Rapaz,
Indicar um livro [como “A Magia da Realidade”, de Richard Dawkins] é um prazer, redobrado quando a indicação cai no gosto da pessoa, e triplicado quando resulta em coisas assim, como a tua resenha [abaixo]. Tenho a sorte de ter amigos e conhecidos tão gente boas e realmente “fora de série” (que escaparam da bestificação naquele moedor de carne que aparece no filme/álbum “The Wall”, para falar mais uma vez na banda do Roger).
Quanto a frase “a ciência é minha religião”, sim, tenho usado a expressão um tanto chocante e paradoxal, no sentido de que, como forma de me “religar ao mundo”, deixei de lado, após um longo convívio com o misticismo de diversas vertentes (iniciado lá no meu batismo católico, comunhão e crisma, somado a experiência em áreas da teosofia, gnosticismo, espiritismo, umbanda e santo daime – só para falar de algumas); incorporei essas coisas de uma outra forma, preferindo cada vez mais depositar minha confiança (“fé”) nas “revelações” científicas – não naquela coisa muitas vezes rala e chata aprendida na escola formal (vinda normalmente de professores sem tesão), mas no que a gente pode acessar das pesquisas e literaturas científicas contemporâneas, tão vastas e complexas, que exigem muita dedicação para compreender (e que estou longe de abarcar, frise-se), além de ser um conhecimento permanentemente em construção/desconstrução. (Fico pensando em como somos alienados – mesmo das coisas que usamos no dia a dia: alienados tecnológicos, por exemplo; a esmagadora maioria sequer tem uma vaga noção de como funcionam os milhares de transistores que estão por detrás da superfície das telas e teclados, pelos quais repassamos por e-mail “correntes” do tipo “Repasse isso para 10 pessoas e aguarde um milagre da compassiva Virgem Maria, caso contrário, um vergalhão lhe atravessará o crânio fora a fora”... O que podemos esperar de uma massa tão desinteressada senão fácil manipulação ao irracional, ao “mágico”? Veja-se a quantidade de gente em templos e procissões, a partir de crenças fundadas em compreensões forjadas na Idade do Bronze, quando se concebeu as bases das religiões monoteístas contemporâneas?!)
Mas já viajo demais!
Muito obrigado pela deferência e mais uma vez parabéns pelo texto. Dawkins tem sido um dos meus “gurus”. Meu panteão de heróis está lotado!
Abraços!
***********************
A MAGIA DA REALIDADE
Resenha por Bruno Seidel
Como de costume, aqui estou resenhando sobre um livro que acabei de terminar de ler. Trata-se de uma prática muito útil e eficiente que aprendi a desenvolver durante a graduação. Fica, inclusive, um conselho para todo tipo de leitor: sempre faça uma resenha ou “ficha de leitura” dos livros que você lê. Arquive em algum lugar esses resumos e retome-os quando estiver a fim de recordar o aprendizado que essa determinada obra lhe deixou. Sempre!
A resenha a seguir trata-se do livro “A Magia da Realidade”, obra do escritor Richard Dawkins. Aproveito a ocasião para demonstrar meu profundo agradecimento ao amigo e colega Iuri, que me indicou esse livro durante o “Madrugadão da Biblioteca” da Unisc, em setembro de 2013. Foi graças ao conselho do Iuri que eu conheci este livro, que me pareceu bastante interessante. “A ciência é a minha religião”, disse o próprio Iuri ao abordar o assunto tratado nessa obra. Tem tudo a ver com o que meus colegas e eu costumamos discutir em “papos cabeças” e eventuais conversas que fatalmente culminam em Economia Baseada em Recursos ou Singularidade.
Assim que o livro ficou disponível no acervo, tratei de retirá-lo e o devorei em quatro dias. Uma leitura extremamente leve, agradável, facílima de compreender e com ilustrações que tornam o conteúdo ainda mais simpático e assimilável. Aliás, que belíssimo trabalho do ilustrador Dave McKaen! Uma obra prima em termos de conteúdo e qualidade visual. Certamente, o melhor livro que li até agora nesse ano. Brigadão, Iuri!
Life´s Show Time
Richard Dawkins optou por um método padrão de tratar praticamente todos os assuntos abordados em seu livro, divididos em doze capítulos: ele primeiro encarrega-se de apresentar alguns temas na versão contada pelas mitologias, religiões ou fábulas. Em seguida, ele desmascara todos esses mitos abstratos e desprovidos de fundamento com aquela versão que ele considera a “real”: a versão da ciência.
Temos diversos exemplos desmascarados pela ciência e que são contados em detalhes pelo livro: o que é um arco-íris; o que é um terremoto; porque existem tantos animais; como surgiu o ser humano; o que é o sol; como os continentes se formaram... todas as versões contadas durante séculos pela religião e pelas lendas têm seu espaço no livro, mas são devidamente desmascaradas por Dawkins. Eu diria até que é uma boa forma de calar a boca de muito fundamentalista religioso ou alienado que desmerece o poder da ciência e atribui tudo que existe à nossa volta a poderes divinos ou histórias inventadas há milênios atrás.
Dawkins bate de relho nesses mitos absurdos e põe os fundamentalistas religiosos no papel de ridículos. Ele diz que acreditar em lendas urbanas e histórias contadas pela religião é algo muito mais grave do que desmerecer a ciência: é acreditar que os grandes mistérios do mundo não podem ter explicação científica e nunca poderão. Quem acredita que o mundo foi criado em seis dias e que Eva surgiu da costela de Adão se nega a aceitar qualquer teoria científica ou desafio encarado pelos cientistas. Quem desmerece a teoria da evolução de Charles Darwin recusa-se a compactuar com qualquer descoberta científica que provém da teoria de seleção natural.
Eu já era um entusiasta da ciência antes de ler esse livro, já negava completamente a hipótese de haver um velhinho chamado Deus num céu coberto de nuvens fofinhas, já achava um absurdo certas lorotas empurradas goela abaixo pela igreja, já via fanáticos religiosos como alienados, já considerava a igreja uma instituição ultrapassada e desnecessária... mas com os exemplos e abordagens de Dawkins, esse conceito se tornou ainda mais evidente.
Me encantei com alguns exemplos fantásticos como o do nosso 185.000º avô: uma espécie de peixe já extinto e que habitava a Terra há cerca de 417 milhões de anos atrás. Dawkins compara a teoria da evolução das espécies com a teoria de evolução dos próprios seres humanos em vida. É tão difícil dizer quando uma espécie evoluiu pra outra como dizer “quando você deixou de ser criança e virou adolescente”, ou “quando passou de adolescente pra adulto”. Não são mudanças que ocorrem duma hora pra outra. No caso da evolução das espécies, são milhões de anos! Por essa razão, é impossível determinar quando uma espécie deu lugar a outra ou até mesmo “quando surgiu o primeiro homem”. São mudanças graduais que tornam essa pergunta impossível de ser respondida com precisão.
Eu tinha uma pequena dificuldade de compreender a teoria da evolução e de citar exemplos práticos. Agora não tenho mais! O curioso é que compreender essa teoria nos permite também entender muitas outras coisas. Entre elas, as próprias características físicas de nós, seres humanos, e até mesmo dos outros animais. Todas nossas características e atributos físicos são resultados de genes que acumulamos durante toda a evolução da espécie a qual hoje pertencemos.
Este livro é um prato cheio pra quem quer desmascaram religiosos insuportáveis ou até aqueles charlatões que se dizem dotados de poderes sobrenaturais. O sobrenatural, segundo Dawkins, é algo que não existe ou que ainda está por ser desmascarado pela ciência. Dentro dessa linha de raciocínio, não seria nenhum exagero concordar com a ideia de que “Charles Darwin matou Deus”.
Temos também outro cientista brilhante que tem papel destacado no livro: o gênio Isaac Newton. Aliás, cabe aqui uma ressalva: depois de ter lido o livro do Marcelo Gleiser (A Dança do Universo) e agora esse do Dawkins, me sinto seguro o suficiente pra afirmar: Isaac Newton é o maior cientista de todos os tempos. Além de ter descoberto a esplêndida teoria da gravidade, Newton teve uma importante contribuição para a nossa compreensão do que são as cores e a forma como elas se propagam através da luz. Tudo isso graças ao experimento do prisma e da formação dos raios de luz que formam o arco-íris. Dawkins ilustra esse exemplo com interessantes ilustrações e um passo-a-passo fácil de ser assimilado até para um asno como eu.
A ideia de que “somos um chorume no espaço” (HELFER, 2012) ganha ainda mais consistência nesse livro. Dawkins utiliza bons exemplos pra nos fazer entender que a Terra é mesmo menos significante que um grão de areia para o vasto universo. Mais ainda: o exemplo que ele dá usando bolas de futebol, uma semente de pimenta e uma ponta de agulha para ilustrar a distância que uma estrela tem da outra é mais uma prova de que somos verdadeiramente insignificantes.
