segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Realidade X Ficção


Na revista Galileu, saiu uma coluna do jornalista Carlos Orsi, onde ele faz uma abordagem que muitos de nós, interessados no tema (alguns “mais que interessados”), não vão gostar, prevejo (sem necessidade de clarividência alguma).

Segue o link:

http://revistagalileu.globo.com/blogs/olhar-cetico/noticia/2013/12/ovnis-existem-e-dai1.html

Destaco a seguinte passagem:

“A ideia de que a evolução da vida leva inevitavelmente à inteligência, de que a inteligência leva à tecnologia e a tecnologia, ao espaço, não passa de um preconceito antropocêntrico – na verdade, ocidental – a que fomos habituados pela ficção científica.”

Vale dar uma olhada – só pela ilustração da coluna: um cartaz do filme “Earth vs The Flying-saucers” (acima, numa outra reprodução, obtida na Wikipédia). Ali, estampada a visão que se popularizou sobre discos voadores e extraterrestres – humanoides vindos em naves metálicas circulares atacando os terráqueos...

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*Pois é, rapaz... Entretanto, o que temos a dizer, a não ser reproduzir relatos, narrações nossas ou de outros sobre “aparições”, contatos, avistamentos? Não temos elementos concretos ou alguma teoria muito bem concatenada, abalizada, que não dependam do “acreditar”... Podemos especular, óbvio, à vontade, mas não provar... Assim, qual seria a outra maneira de abordar o assunto por parte de jornalistas que cobrem ciência e tecnologia, caso da revista Galileu?

Eu sempre menciono: é imprescindível a todo ufólogo que não quer ficar preso a meras especulações ou, pior, a fantasias, ler “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, do Carl Sagan. Vejo a ufologia como um caminho – um caminho para a pessoa se tornar (ou ser um estudioso autônomo, autodidata) um cosmólogo, astrofísico, astrônomo, exobiólogo, biólogo de extremófilos, coisas assim.

Falando sério: nós todos (ao menos os mais jovens) deveríamos entrar nas universidades e grupos de pesquisa acadêmicos e trabalhar o assunto intensamente, a partir de nossa paixão pelo assunto “ufologia”. E assim, se for o caso, “forçar” uma outra abordagem por parte dos jornalistas. Sem um certo nível de ceticismo, caímos no culto (oculto? Ocultismo?), e não na pesquisa reconhecidamente válida.

E assim como há jornalistas “céticos”, há as matérias “crentonas” e outras totalmente “sensacionalistas”, como várias que saem na revista Ufo (mas sempre há coisas boas, uma delas, só para exemplificar, justamente sobre “Extraterrestres na ficção científica”, do Renato Azevedo, numa edição de 2011, dezembro – na mesma que há uma entrevista muito lúcida com o português Nuno Silveira, que já recomendei à leitura; entretanto, na mesma entrevista, é mencionado um outro “ufólogo”, que também é “tarólogo” e “membro da Ordem dos Cavaleiros Templários”... Aí fica difícil uma credibilidade pautada na ciência – e eu falo em ciência de uma forma amplíssima, ou seja, incorporando coisas como a teoria das cordas, teoria do caos, antropologia evolutiva, neurociência, sociologia da religião etc. Não aquela coisa muitas vezes chatézima e limitada que nos fizeram engolir na escola...

Abraços e continuemos o debate!!


** Certo. Muito obrigado pela tua atenção. Sempre agrega.

Eu também já compartilhei avistamentos incríveis. Obviamente, continuam ser OVNIs, já que jamais tive alguma indicação de que fosse uma nave extraterrestre ou algo que o valha. Embora a gente possa ficar meio “de cara” com jornalistas e cientistas (sem nos darmos conta de quanta asneira é dita por “ufólogos”, tipo o “ET Bilu é de verdade” e “Jesus descerá de um disco em outubro de 2009”, detonando qualquer possibilidade de “crédito”), “acreditar” que possa ser um veículo comandados por extraterrestres é uma coisa, ter “certeza” disto é outra (eu chamo isso de “fé”, muito semelhante a das pessoas que creem em santos, Virgem Maria etc.).

