intelectuais; pessoas que atuam em uma academia de ensino superior (assim como Hipátia, do filme “Alexandria”). Ao ler o texto, pensei que, só numa primeira olhada, já se vê a precariedade e, “ouso dizer”, o embuste erguido em cima de algo sem sustentação, sem base, que lida só com o nosso lado fantasista, paranoico, crédulo e medroso – o irracionalismo que contradiz todas as conquistas da humanidade em seu tortuoso caminho, mas que, a final, tem nos levado a um entendimento cada vez mais profundo do cosmos e da vida, vide as tantas e complexas conquistas científicas e tecnológicas de nosso uso cotidiano, afora coisas impensáveis como uma sonda movida a energia atômica pesquisando Marte.
Pois o filme “Alexandria”, dirigido pelo mesmo cara que fez o oscarizado “Mar Adentro” (Alejandro Amenábar), é um libelo pela liberdade de pensamento e contra concepções que travem a expansão do saber, travando a análise crítica e, especialmente, a auto-crítica. É um libelo pelo “amor à sabedoria” e contra a cegueiras do dogmatismo, da irreflexão. Hipátia é esfolada porque se recusou a aderir a uma crença que coíbe questionamentos e se impõe, se não pelo convencimento, pela força mais brutal.
Bem, era isso. Fica a dica de filme. Segue um link com a sinopse e treiler:
http://www.imagemfilmes.com.br/imagemfilmes/principal/filme.aspx?filme=103236
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Hoje chegamos a Marte mais uma vez
Hoje de madrugada, 06 de agosto de 2012, a sonda-robô Curiosity (imagem de divulgação) pousou em Marte, numa manobra complexa. Vai desenvolver vasto estudo durante um ano marciano (equivalente a 687 dias na Terra). A Curiosity faz parte de uma série de sondas que há décadas estão investigando Marte. Trata-se de algo “bem mais em conta” do que se usar astronautas, como se fez na Lua até 1972. Mais barato, menos arriscado, menos traumático em caso de falhas fatais.
A Curiosty é o auge da exploração de satélite naturais e planetas, tal sua envergadura e possibilidades. São os humanos que chegam com seus instrumentos em confins inimagináveis para nossos antepassados de poucas gerações, atestando a evolução tecnológica possibilitada pela ciência humana.
Uma pena que não muitos se dão conta de quanto trabalho e saber se condensam num aparato como a Curiosity. Não raro, nossa “curiosidade” não vai além de superfícies ou se embrenha em caminhos onde o obscuro dá uma falsa noção de profundidade.
Segue um link com a notícia:
http://www.jb.com.br/ciencia-e-tecnologia/noticias/2012/08/06/sonda-de-us-25-bilhoes-pousa-com-seguranca-em-marte/
A Curiosty é o auge da exploração de satélite naturais e planetas, tal sua envergadura e possibilidades. São os humanos que chegam com seus instrumentos em confins inimagináveis para nossos antepassados de poucas gerações, atestando a evolução tecnológica possibilitada pela ciência humana.
Uma pena que não muitos se dão conta de quanto trabalho e saber se condensam num aparato como a Curiosity. Não raro, nossa “curiosidade” não vai além de superfícies ou se embrenha em caminhos onde o obscuro dá uma falsa noção de profundidade.
Segue um link com a notícia:
http://www.jb.com.br/ciencia-e-tecnologia/noticias/2012/08/06/sonda-de-us-25-bilhoes-pousa-com-seguranca-em-marte/
Não, o homem não foi a Lua... mas lobisomem existe, sim!
Pessoal,
Segue o meu comentário, aproveitando os 40 anos da última “descida” de astronautas americanos na superfície lunar, que vai se completar no mês de dezembro (se é que o mundo não vai pro brejo antes – hehe!!). “Descida” esta que tem despertado muitas polêmicas, com uma corrente acreditado que houve uma grande falsificação da tal presença humana no satélite natural da Terra.
Aceito contrapontos!