Dawkins afirma que, se tivesse que apostar, diria que existe vida fora da Terra sim. É a mesma opinião que muitos cientistas renomados possuem (como Marcelo Gleiser) e que eu também defendo (só que a minha, obviamente, não significa nada). Porém, Dawkins justifica seu ponto de vista com todas ressalvas. É importante ter bem claro que não é bem assim para um planeta possuir condições de abrigar vida como a Terra (esse tipo de vida que nós conhecemos) e usa todo seu sarcasmo pra dar uma chinelada naqueles que acreditam ter visto ETs ou terem feito contato direto com alienígenas. Dawkins os coloca no mesmo lugar que os religiosos bitolados.
Algumas das lendas e mitos apresentados durante o livro chegam a ser até engraçados. Isso só reforça a ideia de que acreditar em teorias sobrenaturais é algo absurdo. E a principal conclusão que o autor tenta passar aos leitores é justamente a capacidade de enxergar a própria realidade (versão da ciência) como algo maravilhoso e admirável. A realidade é, por si só, fantástica e linda. Não precisamos de mitos ou fábulas pra contemplar a beleza do céu, do arco-íris ou das estrelas. Saber o que essas coisas são, de verdade, também atribui a elas uma beleza fascinante. Não precisamos ficar decepcionados ao descobrir que a lua não é a namorada do sol e sim um satélite que orbita em volta da Terra. Compreender as coisas como elas realmente são é, além de uma atitude mais inteligente, uma forma de contemplá-las em sua verdadeira essência.
Minhas considerações
Particularmente, gostei demais de ter lido esse livro. Recomendo-o para todas pessoas que se interessam por ciência, mas que têm aversão a cálculos, nomes complicados e fórmulas mirabolantes. É um livro ideal para curiosos, não para cientistas. Curiosos que não têm a pretensão de se tornarem físicos, químicos, biólogos ou matemáticos, mas sim abrir a mente e compreender as coisas como elas realmente são. É um guia geral do ponto de vista científico.
Para um leigo como eu, que anda estudando, lendo e discutindo muito sobre assuntos envolvendo EBR e Singularidade, o livrou caiu como uma luva. Pude ter uma noção mais clara do que representa essa coisa que enxergamos chamada “luz”. Pude compreender melhor a teoria da evolução das espécies e esses animais chamados seres humanos. Pude observar exemplos que resumem bem como nossos continentes se formaram e porque nosso planeta possui esse aspecto que conhecemos hoje. Enfim, os exemplos são muitos.
Dawkins cita uma curiosa frase conhecida como a Terceira Lei de Arthur C. Clarke: “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia”. Isso nos remete àquela “profecia” de Ray Kurzweil: tudo que acontece Harry Potter será possível um dia. Mas Dawkins diz que a maioria das coisas prometidas pela ficção não vai acontecer. Algumas sim. Pois eu continuo com razões pra ser otimista e sigo apostando todas minhas fichas na ciência, que continua sendo, para mim, a única coisa que faz algo de bom pra nós nesse mundo. Bem diferente da religião, do governo ou do dinheiro.
Faço das palavras do Iuri as minhas: “a ciência é a minha religião.” Se um dia nós, seres humanos, tivermos a oportunidade de ressuscitarmos e sermos imortais, será graças a ela. E somente a ela. Torço muito para que um dia a bendita ciência consiga cumprir tudo aquilo que a religião já nos prometeu na tentativa de nos confortar somente. Se as verdades apresentadas pela ciência são mais fascinantes do que as lorotas inventadas pelas lendas e mitos, há boas razões pra acreditarmos que as promessas da ciência serão ainda melhores do que as da religião.
DAWKINS, Richard. A magia da realidade: como sabemos o que é verdade. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012;
GLEISER, Marcelo. A dança do universo: dos mitos de criação ao Big-Bang. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
OBS.: o livro encontra-se disponível aqui na Asscom. Deixarei ele por aqui até quinta, data prevista para devolução. Portanto, quem quiser dar uma espiada, sinta-se à vontade.
Posto aqui cometários pessoais sobre acontecimentos e outras reflexões que ligo à ufologia - pela qual nutro várias simpatias. Com apreensão, observo cada vez mais o interesse e o estudo sobre vida e a inteligência fora da Terra e além da humanidade derivar, dentro dos meios chamados "ufológicos", para as mais tacanhas formas de crendice e superstição, reforçando o obscurantismo, a irracionalidade, o fundamentalismo religioso e a pseudociência.
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
“O assassino de Deus estava a bordo”
Um comentário sobre a expedição de Charles Darwin no navio Beagle (ilustração acima), nos anos 30 do século XIX, a partir de uma reportagem
Semana passada, ainda em minhas leituras sobre o naturalista Charles Darwin, achei uma matéria na Superinteressante de junho de 2007, alusiva aos 150 anos da teoria da evolução.
No parágrafo de abertura, os jornalistas Alexandre Versignassi e Rodrigo Rezende escrevem:
“E Charles Darwin criou o homem. Ou, pelo menos, inventou o que hoje nós conhecemos como homem. Antes dele, éramos o centro do Universo, a obra sublime da criação. Agora somos apenas mais uma entre milhões e milhões de espécies, um bicho de origem nada especial.”
Uma molécula está na base do surgimento de toda a vida orgânica no planeta Terra. É um processo tão longo, que fica difícil ser pensado por nossa mente limitada retroceder. Quem consegue imaginar uma escala de 4 bilhões de anos, quando, estima-se, a formação desta molécula mal iniciou? O big-bang ficaria ainda mais inacessível para nossa pobre cognição: 13,7 bilhões de anos.
Algo foi decisivo para Darwin desenvolver as suas observações e raciocínios. Ele - “o assassino de Deus” - viajou por quase cinco anos no navio Beagle, cujo objetivo primeiro era mapear a costa da Patagônia, custeado pelo governo britânico. O capitão Robert FitzRoy teria escolhido Darwin, naquela altura um rapaz de 22 anos, pelo formato do seu nariz: “sinalizava profundidade de caráter”, cita-se na reportagem da Super, como palavras do coordenador da embarcação e da expedição.
A “morte de Deus” decretada pelo evolucionismo proposto por Darwin, exposto em livros como “A Origem das espécies” e “A Origem do homem”, tem ligações com um arquipélago, que ele visitou e analisou em pormenores a partir de 1835, quando o navio atracou no “inferno”, outra expressão da capitão Fitz Roy para aquelas paragens em meio ao Oceano Pacífico, a mil quilômetros da costa do Equador:
“O gatilho para esse pensamento veio quando ele percebeu diferenças instigantes entre os bicos de uma espécie de passarinho das Galápagos, os tentilhões. Em uma ilha eles tinham bicos grossos, bons para quebrar nozes. Em outra, longos e finos, ideais para arranjar comida em frestas. Darwin imaginou que aquelas aves deviam ter se adaptado de algum jeito. Por mágica? Não: por um processo de seleção que levou gerações. Em ambas as ilhas teriam nascido pássaros de bico fino e de bico grosso. Naquela onde havia nozes para comer, só estes últimos teriam sobrevivido.”
Versignasse e Rezende arrematam: “A partir desse raciocínio simples, nascia um monstro” – “a ideia mais poderosa de todos os tempos”, está dito no sumário.
“Darwin descobriu como a vida pode existir sem a intervenção divina”, sintetiza-se no título na capa desta Superinteressante. Deus estava dispensado e, na verdade, estava atrapalhava o entendimento da existência da vida. Entretanto, alguns ainda choram a perda, insistindo no mito patriarcal – do pai que tudo criou nos mais mínimos detalhes, e vigia ferozmente, como um leão o faz com suas fêmeas e filhotes na savana africana.
Mapas de uma viagem fascinante feita por um homem extraordinário da Era Vitoriana
Algo que achei muito bacana, com um certo layout “retrô”, é o site “AboutDarwin.com”, com TODOS os mapas da viagem do naturalista Charles Darwin a bordo do navio Beagle, custeado pelo império britânico para analisar a costa da Patagônia nos anos 30 do século XIX, mas que acabou sendo, como vocês sabem, uma viagem de pesquisa fundamental para o desenvolvimento da teoria evolucionista, hoje hegemônica – embora criacionistas insistam em seus dogmas de impossível comprovação, baseando-se em escritos da Idade do Bronze, interpretados de forma literal e não como histórias lendárias e apologéticas.
Aí está:
http://www.aboutdarwin.com/voyage/voyage01.html
Todo o site é interessantíssimo*. Fiquei imaginando eu, um piá, com uma coisas dessas para ficar “brincando”. Santo Cristo! Como teria gostado! Assim como gostei da enciclopédia que o meu pai comprava por fascículo, “O Mundo em que Vivemos” – pensando hoje, uma das coisas mais importante para mim e meus irmãos abandonarem explicações mais místico-religiosas (afeitas a minha mãe devota), para se enfronhar na busca de conhecimentos menos dogmáticos e mais práticos.