O jornalista da Galileu diz assim lá no texto dele:

“Quando o único ponto de partida é a ignorância – o objeto em questão é ‘não-identificado’, lembre-se – hipóteses podem ser multiplicadas ao infinito, sem nada que permita escolher uma no lugar da outra.”

É duro para nós da turma do “Eu quero acreditar” – subtítulo do último filme de cinema da série “Arquivo X” – termos tantas contrariedades para chegarmos ao “Eu tenho certeza absoluta”. Esse “limbo” pode ser angustiante, frustrante. Mas eu acho que é incontornável por enquanto.

Me considero cético, mas numa medida que julgo “no ponto” para, ao mesmo tempo, não engolir coisas do tipo “Sim, Ele nasceu de uma virgem”, mas não descartar a hipótese da existência concreta de um profeta chamado Jesus de Nazaré, que desencadeou um amplo movimento social, cultural e religioso há cerca de 2000 anos.

Todo o caso, a “verdade” de Bacon ou de qualquer um é um assunto de discussão infindável. Minha postura é a de que nosso aparato percepto-cognitivo, enquanto primatas dentro de um processo evolutivo planetário e cósmico, é muitíssimo limitado para entender a complexidade “das coisas”. Apenas uma fresta mínima – mas já suficiente para nos estarrecer e maravilhar – nos deixa espiar a amplidão da existência onde estamos metidos. Assim, a verdade é algo sempre provisório e contextual., além de extremamente falho. E cientista que se preze, um verdadeiro cientista, sabe muito bem disso – ao contrários dos “homens de fé”, que têm certeza das coisas e por isso fundam igrejas e partem convictos para a pregação peremptória...

Abraço!

Telescópios e a nossa visão sobre o Universo - da luneta de Galileu ao IceCube


Estamos, mesmo, ampliando a visão dos céus - a da própria vida na Terra!


Segue o link para um reportagem de 2009 mostrando a evolução dos telescópios, desde o usado por Galileu, passando pelo Hubble. Como diz o texto da Scientific American Brasil, "O telescópio provocou uma revolução na compreensão humana do Cosmos":

http://www2.uol.com.br/sciam/multimidia/dez_telescopios_que_mudaram_nossa_visao_sobre_o_universo.html

A sofisticação das observações não param. Você já devem ter conhecimento do IceCube (foto acima), na Antártida, que dizem inaugurar um “novo tipo de astronomia”.

“IceCube is a unique telescope at the South Pole. Most optical telescopes look at photons, but IceCube looks for evidence of a more mysterious particle called a neutrino”, diz no seu site oficial.

Vale uma boa “fuçada”:

http://icecube.wisc.edu/

Emociona-me ver tanta energia, recursos, conhecimentos e pessoas gabaritadas postas no escrutínio do espaço, mesmo que eu esteja longe de entender 1/100 do que que é apresentado pela complexidade do assunto. Entretanto, é incrível ver gente que não entende patavina de física, cosmologia, geologia, biologia etc. “pontificando” sobre “o que existe além”, ao mesmo tempo que desdenham de todo o conhecimento gerado pela pesquisa científica contemporânea, pautando-se em superstições e hipóteses de uma fragilidade colossal.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

“A ciência é minha religião” e “A Magia da Realidade”

Rapaz,

Indicar um livro [como “A Magia da Realidade”, de Richard Dawkins] é um prazer, redobrado quando a indicação cai no gosto da pessoa, e triplicado quando resulta em coisas assim, como a tua resenha [abaixo]. Tenho a sorte de ter amigos e conhecidos tão gente boas e realmente “fora de série” (que escaparam da bestificação naquele moedor de carne que aparece no filme/álbum “The Wall”, para falar mais uma vez na banda do Roger).