Há quase 40 anos atrás, em dezembro de 1972, encerravam-se as missões do projeto Apollo. “No total, foram feitas onze missões tripuladas no projeto Apollo, e seis delas pousaram na Lua, no total de doze astronautas que caminharam no solo lunar e lá fizeram experimentos científicos", registra a página em português da Wikipédia (indicação abaixo).
Além das missões específicas Apollo (começando pela fase de testes da Apollo 1, 4, 5 e 6), houve 20 (vinte) anteriores, que também testaram várias situações e equipamentos, aperfeiçoando as condições para as expedições lunares tripuladas e a descida na Lua, além de duas posteriores, antes da desativação completa do projeto Appolo – projeto este levado pela Nasa com extremo sucesso e grandes avanços tecnológicos e no entendimento astronômico, da formação planetária etc. (Outro sucedâneo é o próprio despertar do movimento ecológico e da internalização de uma visão global dos problemas humanos, ao se ter registros da “bolinha azul” lá do alto, fotografia que correu o mundo, tirada na última missão na Lua, a Apollo 17; não havia mais dúvida sobre a situação que vivíamos: um belíssimo planeta em meio ao inóspito e infinito espaço.)
Não há mistério maior na desativação do programa, já que a “Corrida Espacial” estava praticamente vencida pelos EUA e as prioridade político-econômicas mudavam no desenrolar dos anos de 1970. No artigo sobre a quase trágica missão Apollo 13 publicado no livro “1001 Dias que Abalaram o Mundo” (editora Sextante, 2009), há um parágrafo que sintetiza a questão:
“As missões à Lua foram determinadas por razões fundamentalmente políticas, num momento em que os Estados Unidos pareciam estar sendo vergonhosamente ultrapassados pela União Soviética na exploração do espaço. No entanto, a melhoria das relações americano-soviéticas – para não falar dos custos crescentes – levou os Estados Unidos a reavaliarem seu programa espacial. As missões lunares foram encerradas depois do retorno bem-sucedido da Apollo 17, em 1972.”
As “teorias da conspiração” muitas vezes parecem se focar na missão Apollo 11 (quando se trata, como dissemos, de um programa muito mais amplo); os adeptos acham improvável um nível tecnológico para a chegada de humanos na superfície lunar. Não consideram a enormidade dos recursos investidos e esforços científico-tecnológicos e a diversidade das evidências da “alusinagem” de homens na Lua a partir de 1969 – num total de 12 pessoas pisando o solo lunar em 6 missões tripuladas, como já mencionando. A “manipulação da Nasa” deveria ser altamente complexa e envolver milhares (ou milhões) de registros – incluindo filmes, fotos, objetos, documentos etc. Me parece até insano tala nível e volume de manipulações. Quantas pessoas teriam que guardar segredo? Algum astronauta ou técnicos, entre centenas envolvidos no longo projeto Apollo, “desconfirmou” o pouso na Lua? A agência espacial da União Soviética (Roskosmos) denunciou alguma falcatrua? Vão me dizer que o complô envolve EUA e URSS?
Particularmete, fico pensando qual é a avaliação dos “conspirativos” quando estão a bordo de um Boing 747 ou Airbus A380, que pode carregar 845 passageiros, numa altitude 15 mil e 200 metros, atingido 970km/h, atravessando os céus de Londres a Buenos Aires em poucas horas (como é o caso de uma das rotas aéreas que observo todos os dias lá da minha casa)? Acham isso improvável também? Trata-se de alguma enganação? Uma indução por meio de alguma droga que aplicam nos passageiros, fazendo-os sonhar que viajaram dessa maneira? Não percebem que voar num avião assim é apenas uma amostra das possibilidades da tecnologia humana já desenvolvidas? Não assistem TV via satélite? Ou satélite é outra baboseira para enganar os trouxas? Ora, a tecnologia usada nas missões Appolo eram tão de ponta, sem necessidade de viabilizá-las comercialmente, com fins militares em primeiro lugar, que ainda hoje não foram superadas.