Os “britanófilos”, como o Rafa “Bala” Amorim e Alexandre Fox poderão se deliciar com fotos interessantíssimas de locais que fazem referência a vida, aos estudos e homenagens a Darwin em Londres, Downe, Cambrige, Shrewsbury etc.
http://www.aboutdarwin.com/pictures/pictures_01.html
Há, como sempre digo, muita fascinação na abordagem científica. Entretanto, também há um apelo para buscarmos avidamente o “sobrenatural”, carentes que somos, enquanto espécie humana, pela atávica sensação de solidão cósmica e fragilidade existencial. Como mariposas, frequentemente nos chocamos contra a luz sedutora, às vezes matando para sempre esta nesga cognitiva que resiste ao entorpecimento aquecido pela promessas de companhia e proteção transcendentais. A biografia dolorida de Darwin adulto demonstra muito bem o que é uma lenta saída do útero mágico para o frio polar da “vida como ela é”. Graças que o caminho já foi feito e podemos dispensar o drama de matar deus em nossos corações.
*Os materiais e referências usados no “AboutDarwin.com” envolvem instituições como a Royal Society (Londres) e a Cambridge University. Sobre quem desenvolveu o site, está dito: “This website was created by me, David Leff. I am an amateur scholar of the History of Science, with a focus on scientific developments during the Victorian era (around 1835 to 1900).” Anoto isso para reforçar o que diz Oliver Sacks em "Diário de Oaxaca": muitas vezes os "amantes da ciência", por seu interesse genuíno, conseguem ir mais longe na busca de "revelações". Sasks manifesta o seu "mal-estar em relação aos meios oficiais e ultracompetitivos da ciência contemporânea", que deturpam muito o sentido da busca do conhecimento, tornando um ambiente de vaidades cretinas, dinheiro, corrupções e facadas nas costas.
**Os viajantes do século XIX são mesmo fascinantes. Diários de expedições no geral são muito bons – a gente vai viajando junto! Darwin teria se inspirado em Humboldt. Aqui mesmo em Santa Cruz, tivemos a visita de um viajante, menos famoso mundialmente – embora fosse amigo de Humboldt –, mas igualmente observador, que registrou coisas muito interessantes no passado da região: Avé-Lallemant, médico, também alemão, e que foi financiado diretamente por D. Pedro II em suas excursões pelo Brasil (morou no Rio de Janeiro). Aliás, as narrativas de Lallemant (“Viagem pela Província do Rio Grande do Sul”, 1858) serviram de base para um romance que se passa aqui no município: “A Valsa da Medusa”, de Valesca de Assis (que vem a ser esposa do escritor mais afamado, Luiz Antônio de Assis Brasil, notável por seus romance históricos sobre o RS).
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Demos graças...
Demos graças... às bactérias!
Mais do que qualquer deidade abstrata, criadas e desenvolvidas nas diversas tradições culturais da breve história humana, caso do deus único do cristianismo, judaísmo e islamismo, talvez uma das nossas grandes reverências deveriam ser não para tais “entes transcendentais”, mas para as tão terrenas bactérias!
No caso, nossa reverência deveria ser às bactérias presentes em plantas que fixam o nitrogênio. No livro “Diário de Oaxaca”, de Oliver Sacks, o afamado neurologista, professor na Universidade de Columbia, EUA, autor de várias obras de divulgação científica, diz o seguinte:
“Os animais, os vegetais superiores e até as ceratofiláceas [‘plantas aquáticas de folhas finas e muito divididas’...] podem se achar superiores, mas em última análise são todos dependentes de aproximadamente cem espécies de bactérias, pois só elas conhecem o segredo de fixar nitrogênio do ar para que seja possível construir proteínas”. (p. 48)
Ele explica:
“Somos banhados em nitrogênio; quatro quintos da atmosfera compõem-se desse elemento. Todos nós, animais, plantas e até fungos precisamos produzir ácidos nucleicos e aminoácidos, peptídeos e proteínas. Mas nenhum organismo além das bactérias é capaz de usá-lo diretamente. Por isso, somos todos dependentes dessas bactérias fixadoras de nitrogênio para converter o nitrogênio atmosférico em forma de nitrogênio que possamos usar. Sem isso, a vida na Terra nunca teria ido muito longe.” (p.50)
A observação sobre a importância de determinadas plantas serem mantidas no solo – permitindo a continuidade de cultivos, ou seja, a existência da agricultura e, consequentemente, da pecuária –, é antiga. Mas saber-se o porquê disso é relativamente recente:
“Só no século XIX percebeu-se que os estranhos nódulos presentes em raízes de muitos legumes eram cheios de bactérias, e que estas, com suas enzimas especiais, podiam fixar o nitrogênio atmosférico e disponibilizá-lo para a planta. Quando por fim essas plantas se decompõem, os compostos de nitrogênio, agora assimiláveis, podem ser liberados no solo [permitindo o desenvolvimento dos vegetais, que por suas vez, alimentam os demais seres dentro da cadeia alimentar]. (p.51)
A dádiva da vida, da vida humana em específico, tem a ver com um longuíssimo e complexíssimo processo evolutivo do planeta. E as bactérias têm um peso fundamental, já que são seres indispensáveis a vida humana. Assim, “elas” mereceriam muito do nosso reconhecimento. Entretanto, quão pouca consideração para fatos concretos, e quão grande devoção para figuras do reino do fantástico e do incorpóreo.
Um “culto às bactérias” ao menos teria uma autenticidade comprovada: são essas criaturas que permitem a nossa existência; não se necessita de fé para terem algum efeito; basta a observação de que sem a sua “intervenção”, seres humanos, eu, tu, nós jamais teríamos existência... Amém [“assim seja”]!
*Imagem: "Nostoc Cyanobacteria, with Heterocysts Important in Nitrogen Fixation"
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
O caso do olinguito
Vocês devem ter acompanhado a notícia, que circulou no final da semana retrasada: pois uma nova espécie de animal, “batizado” de olinguito, mamífero habitante de florestas na região andina do Equador e da Colômbia, foi descoberto, ou melhor, catalogado – já que era avistado, mas confundida com outro animal, o olingo – como uma nova espécie de carnívoro (Bassaricyon neblinae, da família Procyonidae, onde estão os guaxinins). Há 35 anos não se registrava um animal desse tipo no continente americano, cuja feição e corpo parecem fundir gato e urso.
Kristofer Helgen, do Museu de História Natural do famosíssimo Instituto Smithsonian, de Washington, que chefiou a equipe de pesquisa do olinguito, disse algo que eu achei especial:
- A descoberta nos mostra que o mundo não está completamente explorado e que seus segredos mais elementares não foram revelados.
Complementando:
- Se ainda é possível encontrar novos carnívoros, quais outras surpresas nos esperam?
Quer dizer, muitos “mistérios” e “revelações” estão pela frente, aqui na concretude do Planeta Terra.
Acho que existe muita energia desperdiçada em especulações sobre mulas-sem-cabeça e lobisomens; nos apegamos a seres, objetos e situações do campo do lendário, da fantasia, do irracionalismo, da especulação místico-religiosa, enquanto uma riqueza de “desacobertamentos” maravilhosos nos rodeiam no aparente “mundo ordinário”.
Na ânsia do extraordinário, extrapolando em desvarios, passamos batidos pelo fascinante mundo dos seres reais, caso do felpudo avermelhado, de grandes olhos brilhantes, o simpático olinguito (ilustração acima).
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Novas formas de religião
O assunto é futebol, mas poderia ser ufologia, já que muita gente tem projetado em discos voadores e ETs uma forma de buscar uma transcendentalidade:
Fim de semana na casa do seu Zé, aproveitei para, como sempre faço, passar os olhos no diário municipal. Muito me chamou a atenção um anúncio daqueles típicos, agradecendo o apoio nos atos fúnebres e convidando para a missa de sétimo dia. Típico não fosse um “detalhe”: ao invés das clássicas cruzes (no caso de judeus, seriam estrelas de Davi), estava estampada o distintivo do clube de futebol do fi...nado – na mesma posição dos símbolos religiosos, sendo o fundo da nota nas cores da bandeira do time.
Não vai aqui crítica alguma aos familiares e amigos que publicaram a nota. Simplesmente destaco a relevância, o lugar alcançado pelo futebol, ou melhor, pelas agremiações futebolísticas na vida – e morte! – das pessoas. Ao ponto de tomarem o lugar da tradicional filiação religiosa – no caso mais comum na nossa região, o cristianismo, simbolizado no crucifixo e suas derivações.
O clube tornou-se fundamental na identidade de uma massa cada vez maior de pessoas. Uma razão de existir e que é (supostamente) levada para o transcendental, para o “além”.
Interessante que, apesar do meu sobressalto, percebi que as pessoas não pularam da cadeira ou, mesmo, franziram a testa ao olharem o anúncio...
