quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Ciência e moral



Para refeletirmos, duas passagens do livro de Michel Shermer (foto acima), "Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas: Pseudociência, superstição e outras confusões dos nossos tempos", publicado no ano passado(2011) aqui no Brasil pela JSN Editora:


CIÊNCIA

"O que separa a ciência das demais atividades humanas é o seu compromisso com a natureza experimental de todas as suas conclusões. Não há respostas conclusivas na ciência, apenas graus variáveis de probabilidade. Mesmo os “fatos” científicos são apenas conclusões confirmadas em tal grau que se torna razoável oferecer-lhes uma concordância provisória, mas esse assentimento nunca é definitivo. A ciência não é afirmação de um conjunto de crenças, mas um processo de investigação voltado para a construção de um corpo testável de conhecimentos constantemente aberto a rejeição ou confirmação. Em ciência, o conhecimento é fluido e a certeza, fugaz. Isso está no cerne de suas limitações. E isso constitui também a sua maior força". p.155


MORAL

"A moral não existe na natureza e, portanto, não pode ser descoberta. Na natureza existe apenas ações – ações físicas, biológicas, humanas. Os humanos agem no sentido de aumentar sua felicidade, seja lá com definam pessoalmente. As sua ações se tornam morais ou imorais apenas quando outra pessoa as julga como tais.. Assim, a moralidade é a rigor uma criação humana, sujeita a toda sorte de influências culturais e construções sociais, do mesmo modo que ocorre com outras construções humanas". p.154 

"Em um dia, fui a outro planeta e voltei", disse J. Cameron




Dias atrás mencionei o feito do projeto Stratos, com um salto de paraquedas de altitude estratosférica (mais de 39 mil metros), quebrando um recorde e, mais uma vez, desafiando limites físicos dos humanos através de muita preparação e tecnologia. (Aproveito para dar a dica deste e outros vídeos: “O ponto de vista de Felix durante o Salto - Red Bull Stratos”, em http://www.redbull.com.br/cs/Satellite/pt_BR/Video/O-ponto-de-vista-de-Felix-durante-o-Salto-Red-021243271142460)

Pois agora segue abaixo o link para aa reportagem onde o recorde se dá de maneira "inversa", quer dizer, um humano chega ao mais profundo abismo do planeta (quase 11 mil metros), no oceano, e não nos céus (não sei porquê se usa “céu” no plural...).

Como disse James Cameron, o piloto da cápsula submarina, “fui a outro planeta". Claro que o também cineasta (Avatar e Titanic) está se referindo ao tipo de ambiente e vida que existem em mais este lugar extremo da Terra – e não em Marte ou alguma lua ou planeta em Alpha Centauri.

Temos companhias insuspeitadas aqui mesmo nesta bola flutuante nos confins do universo, vivendo sem luz alguma, sob pressões absurdas em fossas oceânicas. E queremos saber se há vida para além deste pontinho cósmico onde habitamos. OK. Mas, muitos de nós, mal sabemos o que de fato existe aqui na nossa “casa”. Não só não sabemos, como não valorizamos. Corremos atrás de fadas, anjos, espíritos, mulas-sem-cabeça e ETs. Queremos nos maravilhar, ora! Queremos que haja "algo além". Mas o fato é que estamos muito aquém do potencial que realmente temos aqui, concretamente: descobrir e compreender os seres e as coisas que nos rodeiam, usando ferramentas como a biologia, a física, química, matemática, engenharias; a psicologia evolutiva, a sociobiologia, a filosofia acadêmica, a antropologia cultural etc.

Ou seja, a “magia da existência” pode se revelar por fórmulas acessíveis, sem depender de clarividência e outros esoterismos;  basta uma dedicação, um esforço sério a estudos e a habilidades reais e atingíveis por nossos cérebros, por nossos cinco sentidos – ferramenta que a evolução das espécies nos dotou após milhões de anos.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Monte Erebus - uma expedição pelas páginas da revista...

A National Geographic Brasil publicou em sua edição do último mês de agosto deste ano uma reportagem: “Monte Erebus: um mundo invertido na Antártica”.