Francamente... Acham-se sombras e outros elementos supostamente contraditórios em imagens de astronautas na superfície lunar, e tais imagens duvidosas – quem sabe, estas, sim, manipuladas – acabam convencendo muitos de que, “definitivamente o homem não foi a Lua” – mas, ao mesmo tempo, muitos destes mesmos “o-homem-não-pisou-na-lua” têm plena certeza da existência de lobisomens e mulas-sem-cabeça...
Não que não haja uma gama de coisas a que somos induzidos a acreditar; não que não existam enganações. Mas acho que é necessário se pesquisar muito e buscar sempre informações fidedignas, não caindo no sensacionalismo barato, fruto de má-fé ou da mente doentia.
* Na Wikipédia em português tem um bom apanhado sobre a projeto Apollo, que recomendo como dados confiáveis, com boas referências comprováveis e vários hipertextos e links complementares:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Projecto_Apollo
** Sobre a Teoria da Conspiração, há um bom e resumido apanhado no portal Terra:
http://www.terra.com.br/noticias/infograficos/homem-na-lua/teoria-02.htm
Abraços!
Iuri
# Como eu disse, não dá para ser ingênuo e achar que não há um jogo medonho por detrás de muitas coisas. Há hipótese bem interessante. Particularmente, nunca tive muita paciência para ver os “erros” nas fotos e vídeos. Suponho que vários “erros” podem ser plantados por pessoa que, não sei bem porquê, tem um gosto especial em burlar e “inventar histórias”. E o que era uma “brincadeira” se torna uma polêmica com ares de seriedade.
## A essência prece ser esta: alguém faz uma brincadeira, como a de "inventar" um "registro antiguíssimo de discos voadores em uma caverna", que se torna um “mistério” e que alguns (ou muitos) passam a dar alto crédito, mesmo diante da fragilidades das evidências. E disso pode surgir até uma nova igreja!
### Esses dias fiquei perturbado pelo envio de um daqueles e-mails "TU DEVES REPASSAR AGORAAAARGHH!!!”, sob pena de te acontecer alguma desgraça. Minha perturbação ficou por conta de quem estava me enviado aquilo: uma pessoa com doutorado e professor universitário... Vai o comentário que fiz na ocasião:
Aí está o e-mail [não está reproduzido aqui neste post]...
Começa por dizer que se trata de uma foto, quando é um desenho – obviamente de Jesus, conforme o estereótipo. Interessante que essa figura, que representa o amor incondicional, a bondade encarnada, a suprema compaixão... caso tu não a repasses, desencadeará uma grande desgraça na vida do preguiçoso, desatento ou cético internauta...
Referências como a de ter aparecido "até no Fantástico", um presidente da Argentina, uma pessoa chamada Alberto Martines (imaginei-o um mexicano ou costa-riquenho)... a referência a "o poder Ele tem", "milagres", ganhar na loteria, o prazo de "13 dias"... tudo isso me espanta pela superstição, o obscurantismo envolvidos; a crendice mais simplória e, aí é o ponto, ao que parece, compartilhada por pessoas com doutorado, profissionais bem remunerados da área da educação superior... Não, não é exatamente (ou somente) uma crítica: é uma vontade de entender o que está acontecendo... Me parece, também, um contradição - algo que se choca ao propósito do saber desenvolvido nas academias, no ensino e pesquisa universitárias, que, acho eu, justamente se estabelece para não sermos submetidos pela irracionalidade (mesmo que se possa dizer que o humano seja por natureza 98% irracional, e coisas como a religião não sejam necessariamente ruins, um mal, mas estratégias de conforto e compreensão do mundo aparentemente caótico em que vivemos).
Tem um cara que se chama Michael Shermer, articulista na Scientific American (já vi uns pedaços de palestras dele no Youtube) e editor de uma outra revista famosa, a Skeptic Inquirerer. Bem, ele diz que "sua intenção não é subestimar as pessoas que acreditam em 'coisas estranhas', mas sim entender por que elas acreditam" naquilo, sem cair num "dogmatismo científico". Nessa questão da "Foto de Jesus" eu estou por aí.