Quanto a frase “a ciência é minha religião”, sim, tenho usado a expressão um tanto chocante e paradoxal, no sentido de que, como forma de me “religar ao mundo”, deixei de lado, após um longo convívio com o misticismo de diversas vertentes (iniciado lá no meu batismo católico, comunhão e crisma, somado a experiência em áreas da teosofia, gnosticismo, espiritismo, umbanda e santo daime – só para falar de algumas); incorporei essas coisas de uma outra forma, preferindo cada vez mais depositar minha confiança (“fé”) nas “revelações” científicas – não naquela coisa muitas vezes rala e chata aprendida na escola formal (vinda normalmente de professores sem tesão), mas no que a gente pode acessar das pesquisas e literaturas científicas contemporâneas, tão vastas e complexas, que exigem muita dedicação para compreender (e que estou longe de abarcar, frise-se), além de ser um conhecimento permanentemente em construção/desconstrução. (Fico pensando em como somos alienados – mesmo das coisas que usamos no dia a dia: alienados tecnológicos, por exemplo; a esmagadora maioria sequer tem uma vaga noção de como funcionam os milhares de transistores que estão por detrás da superfície das telas e teclados, pelos quais repassamos por e-mail “correntes” do tipo “Repasse isso para 10 pessoas e aguarde um milagre da compassiva Virgem Maria, caso contrário, um vergalhão lhe atravessará o crânio fora a fora”... O que podemos esperar de uma massa tão desinteressada senão fácil manipulação ao irracional, ao “mágico”? Veja-se a quantidade de gente em templos e procissões, a partir de crenças fundadas em compreensões forjadas na Idade do Bronze, quando se concebeu as bases das religiões monoteístas contemporâneas?!)

Mas já viajo demais!

Muito obrigado pela deferência e mais uma vez parabéns pelo texto. Dawkins tem sido um dos meus “gurus”. Meu panteão de heróis está lotado!

Abraços!