Já havia mencionado algo do gênero, quando li uma notícia de que um menino, de seus 10 anos, ao morrer de uma grave doença, foi sepultado acompanhado... não por um rosário ou algo assim, mas pela bandeira do seu time de futebol...
São tempos de crise, realmente, de instituições milenares. Mas a necessidade de identificações coletivas, que implicam em muita “devoção”, continuam presentes, agora migrando para outras formas de “culto”, suplantando antigos costumes.
* Sim, para um agnóstico como eu, sempre curioso e aberto ao debate, a mudanças de pensar, esta é uma questão fascinante: o desejo de perpetuação e as formas de buscar isto.
** Aproveito para acrescentar que outra coisa que já me chamava e ainda chama a atenção: os anúncios de nascimento, onde os pais já impõe uma filiação ao mesmo tempo ao futebol e a um clube determinado – como se o bebê já estivesse “obrigado a curtir” o esporte e, mais ainda, a ter uma identidade, um “lado” definitivo, talvez para até depois da morte! É um “direito” que os pais se arrogam, assim como a filiação religiosa, definida num batismo que a criança não tem consciência alguma (lembrando que Jesus, bem ao contrários de muitas de nossos crianças, teve escolha e foi batizado [ou rebatizado, sendo judeu] já bem adulto, pelo primo e profeta João Batista, no mítico Rio Jordão, lá no Oriente Médio).
*** Outra coisa a se pode considerar no assunto: quando a identificação ao Inter ou Grêmio ou Flamengo ou Corinthians ou Cruzeiro ou Bahia etc. começa a equivaler a filiação religiosa Católica, Luterana, Espírita, Umbandista, Judia, Muçulmana, Budista etc., ou seja, a uma adesão a crenças sobre a vida e a “pós-vida” (e “pré-vida”), ou seja, a eternidade, podemos estar gerando uma adesão sectária, “fundamentalista” a uma “igreja” (brigas, guerras de torcida talvez sejam indicadores do lado perverso deste tipo de identificação intensa); no mínimo, estamos num caminho obscuro, quando o futebol e o time para quem torcemos toma uma importância, uma proporção imensa em nossas vidas, inclusive naquilo que dá sentido ou um sentido que se perpetua, ou seja, o transcendental – o que transcende a nossa “existência terrena”.
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Feriado de sangue - aonde nos levam as crendices
Sobre ao último feriado do dia 30 de maio (2013), li uma nota na imprensa que o Corpus Christi se relaciona a um “milagre” ocorrido em 1263 na localidade italiana de Bolsena. Um padre alemão em peregrinação, descrente do dogma católico de que Cristo está presente na hóstia, viu-a “sangrar”, inclusive manchando a toalha do altar, enquanto o sacerdote duvidoso rezava uma missa por lá. Emissários papais teriam confirmado o fenômeno. Na cidade vizinha, Orvieto, onde o pontífice Urbano IV residia, foi exposta a hóstia sangrada, criando-se também uma festividade para marcar o “acontecido”, assim nascendo a tradição comemorativa que propagou-se por todo o mundo católico, assim como um sem número de “histórias extraordinárias”.
Parece-me algo um tanto (um tantão!) macabro isso de verter sangue de uma hóstia... E além do muito improvável (para não dizer completamente fantasioso) transformado em “fato oficial” de abrangência planetária, levado muito a sério – inclusive tornado feriado nacional no catolizado Brasil –, há o reforço do aspecto canibalístico do ritual da eucaristia: o “comer o corpo de Cristo”, que, em certos casos, como lá em Bolsena, há 750 anos, implica não só deglutir simbolicamente a carne, mas também literalmente o sangue de Jesus. Aliás, na falta do sangue real, há o vinho tinto, bebido pelos padres nas missas...
Interessante que o aspecto canibal e outros aspectos sanguinolentos do cristianismo romano (há também milagres que implicam chagas, cruzes e estátuas vertendo sangue etc.), tais alusão a antropofagia, a dores e ferimentos profundos não causam incômodos em muita gente, enquanto estas mesmas pessoas acham um “horror” rituais onde aves e outros animais são “sangrados” para (supostamente) estabelecer contatos transcendentais.
Particularmente, e em certa medida, eu prefiro o sacrifício e a dor simbólicas dos católicos do que a expiação ou consubstanciação de algo através da tortura e morte “terceirizadas” em galinhas, pombos, cabras, cordeiros etc. para o atendimento de demandas e preceitos desse primata inventivo e cheio de empáfia autodenominado humano. Em todo o caso – sejamos católicos, umbandistas, espíritas, judeus, muçulmanos, seisho-no-ies, teósofos etc. –, estamos diante da mesma necessidade de sermos algo mais além do que componentes inseparáveis de um planeta rodeado da mais aterradora escuridão, que nos faz cantar e contar histórias que nos apaziguem em nossa fome e desespero atávicos.
*** Sim, Jesus na cruz é um culto ao sofrer – pregos enormes, mãos furadas, ossos quebrados, coroa de espinhos, vinagre na boca, estocadas de lança, sangue correndo, rosto crispado; um filme de horror completo, prato cheio para masoquistas e sádicos! Um Cristo Solar me parece bem mais edificante. Mas num mundo com tantas disparidades, com poucos com tanto e a massa vivendo a pão e água, é preciso alguma justificação (“Jesus também sofreu!”) e “recompensa” para tanta resignação (a bonança pós-morte depois de uma vida em meio à tempestade inclemente). Compaixão e cooperação parecem ser a essência das mensagens religiosas tradicionais. Mas parece que tudo vira do avesso e nos tornamos sectários odiosos, prontos a esfaquear literal ou metaforicamente quem discordar da “A Verdade”...
***Outra coisa que me ocorre é, comparando eventos fantasiosos e lendários, uma situação onde o "avistamento" de uma Mula-sem-cabeça pudesse transformar-se num feriado nacional... Pareceria absurdo, né? Mas isso de uma hóstia verter sangue não é igualmente algo impossível que se torna "uma verdade incontestável"?!
Ele já esteve em mundos abissais, e agora estará em Santa Cruz do Sul para falar sobre o que aprendeu por lá
Pessoal,
Neste “Planeta Água”, quase erroneamente chamado Planeta Terra, há muito a se descobrir, compreender e, mais que tudo, a se proteger da devastação, fatal para incontáveis vidas vegetais e animais, incluindo o próprio primata autodenominado ser humano, o principal responsávei por tantos barabarismos contra o ecossistema global. Assim, não acho recomendável esperarmos algum disco-voador ou santo extraterrestre para assumir algo que depende da ampla conscientização e ações concretíssimas de nós mesmo, terráqueos "sapiens".
Uma das grandes figuras mundiais da proteção do oceanos e demais mananciais de água e vida aquática é Jean-Michel Cousteau, filho do lendário oceanógrafo francês e documentarista Jaques Cousteau. Pois Jean-Michel, que participou das expedições de seu pais desde os sete anos de idade, continuando e ampliando sua obra pioneira, estará aqui em Santa Cruz do Sul, na Universidade de Santa Cruz – UNISC –, na semana que vem, dia 18 de junho de 2013.
Para mais detalhes sobre Jean-Michel-Cousteau e suas atividades aqui em Santa Cruz, acesse o endereço:
http://www.unisc.br/site/palestra-jean-michel-cousteau/
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Uma curiosidade sobre o pai do palestrante:
Jacques-Yves Cousteau foi tema de um álbum do compositor e tecladista, pioneiro da new age e da música eletrônica pop, Jean Michel Jarre, também francês. Lançadas em 1990, homenageava Cousteau em seus 80 anos de vida e seu ativismo ambiental que atingiu milhões de pessoas pelo mundo afora (programas de TV, documentários, palestras, reuniões com personalidades mundiais etc.). São quatro faixas, uma delas, “Waiting for Cousteau”, também título do disco, possui quase 47 minutos (as outras – mais três faixas – em torno de 7 minutos cada uma).
A canção “Waiting for Cousteau” pode ser acessada no seguinte endereço:
http://www.youtube.com/watch?v=pH2UxxdXAfg
O músico Jean Michel Jarre também se celebrizou por espetáculos ao ar-livre e temáticas humanistas e ambientais de seus álbuns e shows, demonstrando o seu engajamento. A Wikipedia registra algo derivado de suas ligações a preocupações planetárias:
“Em 1986 ele trabalhou num concerto com a NASA: o astronauta Ronald McNair iria tocar o solo de saxofone da música Rendez-Vous VI enquanto estivesse em órbita no Ônibus espacial Challenger3 , enquanto os seus batimentos cardíacos seriam usados como amostras de som na mesma música. Esta seria a primeira música gravada do espaço, a ser incluída no álbum Rendez-Vous. Após o desastre com a espaçonave Challenger em 28 de Janeiro de 1986, a música foi gravada com outro saxofonista, recebeu o nome de Last Rendez-Vous - Ron's Piece e tanto a música, como o álbum foram dedicados aos astronautas mortos no acidente com a Challenger. Ele [Jean Michel Jarre] é um Embaixador da Boa Vontade da UNESCO, dedicado à causa da cultura, informação e liberdade” (em http://pt.wikipedia.org/wiki/Waiting_For_Cousteau).