Outro ponto que também me surpreende, aí de um modo mais geral, é a nossa “alienação tecnológica” – e que levam pessoas a repassar mensagens que julgo estapafúrdias. Usamos inúmeros e sofisticados artefatos tecnológicos – eletrônicos, computacionais e mecânicos especialmente – sem que tenhamos uma noção ao menos básica da complexidade dos conhecimentos e habilidades humanas consubstanciadas num ato, por exemplo, de enviarmos uma mensagem via internet, anexando uma imagem ou vídeo; ou no ato de atendermos nossa mãe no celular, enquanto estamos nos deslocamos no elevador do aeroporto, onde embarcaremos numa viagem sem escala em um avião Airbus A380 de Porto Alegre até São Paulo... subjazem quase completamente esquecidos aí uma gama de fórmulas físico-matemáticas, química fina aplicada e de tantos outros conhecimentos gerados pela metodologia científica; parece que nos mantemos como crianças crédulas, despachando mensagens de um conteúdo confuso e do maior obscurantismo, da maior desconsideração aos conhecimento das diversas ciências – incluindo as humanísticas (caso da sociologia, ciência política, antropologia etc.)...
Uma ligeira leitura do texto deveria ser suficiente para alertar-nos sobre sua precariedade. E onde se esperava a sensatez, por se tratar de pessoas que trabalham em uma universidade, reduto da reflexão metódica e exaustiva, o que se vê, porém, é a mais rasa credulidade...
Há em nossas vidas uma crucial contradição, resultado do uso alienado, do “analfabetismo científico”, que nos mantém apenas na superfície, nas “interfaces” dos aparatos tecnológicos – o teclado do celular, da tela do computador, do controle remoto da TV, da direção do automóvel, da poltrona do avião, do creme vegetal sobre a fatia do pão de sanduíche etc. parece que não temos estímulo para entender “o que está pro trás”, qual a “magia” que está ali... Por certo isso exige um certo esforço intelectual (talvez aí esteja um dos nós da questão...), mas tal empenho revelaria que não há magia propriamente, mas um preciso funcionamento derivado de um enorme esforço acumulado de saberes.
Desenhos de 30 mil anos
Achei muito bacana um artigo – que segue mais abaixo –
falando de um documentário, que deve ser igualmente muito bonito (vou tentar
conseguir o DVD – segue no final um link para a sinopse e trailer do filme).
“A Caverna dos Sonhos Perdidos” é dirigido e narrado pelo
famoso cineasta alemão Werner Herzog. Fala sobre os desenhos feitos há 30 mil
anos, achados não faz muito, em 1994, no sul da França, ocultos ao fundo de uma
enorme caverna, chamada hoje de caverna de Chouvet (pouco conhecida em relação
a outra caverna famosa por suas pinturas rupestres, a de Lascaux, também na
França).
Já destaco para vocês o seguinte trecho do artigo:
“[...] perdemos nos dias de hoje esta integração com a
totalidade do cosmos, com a natureza. Somos seres dissociados da totalidade,
vivendo uma vida partida que se contrapõe ao mundo natural. Na escalada da
nossa história, na busca do conhecimento, do esclarecimento, fomos nos
afastando do mundo mágico das incursões fantásticas de nossos ancestrais,
tornando-nos escravos dos ditames da ciência. Para nós, torna-se ridículo
qualquer movimento nesta área, pois as tachamos próprias de sociedades
primitivas e sem cultura. Observando-se tais murais, a elegância contida nos
cavalos e demais animais da Caverna de Chouvet, percebemos que existe um
artista em cada um de nós, em cada ser humano. Mas, como exercer essa arte num
mundo tomado pela mercadoria? Como é possível integrar-se à paisagem, se todas
as nossas ações foram tomadas pela economia, que controla o nosso tempo e a
nossa alma?”
Uma ressalva: a expressão acima “escravo dos ditames da
ciência” poderia ser substituída por outros ditames, como o “ditames de uma
igreja” ou “de uma ideologia política” etc. Acho que todos os “ditames”, todo
dogmatismo, toda a explicação fechada é limitadora dos potenciais humanos.