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A MAGIA DA REALIDADE
Resenha por Bruno Seidel
Como de costume, aqui estou resenhando sobre um livro que acabei de terminar de ler. Trata-se de uma prática muito útil e eficiente que aprendi a desenvolver durante a graduação. Fica, inclusive, um conselho para todo tipo de leitor: sempre faça uma resenha ou “ficha de leitura” dos livros que você lê. Arquive em algum lugar esses resumos e retome-os quando estiver a fim de recordar o aprendizado que essa determinada obra lhe deixou. Sempre!
A resenha a seguir trata-se do livro “A Magia da Realidade”, obra do escritor Richard Dawkins. Aproveito a ocasião para demonstrar meu profundo agradecimento ao amigo e colega Iuri, que me indicou esse livro durante o “Madrugadão da Biblioteca” da Unisc, em setembro de 2013. Foi graças ao conselho do Iuri que eu conheci este livro, que me pareceu bastante interessante. “A ciência é a minha religião”, disse o próprio Iuri ao abordar o assunto tratado nessa obra. Tem tudo a ver com o que meus colegas e eu costumamos discutir em “papos cabeças” e eventuais conversas que fatalmente culminam em Economia Baseada em Recursos ou Singularidade.
Assim que o livro ficou disponível no acervo, tratei de retirá-lo e o devorei em quatro dias. Uma leitura extremamente leve, agradável, facílima de compreender e com ilustrações que tornam o conteúdo ainda mais simpático e assimilável. Aliás, que belíssimo trabalho do ilustrador Dave McKaen! Uma obra prima em termos de conteúdo e qualidade visual. Certamente, o melhor livro que li até agora nesse ano. Brigadão, Iuri!
 Life´s Show Time
Richard Dawkins optou por um método padrão de tratar praticamente todos os assuntos abordados em seu livro, divididos em doze capítulos: ele primeiro encarrega-se de apresentar alguns temas na versão contada pelas mitologias, religiões ou fábulas. Em seguida, ele desmascara todos esses mitos abstratos e desprovidos de fundamento com aquela versão que ele considera a “real”: a versão da ciência.
Temos diversos exemplos desmascarados pela ciência e que são contados em detalhes pelo livro: o que é um arco-íris; o que é um terremoto; porque existem tantos animais; como surgiu o ser humano; o que é o sol; como os continentes se formaram... todas as versões contadas durante séculos pela religião e pelas lendas têm seu espaço no livro, mas são devidamente desmascaradas por Dawkins. Eu diria até que é uma boa forma de calar a boca de muito fundamentalista religioso ou alienado que desmerece o poder da ciência e atribui tudo que existe à nossa volta a poderes divinos ou histórias inventadas há milênios atrás.
Dawkins bate de relho nesses mitos absurdos e põe os fundamentalistas religiosos no papel de ridículos. Ele diz que acreditar em lendas urbanas e histórias contadas pela religião é algo muito mais grave do que desmerecer a ciência: é acreditar que os grandes mistérios do mundo não podem ter explicação científica e nunca poderão. Quem acredita que o mundo foi criado em seis dias e que Eva surgiu da costela de Adão se nega a aceitar qualquer teoria científica ou desafio encarado pelos cientistas. Quem desmerece a teoria da evolução de Charles Darwin recusa-se a compactuar com qualquer descoberta científica que provém da teoria de seleção natural.
Eu já era um entusiasta da ciência antes de ler esse livro, já negava completamente a hipótese de haver um velhinho chamado Deus num céu coberto de nuvens fofinhas, já achava um absurdo certas lorotas empurradas goela abaixo pela igreja, já via fanáticos religiosos como alienados, já considerava a igreja uma instituição ultrapassada e desnecessária... mas com os exemplos e abordagens de Dawkins, esse conceito se tornou ainda mais evidente.
Me encantei com alguns exemplos fantásticos como o do nosso 185.000º avô: uma espécie de peixe já extinto e que habitava a Terra há cerca de 417 milhões de anos atrás. Dawkins compara a teoria da evolução das espécies com a teoria de evolução dos próprios seres humanos em vida. É tão difícil dizer quando uma espécie evoluiu pra outra como dizer “quando você deixou de ser criança e virou adolescente”, ou “quando passou de adolescente pra adulto”. Não são mudanças que ocorrem duma hora pra outra. No caso da evolução das espécies, são milhões de anos! Por essa razão, é impossível determinar quando uma espécie deu lugar a outra ou até mesmo “quando surgiu o primeiro homem”. São mudanças graduais que tornam essa pergunta impossível de ser respondida com precisão.
Eu tinha uma pequena dificuldade de compreender a teoria da evolução e de citar exemplos práticos. Agora não tenho mais! O curioso é que compreender essa teoria nos permite também entender muitas outras coisas. Entre elas, as próprias características físicas de nós, seres humanos, e até mesmo dos outros animais. Todas nossas características e atributos físicos são resultados de genes que acumulamos durante toda a evolução da espécie a qual hoje pertencemos.
Este livro é um prato cheio pra quem quer desmascaram religiosos insuportáveis ou até aqueles charlatões que se dizem dotados de poderes sobrenaturais. O sobrenatural, segundo Dawkins, é algo que não existe ou que ainda está por ser desmascarado pela ciência. Dentro dessa linha de raciocínio, não seria nenhum exagero concordar com a ideia de que “Charles Darwin matou Deus”.