A discografia, além de dados profissionais e biográficos de Jarre, podem ser acessados por aqui:
http://www.allmusic.com/artist/jean-michel-jarre-mn0000230593
***Comentário de um amigo:
Para completar, concordo plenamente e irrestrita com teus argumentos do primeiro parágrafo [da mensagem acima], pois se fala muito aos quatro cantos do mundo (os esotéricos), mas tambem em grupos ufológicos, que os extraterrestres VÃO SALVAR o planeta Terra. Acho isso inconcebível, pois quem tem consciência dos danos que a fauna e a flora sofrem todos os dias do ano, e só procurar por estas informações de notícias em qualquer lugar do planeta, que encontrará. [...] São atitudes de humanos, e não ETs, que vão salvar a vida na Terra, de pessoas gananciosas e alheias para com o respeito próximo. Certa ocasião, uma amiga, que já pertenceu a grupos ufológicos, deu seu parecer respondendo com críticas duras essa mentalidade de esperar que os ETs de luz estão cuidando de nós para que o planeta não seja agredido. Óra bolas... há décadas que coexistem a devastação e a negligencia por interesses excusos.
N.
segunda-feira, 22 de abril de 2013
Mestres com os pés no mundo e cabeças ousadas
Aproveitando uma troca de e-mail com os mestres Rafa Amorim e Nelson, compartilho também com vocês a minha empolgação, continuando minhas pesquisas sobre a vida e as expedições do norueguês Thor Heyerdhal.
É algo de um fascínio sem fim. Seis amigos, numa jangada feita totalmente de toras, taquaras, cipós, folhas de palmeira tenham, durante mais de 100 dias, atravessado da costa do Peru à Polinésia, tudo para mostrar a viabilidade da teoria do povoamento de nativos sul-americanos, que, com sua tecnologia de navegação – aparentemente rústica, extremamente eficiente –, conseguiram navegar milhares de quilômetros mar adentro, num período que recém se saía da traumática 2ª Guerra Mundial. Thor estava contrariando a ideia vigente de que a região do Taiti teria sido colonizada por asiáticos, jamais por peruanos pré-colombianos. O sucesso da travessia abalou fortemente convicções.
A aventura não foi só a transposição oceânica em si, mas a organização de uma empreitada daquela envergadura e ousadia, que começa como uma ideia que muitos consideraram estapafúrdia, totalmente insana, uma temeridade, um atirar-se à morte certa e sem sentido.
Na Wikipédia, falando sobre o falecimento de Thor, anotaram assim:
“Thor Heyerdahl morreu em 18 de abril de 2002 em sua casa na Itália depois de 87 anos dedicando sua vida às descobertas dos enigmas da humanidade.”
Poxa! Uma vida dedicada aos “enigmas da humanidade”. Não é algo fantástico? Poder devotar uma longa vida a buscar entender os mistérios que nos rodeiam – e nos compõem enquanto seres indagadores, imersos numa complexidade avassaladora.
Thor Heyerdahl é alguém para se admirar e tratar como um verdadeiro mestre – sem mistificação, sem se ajoelhar; um mestre que estimula a usar toda a nossa habilidade humana para raciocinar, refletir, intuir, se emocionar e “fazer acontecer”.
*Na ilustração anexa, mais uma vez o Kon-Tiki, embarcação usada pela mencionada expedição de Thor Heyerdahl.
**Complemento: Triste é a pessoa perder a curiosidade – aquele impulso infantil de querer saber tudo, temperado, na adultez, pela experiência e prudência que evitam circunlóquios e armadilhas piores. Uma lástima que tantas coisas nos prendam em nossa pacatice. Acho que Thor Heyerdahl, por uma série de circunstâncias, escapou do ordinário, e viveu uma vida extraordinária em seu pleno significado.
Na busca de informações do nosso “amigo”, achei aqui na biblioteca da universidade a sua autobiografia “Na Trilha de Adão: memórias de um filósofo da aventura”, editada pela Companhia das Letras em 2000.
É um livro muito interessante, porque, acaba por ser um síntese de todas as empreitadas do norueguês, além de trazer muitos detalhes da sua vida e do mundo onde viveu, ou seja, praticamente o século XX.
Ainda estou lendo-o. Na página 22: ao cometerem que ele ter sido uma pessoa de sorte, Thor anota:
“A pergunta não é como ter sorte, mas como evitar a falta dela.”
sexta-feira, 22 de março de 2013
Somos animais - nem mais nem menos do que animais
“Acima de tudo, deve-se salientar que não há nada de insultante em olhar as pessoas como animais. Afinal de contas, SOMOS animais. O Homo sapiens é uma espécie de primata, um fenômeno biológico dominado por regras biológicas, como qualquer outra espécie. A natureza humana não é mais do que um tipo particular de natureza animal. De acordo, a espécie humana é um animal extraordinário; mas todas as outras espécies também são animais extraordinários, cada uma à sua maneira, e o observador científico de homens poderá trazer muitas revelações novas ao estudo dos assuntos humanos se conseguir conservar essa atitude básica de humildade evolucionária.”
Aí está. É o parágrafo final da introdução de “Manwatching – A field guide to human behaviour” (traduzido no Brasil como “Você – Um estudo objetivo do comportamento humano” ”, editora Círculo do Livro S.A., São Paulo, 1977), do zoólogo britânico Desmond Morris (autor também do “O Macaco Nu”, obra bem mais afamada, cuja capa de uma edição em inglês está como ilustração acima). As palavras mencionam uma perspectiva que tem me empolgado. Primeiro, porque nos “baixa a bola” – não somos mais (nem menos) do que animais. Uma perspectiva zoológiaca ao invés de antropológica (e/ou antropocêntrica) – ou seja, nós, animais, vertebrados, mamíferos, primatas, nos vendo como... animais, e não como algum ser que está acima biologia, “O HOMEM” – em letras maiúsculas e entre aspas, para ressaltar nossa auto-magnificência –, como se estivéssemos fora da condição de ser biológico; como se fôssemos anjos, querubins ou outras figuras míticas – seres que viveriam pairando além de toda a história astrofísica do cosmos e do longíssimo e complexo processo evolutivo, o qual Charles Darwin começou a esboçar, reforçando-se cada vez mais pelos conhecimentos trazidos pela arqueologia, paleontologia, genética, das profundezas das células e, até, dos átomos.
Isso poderia também nos falar dos limites de nossos poderes – o poder de pensar, inclusive. Talvez aí esteja porque imaginamos ETs como humanoides ou, ao menos, na forma de algum tipo de animal. Simplesmente não temos capacidades cognitivas para lidar com outras possibilidades de vida ou inteligência. Apenas montamos o mundo como nossos cérebros conseguem operar – assim como uma criança de cinco anos, em 1970 (é o meu caso), imaginava que as vozes e músicas do rádio eram produzidas por minúsculas pessoas dentro do aparelho receptor (aquela caixinha mágica, com botões, ponteiro, luzes etc.)... São os limites de compreensão, de elaboração mental própria da infância – limites que continuam existindo, em outras medidas e formas, mesmo agora, quando já somos adultos.
Não é nada fácil vencer esse antropocentrismo, essa autoidolatria humana, esse sentido de que somos o centro de tudo, do universo. Difícil, talvez, porque está na nossa própria base genética, como um mecanismo de preservação e reprodução da espécie humana.
quarta-feira, 13 de março de 2013
Conexão Ufo - O fim do mundo virou samba
Dia desses voltei a lembrar, saudoso, do programa de rádio, aqui em Santa Cruz do Sul, o “Conexão Ufo” – criado pelo Rafael “Bala” Amorim e pelo querido Xuxu, que já atuava na emissora – a Rádio Comunitária, FM 105,9MHz.
Várias pessoas participaram da empreitada ao longo da trajetória do programa, sempre capitaneada pelo Rafa. Lembro aqui do Alexandre Fox, que, com sua ponderação característica, dava um lastro técnico ao programa, além de emprestar sua indignação opinativa em relação, por exemplo, aos descalabros em nossa República das Bananas.
No programa, eu fazia alguns comentários, ao estilo desses mails que envio para lista – e posto no blog “Alerta Ufo Brasil”. Aliás, o blog é consequência da minha impossibilidade de continuar no programa, hoje, lamentavelmente, em hibernação. Pois acabei criando o espaço na web para continuar com minhas xaropadas.