Para mim, a ciência tem um enorme potencial transcendente,
que busca sempre se aprofundar, “ir além”, qualificar e expandir a compreensão
do mundo, das suas coisas, do próprio ser humano. O “achamento” da caverna,
aliás, é fruto do impulso científico, pois foi descoberta por três cientistas:
Jean-Marie Chouvet (de onde vem o nome da caverna), acompanhado de Cristian
Hillaire e Elliete Brunel, conforme está no artigo. Para quem já tem toda a
explicação do universo e sentido da vida dado por uma religião, filosofia ou
ideologia, por que continuar procurando?? Até porque a procura efetiva pode
levar a conhecimentos destrutivos de velhas crenças ou/e de compreensões
fragilmente embasadas...
Abraços!
Iuri
-------------------------------
A Caverna dos Sonhos Perdidos
Por Arlindenor Pedro*
Na instigante entrevista que deu ao jornalista Bill Moyers
(divulgada em vídeo no Brasil em 1988),
Joseph Campbell relata que ficou muito emocionado quando ele e sua mulher
visitaram a caverna de Lascaux , no sudoeste francês e interagiram com as
imagens dos artistas do paleolítico que deixaram imortalizadas suas obras de
arte nas profundezas das grutas, nas suas paredes.
Antes tinham visitado as catedrais medievais do interior da
Europa, e ele então aproveitou para fazer um paralelo entre os objetivos que
motivaram os artistas que criaram os belos vitrais dessas igrejas e as imagens
que encontrou dos pintores rupestres. O ambiente criado por essas figuras não
cumpririam as mesmas funções? Não seriam locais de adoração aos deuses, onde os
reflexos do mundo real seriam afastados e as mentes poderiam ser tocadas pelas
imagens, levando o observador para o mundo do oculto, do irreal, do fantástico - o mundo dos espíritos?
Levados pelos xamãs, assim descreveu Campbell, os jovens que
se iniciariam na caça desciam as profundezas da caverna e ali, em plena
escuridão, que só desparecia com as luzes dos archotes, desenvolviam cerimônias de contato com os espíritos presentes nos
animais que iriam abater mais tarde. As figuras desses animais, dispostas ao
longo das paredes, aproveitando as protuberâncias das pedras, numa postura de
movimento, iluminadas pelo fogo, tomam então vida, e como num filme, saltam aos
olhos. Ao som de música ritual e fumaças de
ervas inebriantes, chega-se então ao êxtase e ao desprendimento do mundo lá de
fora - o
rito de passagem muito presente nas sociedades primitivas. Campbell deduz,
então, que esta é a razão de que essas obras, feitas pelos homens do
paleolítico, se encontram, invariavelmente no fundo das cavernas, aonde não
existe luz e o som do exterior. Isto é, sem a interferência do mundo real.
Tais cerimonias tornam-se incompreensíveis para nós,
cidadãos das polis contemporâneas. Mas, são plenamente aceitáveis e necessárias
num mundo onde se articulam os conceitos de fluidez (onde é possível uma parede
falar, um animal se manifestar, um homem se transformar em uma árvore, etc.) e de permeabilidade (onde não
existem barreiras entre o mundo dos espíritos e o nosso mundo, o chamado mundo
real). Dessa forma, no seu êxtase, o xamã se eleva ao mundo dos espíritos e
leva com ele os participantes do cerimonial.
O cineasta alemão Werner Herzog também viveu essa
experiência do que nos fala Campbell. Mas, desta vez em outra caverna, a
caverna de Chouvet, próximo ao rio Ardèche, no sul da França.
Esta caverna foi descoberta pelo cientista Jean-Marie
Chouvet (de onde vem o nome da caverna) acompanhado dos cientistas Cristian
Hillaire e Elliete Brunel, em 1994, três dias antes do Natal.
Eles estavam à procura de uma corrente de ar indicativa da
presença de cavernas e toparam com uma fenda em um grande rochedo que os levou
a uma das maiores descobertas cientificas de todos os tempos: uma grandiosa
caverna, com cerca de 400 metros de extensão, aprofundando- se terra adentro.
No seu fundo depara-se com majestosos painéis, com inúmeras pinturas,
praticamente intactas, com cerca de 30 mil anos de existência.