Temos também outro cientista brilhante que tem papel destacado no livro: o gênio Isaac Newton. Aliás, cabe aqui uma ressalva: depois de ter lido o livro do Marcelo Gleiser (A Dança do Universo) e agora esse do Dawkins, me sinto seguro o suficiente pra afirmar: Isaac Newton é o maior cientista de todos os tempos. Além de ter descoberto a esplêndida teoria da gravidade, Newton teve uma importante contribuição para a nossa compreensão do que são as cores e a forma como elas se propagam através da luz. Tudo isso graças ao experimento do prisma e da formação dos raios de luz que formam o arco-íris. Dawkins ilustra esse exemplo com interessantes ilustrações e um passo-a-passo fácil de ser assimilado até para um asno como eu.
A ideia de que “somos um chorume no espaço” (HELFER, 2012) ganha ainda mais consistência nesse livro. Dawkins utiliza bons exemplos pra nos fazer entender que a Terra é mesmo menos significante que um grão de areia para o vasto universo. Mais ainda: o exemplo que ele dá usando bolas de futebol, uma semente de pimenta e uma ponta de agulha para ilustrar a distância que uma estrela tem da outra é mais uma prova de que somos verdadeiramente insignificantes.
Dawkins afirma que, se tivesse que apostar, diria que existe vida fora da Terra sim. É a mesma opinião que muitos cientistas renomados possuem (como Marcelo Gleiser) e que eu também defendo (só que a minha, obviamente, não significa nada). Porém, Dawkins justifica seu ponto de vista com todas ressalvas. É importante ter bem claro que não é bem assim para um planeta possuir condições de abrigar vida como a Terra (esse tipo de vida que nós conhecemos) e usa todo seu sarcasmo pra dar uma chinelada naqueles que acreditam ter visto ETs ou terem feito contato direto com alienígenas. Dawkins os coloca no mesmo lugar que os religiosos bitolados.
Algumas das lendas e mitos apresentados durante o livro chegam a ser até engraçados. Isso só reforça a ideia de que acreditar em teorias sobrenaturais é algo absurdo. E a principal conclusão que o autor tenta passar aos leitores é justamente a capacidade de enxergar a própria realidade (versão da ciência) como algo maravilhoso e admirável. A realidade é, por si só, fantástica e linda. Não precisamos de mitos ou fábulas pra contemplar a beleza do céu, do arco-íris ou das estrelas. Saber o que essas coisas são, de verdade, também atribui a elas uma beleza fascinante. Não precisamos ficar decepcionados ao descobrir que a lua não é a namorada do sol e sim um satélite que orbita em volta da Terra. Compreender as coisas como elas realmente são é, além de uma atitude mais inteligente, uma forma de contemplá-las em sua verdadeira essência.
 Minhas considerações
Particularmente, gostei demais de ter lido esse livro. Recomendo-o para todas pessoas que se interessam por ciência, mas que têm aversão a cálculos, nomes complicados e fórmulas mirabolantes. É um livro ideal para curiosos, não para cientistas. Curiosos que não têm a pretensão de se tornarem físicos, químicos, biólogos ou matemáticos, mas sim abrir a mente e compreender as coisas como elas realmente são. É um guia geral do ponto de vista científico.
Para um leigo como eu, que anda estudando, lendo e discutindo muito sobre assuntos envolvendo EBR e Singularidade, o livrou caiu como uma luva. Pude ter uma noção mais clara do que representa essa coisa que enxergamos chamada “luz”. Pude compreender melhor a teoria da evolução das espécies e esses animais chamados seres humanos. Pude observar exemplos que resumem bem como nossos continentes se formaram e porque nosso planeta possui esse aspecto que conhecemos hoje. Enfim, os exemplos são muitos.
Dawkins cita uma curiosa frase conhecida como a Terceira Lei de Arthur C. Clarke: “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia”. Isso nos remete àquela “profecia” de Ray Kurzweil: tudo que acontece Harry Potter será possível um dia. Mas Dawkins diz que a maioria das coisas prometidas pela ficção não vai acontecer. Algumas sim. Pois eu continuo com razões pra ser otimista e sigo apostando todas minhas fichas na ciência, que continua sendo, para mim, a única coisa que faz algo de bom pra nós nesse mundo. Bem diferente da religião, do governo ou do dinheiro.
Faço das palavras do Iuri as minhas: “a ciência é a minha religião.” Se um dia nós, seres humanos, tivermos a oportunidade de ressuscitarmos e sermos imortais, será graças a ela. E somente a ela. Torço muito para que um dia a bendita ciência consiga cumprir tudo aquilo que a religião já nos prometeu na tentativa de nos confortar somente. Se as verdades apresentadas pela ciência são mais fascinantes do que as lorotas inventadas pelas lendas e mitos, há boas razões pra acreditarmos que as promessas da ciência serão ainda melhores do que as da religião.
DAWKINS, Richard. A magia da realidade: como sabemos o que é verdade. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012;
GLEISER, Marcelo. A dança do universo: dos mitos de criação ao Big-Bang. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
OBS.: o livro encontra-se disponível aqui na Asscom. Deixarei ele por aqui até quinta, data prevista para devolução. Portanto, quem quiser dar uma espiada, sinta-se à vontade.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