Bom, lembrei do “Conexão” porque fiz uma limpa em minhas pastas de clipagens, que usava como mote às minhas “intervenções” no programa. Ao longo de cerca de três/quatro anos, “juntei” umas dez pastas bem cheias de recortes de jornal, páginas de revistas, folhas impressas de matérias tiradas da internet e anotações sobre uma variedade de assuntos. Me dei conta do quanto era diversificada e rica a nossa (do grupo todo) “abordagem ufológica” no Conexão, onde falávamos até de...
SAMBA!
Lá por março de 2009, trouxe uma matéria sobre uma composição do baiano, radicado no Rio de Janeiro, Assis Valente (na foto acima), chamada “E o mundo Não se Acabou”. Foi composta em 1938, mesmo ano em que Orson Welles causou pânico nos EUA ao veicular na forma de um radioteatro “A Guerra dos Mundos”, ficção aterrorizante de H.G. Wells, como ressaltava o jornalista Renato Mendonça (Segundo Caderno do jornal Zero Hora, de 10/03/2009).
Usei a matéria para falarmos MAIS UMA VEZ sobre profecias e outras fajutagens apocalípticas... A letra se refere a um rapaz, que acaba, por conta de que “anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar”, se metendo em várias confusões, que ele terá de resolver, já que nenhuma catástrofe ocorreu e o planeta continuava em seu giro corriqueiro...
Obviamente que a canção é uma “tiração de sarro”. Já nos anos de 1930 pessoas suficientemente crédulas se apavoravam com vaticínios de profetas do Armagedom.
No campo da ufologia temos vários exemplos desses tipos de pregadores – alguns apenas cômicos, alguns outros, trágicos, por conta de morte de pessoas, caso de suicídios coletivos, à espera de resgate por discos voadores...
Mas voltando ao samba, muitos de nós conhecemos canções de Assis Valente. Ele é autor de “Cai, cai Balão” e Boas Festas (“Já faz tempo que eu pedi / Mas o meu Papai Noel não Vem...”). Abaixo, seguem a letra e o samba na interpretação de Carmen Miranda, que gravou outras composições do mesmo autor (vale também pelo vídeo, que traz trechos de vários musicais da rapariga das frutas tropicais na cabeça).
Até!
Iuri
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Carmem Miranda interpreta O Mundo Não se Acabou, de Assis Valente:
http://www.youtube.com/watch?v=5GxA4Elbx80
Letra:
O Mundo Não Se Acabou
Assis Valente
Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar
E até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada
Por causa disso nessa noite lá no morro não se fez batucada
Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando de aproveitar
Beijei na boca de quem não devia
Peguei na mão de quem não conhecia
Dancei um samba em traje de maiô
E o tal do mundo não se acabou
Chamei um gajo com quem não me dava
E perdoei a sua ingratidão
E festejando o acontecimento
Gastei com ele mais de quinhentão
Agora eu soube que o gajo anda
Dizendo coisa que não se passou
Vai ter barulho e vai ter confusão
Porque o mundo não se acabou
segunda-feira, 11 de março de 2013
A façanha de Thor Heyerdahl - a ciência como uma aventura
Vocês já devem ter ouvido falar do cientista-explorador norueguês Thor Heyerdahl. Entre outras façanhas, a mais famosas foi, em 1947, a de ter comandado uma jangada que saiu do Peru até a Polinésia, dando sustentação à evidência de que houve uma migração, via mar, de povos pré-colombianos da América do Sul a arquipélagos em meio ao Oceano Pacífico, caso do Thaiti.
Pois tal feito virou filme, “Kon-Tiki” (nome da embarcação, em referência a um deus Inca) esteve concorrendo ao Oscar. Um treiler está no link abaixo no Youtube:
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=rUnmjQJHRP4
Na matéria que saiu no site da revista Ciência Hoje é dito o seguinte, numa separata da matéria:
“Houve um tempo em que ser cientista era, entre outras coisas, lançar-se a temíveis jornadas de exploração. Essa espécie de ciência-aventura era típica nos séculos 18 e 19, tendo perdurado com razoável vigor até princípios do 20 – afinal, a Terra ainda não havia sido inteiramente explorada. Foi a época áurea dos grandes naturalistas, como Alexander von Humboldt (1769-1859), Alfred Wallace (1823-1913), Johann Baptiste von Spix (1781-1826), Carl von Martius (1794-1868), entre tantos outros. Eram homens de saberes ecléticos, representantes de um tempo em que a ciência ainda não havia sido domada pela ditadura epistemológica da fragmentação do saber.”
A matéria inteira, com vários detalhes sobre “o zoólogo, geógrafo e etnógrafo Thor Heyerdahl” pode ser acessada no seguinte endereço:
http://cienciahoje.uol.com.br/blogues/bussola/2013/02/a-epica-travessia-de-thor-heyerdahl
Talvez o filme seja um antídoto ao modo burocrático e comercialesco que boa parte das pesquisas científicas caíram, desestimulando muita gente, jovens, principalmente, que já não vêm aventura alguma em buscar conhecimentos, criar teorias e testar hipóteses.
Além do filme, existe em português o livro “A expedição Kon-Tiki ”, escrita pelo próprio Thor. Pelo que pude ler (e ver pelas fotos), é uma leitura excelente.
Fica a dica de pesquisa, filme e livro.
* Na imagem (divulgação) em anexo, Thor datilografando a bordo da jangada, a embarcação Kon-Tiki, navegando no Pacífico.
** Thor foi, mesmo, um “cientista a moda antiga”, quando buscar o conhecimento era uma aventura que envolvia as “entranhas” e um amplo saber, além de uma imensa curiosidade, antes de tudo, aliás.
Papa das contradições
O papa se despede e parte dos palacetes do Vaticano em um super helicóptero das Forças Armadas italianas para passar alguns meses descansando em Castel Gandolfo, um lugar paradisíaco, “residência de verão dos pontífices”, de arquitetura clássica, decoração primorosa, com grande estafe de serviçais e uma vista de tirar o fôlego. Toda manobra de deslocamento foi feita dentro de uma logística milimétrica, com um aparato de segurança que movimentou centenas de pessoas altamente treinadas e prontas para abater qualquer um que tivesse loucura suficiente para tentar qualquer agressão ao ex-representante de Deus na Terra...
Mas não é só esses fatos ostentatórios que entram em choque com a instituição que pretende ser a mais antiga, a mais legítima e digna representante de um pobríssimo aprendiz de carpinteiro e seus rudes apóstolos pescadores, iniciadores de uma nova seita judia, que passou a ser conhecida como cristianismo. Todos parecem ter sido paupérrimos a vida inteira, até a hora de suas terríveis mortes, como dão a entender os Evangelhos. O uso do caríssimo helicóptero também é uma contradição para uma instituição que por quase dois milênios tentou/tenta sufocar o pensamento científico, em nome de seu dogmatismo e, mais que isso, pelo controle do poder sobre as mentes e corpos do rebanho humano... Óbvio que chega a certa altura e a Igreja acaba se rendendo, “aderindo” aos avanços tecnológicos, sem abrir mão do seu inerente obscurantismo anticientífico. O uso do helicóptero é um dos muitos exemplos.
É notório que muitíssimos avanços se deram “apesar” da feroz oposição da Igreja ao pensamento livre, à especulação que foge das interpretações oficiais da geriatria machocêntria, ao patriarcalismo que controla algo, observem, fundado por jovens contestadores (Jesus morre no auge dos 33 anos – e os apóstolos, se pode supor, tinham idades em torno disso quando aderiram às ideias de Jesus). Entretanto, um Papa só poderá ter em torno de 70 anos e toda a hierarquia maior está bem além dos 50 anos de vida. Não é só as mulheres que são vetadas radicalmente nos cargos de poder da Igreja; os jovens também estão fora das grandes decisões católicas – são tratadas como seres abestalhados, sem “capacidade suficiente”.
Enfim, para o Papa embarcar no helicóptero e deslocar-se com rapidez, agilidade e segurança até a nababesca propriedade da sua Igreja, muitos pensadores, inventores, filósofos e cientistas foram torturados ou mortos barbaramente, além dos incontáveis que foram calados, amordaçados ou podado antes mesmo de desenvolverem seus potenciais por conta da violência sectária do poder católico. Todas essa repressão cruel, sofrimentos e mortes não parecem constranger o Papa, aboletado no poderoso modelo de aeronave, rumo às férias...
Infelizmente, tais reflexões e tais contradições não são levantadas – nem pelo pontífice e, muito menos, pela maioria de nós, pobres mortais. Como vivemos alienados, sem consciência dos meandros das coisas; até mesmo sem vontade de saber, de conhecer; sem curiosidade em amplo sentido; além de sedentos de acalentos que nos poupem das verdades cruéis do mundo real e do abismo da morte física; como vivemos assim, na superfície das coisas e encagaçados, nos tornamos refratários a qualquer ameaça às recompensas dadas pelas “certezas” de igrejas e instituições assemelhadas. Crer, sem questionar, é, mesmo, bem mais fácil, como diz Michael Shermer.