Devido ao fato de que há algumas dezenas de milhares de anos
ter ocorrido um deslizamento que tampou toda a entrada desta caverna, ela
manteve-se intocada, transformando-se numa verdadeira cápsula do tempo, com a
história congelada em um momento.
Herzog, ciente desta descoberta e do seu valor para a
humanidade, desenvolveu um processo de negociação com o Ministério da Cultura
da França conseguindo, então, o feito de ser o único cineasta que conseguiu
mostrar imagens da Caverna de Chouvet, produzindo um documentário que tem um
inestimável papel para o debate da formação da cultura humana e do papel dos
mitos na nossa existência. Ele deu o nome ao documentário de “A Caverna dos
Sonhos Perdidos”, que exemplifica bem a sua visão do que viu e queria mostrar.
O governo francês, já experiente com os problemas que
surgiram em Lascaux, que teve que ser fechada devido ao mofo que surgiu nas
paredes, motivado pela respiração dos turistas, montou uma política de quase
total restrição de acesso ao sítio. Sua entrada está lacrada com uma porta, que
lembra a porta de um banco, e a permanência no seu interior é monitorada,
restringindo-se a um pequeno tempo. Desta forma, o tempo de Herzog e sua
pequena equipe foi restringido ao máximo, e ele só conseguiu a licença de
filmagem no interior da caverna pelo prestígio que desfruta junto aos
franceses, e ao tornar o filme disponível ao público francês como elemento
cultural, sem fins comerciais.
Temos então um filme muito bem acabado, escrito, dirigido e
narrado por ele, com imagens em 3D, o que dá a esta obra um caráter
espetacular, que merece ser visto. Destacam-se nele a fotografia, a música
inquietante do violoncelo do compositor Ernest Reijseger, além do texto
recitado pelo diretor, que nos leva a profundas reflexões. Uma obra que foge ao
clichê dos documentários científicos, possuindo a chancela característica de um
dos cineastas mais criativos do cinema contemporâneo, que sempre encarou o seu
oficio de forma intuitiva e como parte da sua própria existência, nos legando
uma obra extensa, onde a realidade funde-se com a ficção.
Participante do movimento do Cinema Novo Alemão e
influenciado pela Nouvelle Vague francesa e do Cinema Novo do Brasil, amigo e
admirador de cineastas e artistas brasileiros, como Nelson Pereira dos Santos,
Glauber Rocha, Milton Nascimento, e outros, Werner Herzog produziu grandes
clássicos do cinema pós-guerra, filmando várias obras na América do Sul. O
público brasileiro certamente conhece os filmes de 1972 “Aquire – A Cólera dos
Deuses ( que retrata a natureza humana submetida a um processo limite de tensão
que leva ao caos e a um total descolamento com a realidade ) e o de 1982,
Fitzcarraldo (onde é vivida a determinação de um alemão que move um barco por
sobre uma montanha na busca de concretizar a utopia de ver sua opera encenada
em plena Amazônia). Ambos os filmes têm um elenco grandioso, com elementos
estéticos inesquecíveis, onde, sem dúvidas, se destaca o polêmico ator Klaus
Kinski, amigo-inimigo de Herzog. Filmes com a marca registrada do diretor,
inclusive com o seu humor ácido e desconcertante nas falas de alguns
personagens.
Em determinado momento do documentário, com a câmera
acompanhando as sobras e luzes que emanam das figuras postas nos murais, um dos
cientistas pede aos visitantes um silêncio total, para que o som da caverna se
destaque. Nessa hora, chegamos a escutar o bater do coração dos visitantes.
Herzog propõe então a seguinte questão: ¨será o som dos nossos corações o que
escutamos, ou será o dos artistas que pintaram nessa caverna? Será que seremos
capazes de compreender a visão dos artistas através desse abismo de tempo?¨.
A câmera sai então da caverna e ao som da musica incidental,
nas imagens em 3D, tomamos contato com o entorno, com a exuberância do vale do
rio Ardèche, e para um pórtico de pedra chamado Ponto D’Arc . Herzog diz: “há
certa áurea de melodrama nesta paisagem (o rio, o marco, as árvores), retirada
de uma ópera de Wagner ou de uma pintura do romantismo alemão.