“O assassino de Deus estava a bordo”


Um comentário sobre a expedição de Charles Darwin no navio Beagle (ilustração acima), nos anos 30 do século XIX, a partir de uma reportagem


Semana passada, ainda em minhas leituras sobre o naturalista Charles Darwin, achei uma matéria na Superinteressante de junho de 2007, alusiva aos 150 anos da teoria da evolução.

No parágrafo de abertura, os jornalistas Alexandre Versignassi e Rodrigo Rezende escrevem:

“E Charles Darwin criou o homem. Ou, pelo menos, inventou o que hoje nós conhecemos como homem. Antes dele, éramos o centro do Universo, a obra sublime da criação. Agora somos apenas mais uma entre milhões e milhões de espécies, um bicho de origem nada especial.”

Uma molécula está na base do surgimento de toda a vida orgânica no planeta Terra. É um processo tão longo, que fica difícil ser pensado por nossa mente limitada retroceder. Quem consegue imaginar uma escala de 4 bilhões de anos, quando, estima-se, a formação desta molécula mal iniciou? O big-bang ficaria ainda mais inacessível para nossa pobre cognição: 13,7 bilhões de anos.

Algo foi decisivo para Darwin desenvolver as suas observações e raciocínios. Ele - “o assassino de Deus” - viajou por quase cinco anos no navio Beagle, cujo objetivo primeiro era mapear a costa da Patagônia, custeado pelo governo britânico. O capitão Robert FitzRoy teria escolhido Darwin, naquela altura um rapaz de 22 anos, pelo formato do seu nariz: “sinalizava profundidade de caráter”, cita-se na reportagem da Super, como palavras do coordenador da embarcação e da expedição.

A “morte de Deus” decretada pelo evolucionismo proposto por Darwin, exposto em livros como “A Origem das espécies” e “A Origem do homem”, tem ligações com um arquipélago, que ele visitou e analisou em pormenores a partir de 1835, quando o navio atracou no “inferno”, outra expressão da capitão Fitz Roy para aquelas paragens em meio ao Oceano Pacífico, a mil quilômetros da costa do Equador:

“O gatilho para esse pensamento veio quando ele percebeu diferenças instigantes entre os bicos de uma espécie de passarinho das Galápagos, os tentilhões. Em uma ilha eles tinham bicos grossos, bons para quebrar nozes. Em outra, longos e finos, ideais para arranjar comida em frestas. Darwin imaginou que aquelas aves deviam ter se adaptado de algum jeito. Por mágica? Não: por um processo de seleção que levou gerações. Em ambas as ilhas teriam nascido pássaros de bico fino e de bico grosso. Naquela onde havia nozes para comer, só estes últimos teriam sobrevivido.”

Versignasse e Rezende arrematam: “A partir desse raciocínio simples, nascia um monstro” – “a ideia mais poderosa de todos os tempos”, está dito no sumário.

“Darwin descobriu como a vida pode existir sem a intervenção divina”, sintetiza-se no título na capa desta Superinteressante. Deus estava dispensado e, na verdade, estava atrapalhava o entendimento da existência da vida. Entretanto, alguns ainda choram a perda, insistindo no mito patriarcal – do pai que tudo criou nos mais mínimos detalhes, e vigia ferozmente, como um leão o faz com suas fêmeas e filhotes na savana africana.

Mapas de uma viagem fascinante feita por um homem extraordinário da Era Vitoriana


Algo que achei muito bacana, com um certo layout “retrô”, é o site “AboutDarwin.com”, com TODOS os mapas da viagem do naturalista Charles Darwin a bordo do navio Beagle, custeado pelo império britânico para analisar a costa da Patagônia nos anos 30 do século XIX, mas que acabou sendo, como vocês sabem, uma viagem de pesquisa fundamental para o desenvolvimento da teoria evolucionista, hoje hegemônica – embora criacionistas insistam em seus dogmas de impossível comprovação, baseando-se em escritos da Idade do Bronze, interpretados de forma literal e não como histórias lendárias e apologéticas.