***Comentário complementar: Eu também fui criado católico, com comunhão e crisma. No final da adolescência, já estava renegando... Minhas duas filhas não são batizadas em igreja alguma e, ao menos isso, vou deixá-las livres para escolher se entram ou não em alguma igreja. Aliás, para as mulheres, a igreja católica é um lugar horripilante, que deveria ser execrado publicamente, pela posição subalterna que são colocadas, submetidas a um “papa”, onde jamais haverá uma “mama”; onde não podem rezar missa, apenas ser serviçais em alguma clausura, como freiras ou monjas, totalmente reprimidas sexual e intelectualmente. O patriarcalismo em sua pior faceta. Triste ver que tal ideologia obscura e opressora da Idade Média ainda perdure com força.
segunda-feira, 4 de março de 2013
Ameaças do espaço...
Até um tempo atrás, meteoros, satélites avariados ou outros objetos - natuarais ou artificiais - vindos do espaço sideral, atingindo fatalmente a Terra, eram algo considerado como “ficção científica” – uma enorme improbabilidade no “mundo real”.
Mas o acontecido na Rússia dias atrás está colocando nossas barbas de molho... Não, não é só em pocket books e blockboosters (além do bíblico Livro do Apocalipse) que “tragédias vindas do espaço” acontecem.
A própria teoria do meteoro (ou asteroide em rota de colisão) caído na terra há bilhões de anos, que acabou implicando em mudanças climáticas radicais, inviabilizando a continuidade da vida de diversas espécies (caso dos dinossauros), inaugurando um outro cenário da vida no Planeta, ganhou relevância e uma consideração mais séria.
Até mesmo a ONU evidenciou a preocupação. Além de tempestades, furacões, erupção de vulcões, terremotos, enchentes, secas, há outros fenômenos naturais igualmente ameaçadores. E no caso dos meteoros, a situação envolve, necessariamente, o globo terrestre como um todo.
Talvez seja a possibilidade de desgraça que mais uma a humanidade, já que qualquer ponto do planeta pode ser atingido. Ninguém, nenhum lugar está imune.
Também é um tipo de catástrofe que depende imensamente da tecnologia e da ciência para ser detectada e, talvez, evitada – ou ao menos minimizada, retirando-se a população, fragmentando o corpo celeste ainda em voo ou outros tipos de ações que exigem, em primeiro lugar, um grande sistema de vigilância espacial.
A falha na detecção do meteoro russo é um indicativo que existem falhas, furos, ou melhor, rombos. Será preciso aperfeiçoar e coordenar ações. Daí a proposta da ONU. Segue abaixo a notícia com mais detalhes.
*Na foto acima (divulgada pela Nasa), o asteroide Vesta. Abaixo, um post com mais informações interessantes sobre esse corpo celeste e as pesquisas em curso.
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JC e-mail 4670, de 22 de Fevereiro de 2013.
ONU diz que ameaça de meteoros exige coordenação mundial
A Equipe de Ação recomendou a criação de uma Rede Internacional de Alerta de Asteroide, que reunirá cientistas do mundo inteiro
A ONU afirmou que a ameaça de meteoros que podem atingir a Terra exige uma coordenação internacional para enfrentar o problema. A conclusão é da equipe de ação sobre objetos espaciais do Escritório para Assuntos Espaciais da ONU, Unoosa.
Projeto - Segundo o chefe do grupo, também conhecido como Equipe de Ação 14, Sergio Camacho, se este mecanismo de coordenação estivesse em funcionamento a população não teria sido pega de surpresa no caso do meteoro na Rússia.
Na sexta-feira passada, um asteroide atingiu a região de Chelyabinsk, causando danos e ferindo muitas pessoas.
Sistema - A Equipe de Ação recomendou a criação de uma Rede Internacional de Alerta de Asteroide, que reunirá cientistas do mundo inteiro. A meta é descobrir e acompanhar a trajetória de objetos espaciais que possam atingir o planeta.
Com base nesses dados, os analistas terão condições de alertar a população sobre os possíveis impactos.
Ameaça - No mesmo dia em que um meteoro atingiu a Rússia, um outro asteroide passou perto da Terra e chamou a atenção dos cientistas.
O asteroide, do tamanho de um prédio, chegou a 27 mil km do planeta. A distância pode parecer grande para a população comum mas para os especialistas virou motivo de alerta porque ele atravessou a órbita onde estão vários satélites de comunicação.
Desde 1995, o Escritório da ONU tem demonstrado preocupação com o assunto, dada a devastação potencial que um objeto dessa magnitude pode causar ao se chocar contra a Terra e, também, dos recursos necessários para evitar essa colisão.
(Rádio ONU)
FONTE: http://www.jornaldaciencia.org.br
***Sobre o asteroide Vesta:
O asteróide gigante Vesta, que possui 520km de diâmetro e é o terceiro maior do Sistema Solar, passará a 188 milhões de quilômetros da Terra em 16 de julho próximo e será acompanhado pela sonda Dawn. Lançada em setembro de 2007 a Dawn tem por finalidade revelar os segredos ocultos de nosso Sistema Solar e deverá percorrer mais de 5 bilhões de quilômetros até o fim de sua solitária jornada que estudará em primeiro plano o asteróide Vesta e o planeta-anão Ceres, onde chegará em 2015.
Segundo astrônomos e cientistas o objeto não representa risco para a Terra porque passará muito longe de nós. Ainda assim, não se tem leituras totalmente corretas sobre o comportamento do corpo celeste próximo a grandes campos gravitacionais como o da Terra.
No caso remoto de uma colisão, o Vesta seria visto e ouvido com clareza cerca de 1 hora antes do impacto. Sua explosão ao atingir o planeta seria equivalente a mais de 100 milhões de bombas atômicas (o meteoro que exterminou os dinossauros tinha 100km de diâmetro e força de 20 milhões de bombas atômicas).
Postado por Diego Cryptkeeper
FONTE do post: http://21dedezembro2012.blogspot.com.br
Milhões de seres desconhecidos
Nós que temos interesse no campo designado “ufológico” seguidamente não nos damos conta de quanto e como desconhecemos os seres “daqui mesmo”, terráqueos, com os quais convivemos nesta nave-mãe. Desconhecemos não só em termos qualitativos – biologicamente falando – , mas quantitativamente, porque a imensidão de espécies é quase inacreditável e assustadora. Estima-se que ao menos 12 milhões de espécies que não estão sequer catalogadas, que dirá estudadas ao menos em aspectos mais básicos. 70%, ou seja, bem mais do que a metade dos seres vivos da Terra não são conhecidos!
Faltam recursos financeiros e humanos para tal empreendimento. Óbvio que se não se gastasse, por exemplo, em armamentos, isso seria imensamente facilitado. Mas a “vontade de poder” parece dominar uma rede de interesses que implicam num constante e cada vez mais difuso bangue-bangue, sem possibilidades de saber quem são os mocinhos e os bandidos da história. Todos se armam até os dentes e continuamos matando e morrendo por mandos territoriais, acesso a recursos naturais e domínio de populações, como o faziam os caçadores-coletores das savanas por milhares de anos.
Segunda a reportagem abaixo, “seriam necessários de US$ 500 milhões a US$ 1 bilhão por ano, durante 50 anos, para descrever a maioria das espécies do planeta”. Uma fábula de dinheiro... Só que tal quantidade “corresponde ao que se gasta no mundo com armamento em apenas cinco dias”... No mundo, apenas contabilizando o ano de 2011, “foram gastos US$ 1,7 trilhão com a compra de armas”...
Civilização é isto! Alguém tem dúvida de que, apesar de Iphones e robôs em Marte, ainda somos tão, ou melhor, bem mais violentos e sanguinários que os chipanzés em suas disputas de liderança e vantagens exclusivistas no grupo?
Segue a matéria clipada pelo site Planeta Universitário.
*Na foto acima (divulgação), uma criatura que habita as partes mais abissais dos ocenaos terráqueos.
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Ao menos 70% das espécies da Terra são desconhecidas
Embora o conhecimento sobre a biodiversidade do planeta ainda esteja muito fragmentado, estima-se que já tenham sido descritos aproximadamente 1,75 milhão de espécies diferentes de seres vivos – incluindo microrganismos, plantas e animais. O número pode impressionar os mais desavisados, mas representa, nas hipóteses mais otimistas, apenas 30% das formas de vida existentes na Terra. “Estima-se que existam outros 12 milhões de espécies ainda por serem descobertas”, disse Thomas Lewinsohn, professor do Departamento de Biologia Animal da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), durante a apresentação que deu início ao Ciclo de Conferências 2013 organizado pelo programa BIOTA-FAPESP com o intuito de contribuir para o aperfeiçoamento do ensino de ciência.
Mas como avaliar o tamanho do desconhecimento sobre a biodiversidade? “Para isso, fazemos extrapolações, tomando como base os grupos de organismos mais bem estudados para avaliar os menos estudados. Regiões ou países em que a biota é bem conhecida para avaliar onde é menos conhecida. Por regra de três chegamos a essas estimativas”, explicou.
