terça-feira, 11 de setembro de 2012

Eram os deuses motociclistas?

Na interessante introdução feita pelo repórter alemão Ernst von Khuon no livro “Vieram os  deuses de outras galáxia?” (com o subtítulo “Cientistas discutem as teses de Erich von Daniken”), publicado no Brasil em 1972 (originalmente saído na Alemanha em 1970), ou seja, logo após o lançamento das duas obras primeiras de Daniken, indicando a rápida e enorme repercussão que elas tiveram (deve-se também considerar o momento, quando a “corrida espacial” chega ao seu auge, com descida de astronautas americanos na Lua [“Um pequeno paço para um homem, mas um grande para a humanidade.”], causando uma comoção mundial, já iniciada com o cosmonauta russo Gagarim em 1961, orbitando a Terra pela primeira vez [“A Terra é azul!”]).

Khuon já nesta abertura do livro problematiza a associação de imagens milenares, feitas em pedra, caso de povos pré-colombianos na América Latina, a artefatos tecnológicos humanos contemporâneos (anos de 1960/70), caso de trajes e naves espaciais. Numa comparação um tanto jocosa, mas, por isso mesmo, bastante eficiente, ele diz que se é possível associar a imagem de um deus maia ou outra entidade de culturas mesoamericanas antiquíssimas a um astronauta da atualidade, melhor ainda, por maiores semelhanças, se poderia associá-lo a uma alegoria de um motoqueiro, com seu capacete, onde espia pelo visor, montado em sua possante Suzuqui ou Harley-Davison, cheia de “relógios”, luzes, velocímetro, odômetro e outros indicadores de desempenho da máquina, além de arabescos da conformação externa de um desses veículos velozes, de alta potência, com as reentrâncias próprias do motor, quadro, banco e, quem sabe, representação de pinturas do tipo "Easy Rider", com labaredas ou outros grafismos no tanque de gasolina e carenagens...

Nas palavras de Khuon:

“Acho eu que seria a coisa menos provável neste mundo que esses ‘astronautas’, que em eras primitivas venceram distâncias de anos-luz, se parecessem com os tripulantes dos voos espaciais da atualidade. O deus dos índios maias, no Templo das Inscrições, em Pelenque [México], bem podia ser visto como astronautas de nossos dias, mas, melhor ainda, como piloto de provas em uma motocicleta, com o pé no pedal e os instrumentos de controle em sua frente.”

E continua no mesmo parágrafo, complementando:

“É pouco provável que o astronauta de uma civilização mais adiantada do que a nossa usasse equipamentos parecidos com o usado por Neil Armstrong; a sua aparência deveria ter sido bastante diferente.”

Ressalta, ainda, o mais provável:

“Outrossim, a explicação dos arqueólogos de que o deus maia estaria realizando um culto continua igualmente crível, mesmo nessa formulação bastante vaga.”

A “vontade de acreditar” – sem uma boa dose de autoanálise e autocrítica – pode nos levar a grandes enganos, “vendo” em tudo indicações “óbvias” por aquilo que estamos “apaixonados”. Assim é que possíveis associações, mas não passando de remotas hipóteses, ganham status de “fato inconteste” na cabeça da pessoa, levando-a a um mergulho cada vez mais profundo naquilo que jamais passou de tese ou divagação, afogando o indivíduo numa intricada ilusão, que, às vezes, se torna o seu “sentido da vida”, tornando-se ainda mais “fortalecido” e “potente” quando encontra apoio em outros “crentes”, confrades, coirmãos, reunidos em uma comunidade de apoio mútuo.

Num dos artigos – “Inteligências em estrelas distantes – o sonho de Daniken e a realidade das chances biológico-evolutivas para inteligências extraterrestres” – desse mesmo livro organizado Ernst von Khuon, Joachim Ilies diz o seguinte (p. 54), de forma muito direta, simples e sintética:

“Todos nós conhecemos os casos de fanáticos por determinada ideia ou causa, os monomaníacos, que a cada passo encontram a prova de sua convicção. São indivíduos com ideia fixa, preconcebida, na qual baseia os seus fatos.”

Enfim, todo o cuidado na hora de observar algo para não moldá-lo de acordo com nossos desejos. Para uns, os deuses seriam astronautas, mas para outros, bem poderiam ser motociclistas...


*Como até já disse o prof. Ernesto Bono, todo cuidado para não fazer da ciência uma nova religião.

**Acho que não há nenhum caminho “seguro” ou único para a compreensão do mundo. A ciência contemporânea, em toda a sua precariedade inerente por ser ferramenta humana, esse ser ou, melhor, esse animal física e cognitivamente limitado, me parece, no momento, o menos falível ou falsificável, justamente porque é inerente ao seu método uma boa dose de auto-crítica e sua essência de hipóteses sempre provisórias, até que surjam outras com mais esclarecimento e menos falhas.

***Óbvio que o que diz o alemão Ernst - sobre os deuses serem motociclistas - é uma paródia ao que quer ver Daniken (astronautas). Aliás, em entrevistas, Daniken já teria admitido embustaes (alguns poderia dizer "estratpegias") deliberados “para captar a atenção do leitor” – como se ele estivesse escrevendo ficção, e não um ensaio apresentando hipóteses factíveis. Para mim isso é lamentável, porque destrói a confiança na "possibilidade de verdade", "forçando a barra" para persuadir o leitor sobre a realidade do que ele (daniken) está levantando.

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