Aí está:

http://www.aboutdarwin.com/voyage/voyage01.html

Todo o site é interessantíssimo*. Fiquei imaginando eu, um piá, com uma coisas dessas para ficar “brincando”. Santo Cristo! Como teria gostado! Assim como gostei da enciclopédia que o meu pai comprava por fascículo, “O Mundo em que Vivemos” – pensando hoje, uma das coisas mais importante para mim e meus irmãos abandonarem explicações mais místico-religiosas (afeitas a minha mãe devota), para se enfronhar na busca de conhecimentos menos dogmáticos e mais práticos.

Os “britanófilos”, como o Rafa “Bala” Amorim e Alexandre Fox poderão se deliciar com fotos interessantíssimas de locais que fazem referência a vida, aos estudos e homenagens a Darwin em Londres, Downe, Cambrige, Shrewsbury etc.

http://www.aboutdarwin.com/pictures/pictures_01.html

Há, como sempre digo, muita fascinação na abordagem científica. Entretanto, também há um apelo para buscarmos avidamente o “sobrenatural”, carentes que somos, enquanto espécie humana, pela atávica sensação de solidão cósmica e fragilidade existencial. Como mariposas, frequentemente nos chocamos contra a luz sedutora, às vezes matando para sempre esta nesga cognitiva que resiste ao entorpecimento aquecido pela promessas de companhia e proteção transcendentais. A biografia dolorida de Darwin adulto demonstra muito bem o que é uma lenta saída do útero mágico para o frio polar da “vida como ela é”. Graças que o caminho já foi feito e podemos dispensar o drama de matar deus em nossos corações.


*Os materiais e referências usados no “AboutDarwin.com” envolvem instituições como a Royal Society (Londres) e a Cambridge University. Sobre quem desenvolveu o site, está dito: “This website was created by me, David Leff. I am an amateur scholar of the History of Science, with a focus on scientific developments during the Victorian era (around 1835 to 1900).” Anoto isso para reforçar o que diz Oliver Sacks em "Diário de Oaxaca": muitas vezes os "amantes da ciência", por seu interesse genuíno, conseguem ir mais longe na busca de "revelações". Sasks manifesta o seu "mal-estar em relação aos meios oficiais e ultracompetitivos da ciência contemporânea", que deturpam muito o sentido da busca do conhecimento, tornando um ambiente de vaidades cretinas, dinheiro, corrupções e facadas nas costas.

**Os viajantes do século XIX são mesmo fascinantes. Diários de expedições no geral são muito bons – a gente vai viajando junto! Darwin teria se inspirado em Humboldt. Aqui mesmo em Santa Cruz, tivemos a visita de um viajante, menos famoso mundialmente – embora fosse amigo de Humboldt –, mas igualmente observador, que registrou coisas muito interessantes no passado da região: Avé-Lallemant, médico, também alemão, e que foi financiado diretamente por D. Pedro II em suas excursões pelo Brasil (morou no Rio de Janeiro). Aliás, as narrativas de Lallemant (“Viagem pela Província do Rio Grande do Sul”, 1858) serviram de base para um romance que se passa aqui no município: “A Valsa da Medusa”, de Valesca de Assis (que vem a ser esposa do escritor mais afamado, Luiz Antônio de Assis Brasil, notável por seus romance históricos sobre o RS).

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Demos graças...



Demos graças... às bactérias!

Mais do que qualquer deidade abstrata, criadas e desenvolvidas nas diversas tradições culturais da breve história humana, caso do deus único do cristianismo, judaísmo e islamismo, talvez uma das nossas grandes reverências deveriam ser não para tais “entes transcendentais”, mas para as tão terrenas bactérias!