E foi um grande prazer lê-la. É uma forma de "viajar" junto na expedição a esse lugar extremo da Terra – um vulcão na Antártica. Estiveram lá cientistas e a jornalista, Olivia Judson, que escreveu a matéria. Transparece que se trata de gente jovial, sem clima algum de "seriedade absoluta" – a não ser nos cuidados com a saúde e a pesquisa em si. A emoção vem de “conhecer” lugares e coisas que se ligam ao miraculoso universo onde vivemos. Embora um dos membro seja um exobiólogo, o pessoal que estava lá não buscava indícios de ETs. O que buscavam, em última instância, são indicações “de onde vem” e “como acontece” a vida no planeta. Ou seja, os aspectos químicos, físicos e biológicos  que nos fizeram e nos fazem seres terráqueos.

Acho que o grande barato está aí, neste buscar entender o labirinto onde estamos todos metidos. Uma pequena pista, uma pecinha do infinito quebra-cabeça às vezes se insinua e a gente avança uma casa no jogo.

Para quem gosta deste assunto envolvendo “extremófilas: formas de vida que prosperam nos mais radicais ambientes que este planeta pode oferecer – ácido fervente, por exemplo”, segue uns trechos selecionados.

Para quem quer ver toda reportagem e IMAGENS MAGNÍFICAS, segue o link para a reportagem completa:


http://viajeaqui.abril.com.br/materias/monte-erebus-antartica-vulcao


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NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

EDIÇÃO 149 - AGOSTO DE 2012 - 27/07/2012


Monte Erebus: um mundo invertido na Antártica

Enquanto os cientistas tremem de frio, micróbios proliferam no solo de um vulcão

por Olivia Judson

(trechos da reportagem)

Embora os solos [em torno da cratera no Monte Erebus] sejam quentes – suas temperaturas podem chegar a 65°C –, o ar logo acima não é. Além disso, a menos de 1 metro de distância do ponto quente, a temperatura do solo cai drasticamente. A acidez também muda. No ponto quente, o solo é neutro; a pouca distância, ácido. E estéril: frio, seco, ácido e hostil à vida.

A presença dessas ilhas [de vida no entorno do Erebus] inspira questões intrigantes. Que micróbios vivem ali, e de onde vieram? Micróbios podem viajar no vento por centenas de quilômetros. Será que provêm dos solos quentes de vulcões mais ao norte? Ou será que os micróbios do Erebus são únicos, e – o que seria fascinante – terão vindo das profundezas da Terra? A biosfera da subsuperfície, onde esses organismos vivem em rochas muito abaixo da superfície terrestre, é um dos ecossistemas menos conhecidos e estudados do planeta. Mas pode ser um dos maiores – algumas estimativas indicam que um terço de todas as bactérias da Terra talvez viva lá – e dos mais estranhos. Esses micróbios não ganham a vida extraindo energia solar. Eles a obtêm de outras fontes, como do ferro ou do hidrogênio. Esse ecossistema profundo e escuro também poderia ser um dos mais primitivos do planeta e abrigar formas de vida que há muito tempo vêm seguindo um caminho evolucionário separado.

(...)

Herbold [um dos pesquisadores da expedição ao Monte Erebus] e eu acabamos falando sobre as estrambóticas arqueias. “São estranhas demais”, diz Herbold. “Não consigo entendê-las.”

As arqueias compõem um dos três ramos principais, ou domínios, da árvore filogenética. (Os outros dois são as bactérias e os eucariotos, organismos com núcleo nas células, como as plantas, os fungos e os animais.) E, embora as arqueias também vivam em lugares corriqueiros, como o mar aberto, têm fama porque são extremófilas: formas de vida que prosperam nos mais radicais ambientes que este planeta pode oferecer – ácido fervente, por exemplo. Assim, não é de surpreender que elas estivessem à espreita naqueles solos quentes do monte Erebus.

Essas arqueias antárticas, porém, são um tanto misteriosas. Encontradas em solos que o grupo coletou em viagens anteriores ao Erebus, até agora elas são conhecidas apenas por sequências de DNA, as quais têm pouca semelhança com as das arqueias descobertas em outras partes. Isso sugere, talvez, que elas de fato vêm seguindo o próprio curso evolucionário há muito, muito tempo.