Seria essa a nossa ligação com eles? Esta representação da
paisagem como um evento operístico não pertence apenas ao romantismo: os homens
da idade da pedra podiam ter tido a mesma percepção ao retratar essa paisagem.”
Esta é também a minha opinião.
Fica claro, é plenamente perceptível, que perdemos nos dias
de hoje esta integração com a totalidade do cosmos, com a natureza. Somos seres
dissociados da totalidade, vivendo uma vida partida que se contrapõe ao mundo
natural. Na escalada da nossa história, na busca do conhecimento, do
esclarecimento, fomos nos afastando do mundo mágico das incursões fantásticas
de nossos ancestrais, tornando-nos escravos dos ditames da ciência. Para nós,
torna-se ridículo qualquer movimento nesta área, pois as tachamos próprias de
sociedades primitivas e sem cultura.
Observando-se tais tais murais, a elegância contida nos
cavalos e demais animais da Caverna de Chouvet, percebemos que existe um
artista em cada um de nós, em cada ser humano.
Mas, como exercer essa arte num mundo tomado pela
mercadoria? Como é possível integrar-se à passagem [obs.:
por provável falha na digitação, acredito que a palavra deveria ser
“paisagem”, e não “passagem”], se todas as nossas ações foram tomadas pela
economia, que controla o nosso tempo e a nossa alma?
Associamos a arte ao dinheiro e ao valor no mercado. Isto se
faz com a pintura, a música, o cinema, enfim, com a tudo o que possa pertencer
à “indústria cultural”.
Herzog associa a arte das cavernas a movimentos grandiosos,
tais como o que nos deu Schiller e Goethe. E ele tem razão, pois a manifestação
artística está associada ao mundo em que ela foi gerada. Um movimento, como o
romantismo alemão, é um momento único e se deu quando almas sensíveis fizeram
aflorar a sua arte a despeito das amarras sociais, avançando para um novo
tempo. A percepção do ambiente estava tanto presente para os artistas alemães
como para os artistas do paleolítico.
Acredito que na atualidade, com a força que tem a mercadoria
e o dinheiro, que se divide o homem da natureza e o impede de ter com ela uma
relação direta, isto está cada dia mais difícil de ocorrer. Dai então, a atual
crise do processo criativo onde se vaticina a morte da arte.
Platão nos propõe que saiamos da caverna para conhecer a
realidade, onde está a luz do sol. Mas, através das palavras de Sócrates, nos
diz que somos como um rebanho de carneiros que precisam de um pastor para
sobreviver. E nos diz, então, que o pastor (aquele que sabe) é quem deve
conduzir as nossas vidas. Sairíamos da caverna, porém veríamos os dias com os
olhos dos outros ( como fazemos no dia-a-dia com os especialistas nos meios de
comunicação, que nos explicam o que ocorreu e o que ocorrerá ), acentuando a
nossa postura de contemplação no mundo.
Ao contrário, acredito que devamos voltar à caverna, e pelas
mãos do xamã (nesse caso o artista) devamos experimentar o êxtase diretamente,
vivendo a sensação da inter-relação com a natureza e seus elementos míticos –
como os jovens caçadores, dos quais nos falou Joseph Campbell. A forma de
escaparmos da intermediação do mercado e do dinheiro ( que se coloca entre o
homem e a natureza) é chegarmos a uma relação direta com o cosmos e
experimentarmos nossas emoções num processo direto de vida-vivida.
Afinal, cada sensação na relação com o mundo é única, pois
certamente cada jovem caçador reagia à sua maneira aos estímulos dos espíritos
da caverna.
Serra da Mantiqueira, junho de 2012.
*Arlindenor Pedro – é professor de história, funcionário
público e especialista em Projetos Educacionais. Anistiado por sua oposição ao
Regime Militar, atualmente dedica-se à produção de flores tropicais na Região
das Agulhas Negras.
E-mail para contatos : arlindenor@newageconsultores.com.br
Blog: arlindenor. wordpress.com
Link com sinopse e o trailer:
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