No caso, nossa reverência deveria ser às bactérias presentes em plantas que fixam o nitrogênio. No livro “Diário de Oaxaca”, de Oliver Sacks, o afamado neurologista, professor na Universidade de Columbia, EUA, autor de várias obras de divulgação científica, diz o seguinte:

“Os animais, os vegetais superiores e até as ceratofiláceas [‘plantas aquáticas de folhas finas e muito divididas’...] podem se achar superiores, mas em última análise são todos dependentes de aproximadamente cem espécies de bactérias, pois só elas conhecem o segredo de fixar nitrogênio do ar para que seja possível construir proteínas”. (p. 48)

Ele explica:

“Somos banhados em nitrogênio; quatro quintos da atmosfera compõem-se desse elemento. Todos nós, animais, plantas e até fungos precisamos produzir ácidos nucleicos e aminoácidos, peptídeos e proteínas. Mas nenhum organismo além das bactérias é capaz de usá-lo diretamente. Por isso, somos todos dependentes dessas bactérias fixadoras de nitrogênio para converter o nitrogênio atmosférico em forma de nitrogênio que possamos usar. Sem isso, a vida na Terra nunca teria ido muito longe.” (p.50)

A observação sobre a importância de determinadas plantas serem mantidas no solo – permitindo a continuidade de cultivos, ou seja, a existência da agricultura e, consequentemente, da pecuária –, é antiga. Mas saber-se o porquê disso é relativamente recente:

“Só no século XIX percebeu-se que os estranhos nódulos presentes em raízes de muitos legumes eram cheios de bactérias, e que estas, com suas enzimas especiais, podiam fixar o nitrogênio atmosférico e disponibilizá-lo para a planta. Quando por fim essas plantas se decompõem, os compostos de nitrogênio, agora assimiláveis, podem ser liberados no solo [permitindo o desenvolvimento dos vegetais, que por suas vez, alimentam os demais seres dentro da cadeia alimentar]. (p.51)

A dádiva da vida, da vida humana em específico, tem a ver com um longuíssimo e complexíssimo processo evolutivo do planeta. E as bactérias têm um peso fundamental, já que são seres indispensáveis a vida humana. Assim, “elas” mereceriam muito do nosso reconhecimento. Entretanto, quão pouca consideração para fatos concretos, e quão grande devoção para figuras do reino do fantástico e do incorpóreo.

Um “culto às bactérias” ao menos teria uma autenticidade comprovada: são essas criaturas que permitem a nossa existência; não se necessita de fé para terem algum efeito; basta a observação de que sem a sua “intervenção”, seres humanos, eu, tu, nós jamais teríamos existência... Amém [“assim seja”]!

*Imagem: "Nostoc Cyanobacteria, with Heterocysts Important in Nitrogen Fixation"

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O caso do olinguito



Vocês devem ter acompanhado a notícia, que circulou no final da semana retrasada: pois uma nova espécie de animal, “batizado” de olinguito, mamífero habitante de florestas na região andina do Equador e da Colômbia, foi descoberto, ou melhor, catalogado – já que era avistado, mas confundida com outro animal, o olingo – como uma nova espécie de carnívoro (Bassaricyon neblinae, da família Procyonidae, onde estão os guaxinins). Há 35 anos não se registrava um animal desse tipo no continente americano, cuja feição e corpo parecem fundir gato e urso.

Kristofer Helgen, do Museu de História Natural do famosíssimo Instituto Smithsonian, de Washington, que chefiou a equipe de pesquisa do olinguito, disse algo que eu achei especial:

- A descoberta nos mostra que o mundo não está completamente explorado e que seus segredos mais elementares  não foram revelados.

Complementando:

- Se ainda é possível encontrar novos carnívoros, quais outras surpresas nos esperam?

Quer dizer, muitos “mistérios” e “revelações” estão pela frente, aqui na concretude do Planeta Terra.

Acho que existe muita energia desperdiçada em especulações sobre mulas-sem-cabeça e lobisomens; nos apegamos a seres, objetos e situações do campo do lendário, da fantasia, do irracionalismo, da especulação místico-religiosa, enquanto uma riqueza de “desacobertamentos” maravilhosos nos rodeiam no aparente “mundo ordinário”.

Na ânsia do extraordinário, extrapolando em desvarios, passamos batidos pelo fascinante mundo dos seres reais, caso do felpudo avermelhado, de grandes olhos brilhantes, o simpático olinguito (ilustração acima).