Técnicas mais recentes, segundo Lewinsohn, usam fórmulas estatísticas sofisticadas e se baseiam nas taxas de descobertas e de descrição de novas espécies. Os valores são ajustados de acordo com a força de trabalho existente, ou seja, o número de taxonomistas em atividade.
“No entanto, o mais importante a dizer é: não há consenso. As estimativas podem chegar a mais de 100 milhões de espécies desconhecidas. Não sabemos nem a ordem de grandeza e isso é espantoso”, disse.
Lewinsohn avalia que, para descrever todas as espécies que se estima haver no Brasil, seriam necessários cerca de 2 mil anos. “Para descrever todas as espécies do mundo o número seria parecido. Mas não temos esse tempo”, disse.
Algumas técnicas recentes de taxonomia molecular, como código de barras de DNA, podem ajudar a acelerar o trabalho, pois permitem identificar organismos por meio da análise de seu material genético. Por esse método, cadeias diferentes de DNA diferenciam as espécies, enquanto na taxonomia clássica a classificação é baseada na morfologia dos seres vivos, o que é bem mais trabalhoso.
“Dá para fazer? Sim, mas qual é o custo?”, questionou Lewinsohn. Um artigo publicado recentemente na revista Science apontou que seriam necessários de US$ 500 milhões a US$ 1 bilhão por ano, durante 50 anos, para descrever a maioria das espécies do planeta.
Novamente, o número pode assustar os desavisados, mas, de acordo com Lewinsohn, o montante corresponde ao que se gasta no mundo com armamento em apenas cinco dias. “Somente em 2011 foram gastos US$ 1,7 trilhão com a compra de armas. É preciso colocar as coisas em perspectiva”, defendeu.
Definindo prioridades
Muitas dessas espécies desconhecidas, porém, podem desaparecer do planeta antes mesmo que o homem tenha tempo e dinheiro suficiente para estudá-las. Segundo dados apresentados por Jean Paul Metzger, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), mais de 50% da superfície terrestre já foi transformada pelo homem.
Essa alteração na paisagem tem muitas consequências e Metzger abordou duas delas na segunda apresentação do dia: a perda de habitat e a fragmentação.
“São conceitos diferentes, que muitas vezes se confundem. Fragmentação é a subdivisão de um habitat e pode não ocorrer quando o processo de degradação ocorre nas bordas da mata. Já a construção de uma estrada, por exemplo, cria fragmentos isolados dentro do habitat”, explicou.
Para Metzger, a fragmentação é a principal ameaça à biodiversidade, pois altera o equilíbrio entre os processos naturais de extinção de espécies e de colonização. Quanto menor e mais isolado é o fragmento, maior é a taxa de extinção e menor é a de colonização.
“Cada espécie tem uma quantidade mínima de habitat que precisa para sobreviver e se reproduzir. Não conhecemos bem esses limiares de extinção”, alertou.
Metzger acredita que esse limiar pode variar de acordo com a configuração da paisagem, ou seja, quanto mais fragmentado estiver o habitat, maior o risco de extinção de espécies. Como exemplo, ele citou as áreas remanescentes de Mata Atlântica do Estado de São Paulo, onde 95% dos fragmentos têm menos de 100 hectares.
“Estima-se que ao perder 90% do habitat, deveríamos perder 50% das espécies endêmicas. Na Mata Atlântica, há cerca de 16% de floresta remanescente. O esperado seria uma extinção em massa, mas nosso registro tem poucos casos. Ou nossa teoria está errada, ou não estamos detectando as extinções, pois as espécies nem sequer eram conhecidas”, afirmou Metzger.
Há, no entanto, um fator complicador: o período de latência entre a mudança na estrutura paisagem e mudança na estrutura da comunidade. Enquanto as espécies com ciclo curto de vida podem desaparecer rapidamente, aquelas com ciclo de vida longo podem responder à perda de habitat em escala centenária.
“Cria-se um débito de extinção e, mesmo que a alteração na paisagem seja interrompida, algumas espécies ficam fadadas a desaparecer com o tempo”, disse Metzger.
Mas a boa notícia é que as paisagens também se regeneram naturalmente e além do débito de extinção existe o crédito de recuperação. O período de latência representa, portanto, uma oportunidade de conservação.
“Hoje, temos evidências de que não adianta restaurar em qualquer lugar. É preciso definir áreas prioritárias para restauração que otimizem a conectividade e facilitem o fluxo biológico entre os fragmentos”, defendeu Metzger.
Colhendo frutos
Ao longo dos 13 anos de existência do BIOTA-FAPESP, a definição de áreas prioritárias de conservação e de recuperação no Estado de São Paulo foi uma das principais preocupações dos pesquisadores.
Os resultados desses estudos foram usados pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente para embasar políticas públicas, como lembrou o coordenador do programa e professor do Instituto de Biologia da Unicamp, Carlos Alfredo Joly, na terceira e última apresentação do dia.
“Atualmente, pelo menos 20 instrumentos legais, entre leis, decretos e resoluções, citam nominalmente os resultados do BIOTA-FAPESP”, disse Joly.
Entre 1999 e 2009, disse o coordenador, houve um investimento anual de R$ 8 milhões no programa. Isso ajudou a financiar 94 projetos de pesquisa e resultou em mais de 700 artigos publicados em 181 periódicos, entre eles Nature e Science.
A equipe do programa também publicou 16 livros e dois atlas, descreveu mais de 2 mil novas espécies, produziu e armazenou informações sobre 12 mil espécies, disponibilizou e conectou digitalmente 35 coleções biológicas paulistas.
“Desde que foi renovado o apoio da FAPESP ao programa, em 2009, a questão da educação se tornou prioridade em nosso plano estratégico. O objetivo deste ciclo de conferências é justamente ampliar a comunicação com públicos além do meio científico, especialmente professores e estudantes”, disse Joly.
A segunda etapa do ciclo de palestras está marcada para 21 de março e terá como tema o “Bioma Pampa”. No dia 18 de abril, será a vez do “Bioma Pantanal”. Em 16 de maio, o tema será “Bioma Cerrado”. Em 20 de junho, será abordado o “Bioma Caatinga”.
Em 22 de agosto, será o “Bioma Mata Atlântica”. Em 19 de setembro, é a vez do “Bioma Amazônia”. Em 24 de outubro, o tema será “Ambientes Marinhos e Costeiros”. Finalizando o ciclo, em 21 de novembro, o tema será “Biodiversidade em Ambientes Antrópicos – Urbanos e Rurais”.
Programação do ciclo: www.fapesp.br/7487
Agência FAPESP
FONTE: http://www.planetauniversitario.com
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
“Crer é muito mais fácil”
Numa troca de e-mail com um amigo escritor, que publicou um livro com relatos sobre golpes do tipo “conto do bilhete”, destaquei (e incrementei) algumas partes das mensagens que enviei a ele. Seguem abaixo.
****************
E é assim mesmo: o cara está “condicionado” a ver discos voadores; ou o cara morre de vontade de ver algo assim, extraordinário, e qualquer fenômeno não imediatamente identificado se torna um “avistamento de ufo”...
Há ufólogos que lutam contra o amadorismo e crendices nas investigações. Mas a esmagadora maioria dos “adeptos”, pelo que noto, são “crentões” das ideias da “nova era” – e estão longe de uma abordagem de fato científica –, sedentos de algo que substitua as velhas religiões, cada vez mais carcomidas (mesmo que o número de adeptos se expanda).
Tenho um blog, que incialmente tinha uma proposta, mas virou um repositório para textos (comentários pessoais) “alertado” para, justamente, uma perspectiva obscurantista de uma certa abordagem sobre ufos/óvnis e assuntos correlatos, além de propor uma atenção a coisas extremamente interessantes, mas bem mais “pé no chão”. O pontapé para publicar os comentários foi a leitura há não muito tempo daquele livro do finado físico Carl Sagan, “O mundo assombrado pelos demônios – A ciência vista como uma vela no escuro”. Os comentários postados são normalmente e-mails levemente adaptados, que envio ou troco com um pessoal de uma lista. [O blog é este “AlertaOvniBrasil”.]
Ainda falando em “171” – as engambelações que estamos sujeitos enquanto seres ávidos e acríticos diante de supostas maravilhas –, estou lendo uma revista Galileu – de outubro de 2012 – cuja reportagem de capa é “Por que você acredita – seu cérebro é programado para crer. Entenda como isso influencia suas atitudes (superstições, conspirações, astrologia, fim do mundo, destino, espíritos, deus)”.
Tenho aqui até um link para a matéria, caso tu queiras dar uma olhada:
http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI320171-17579,00-POR+QUE+VOCE+ACREDITA+EM+HOROSCOPO+ESPIRITOS+ETS+E+RELIGIOES.html
Voltando, tenho esta relação com o tema “ufologia” – muito por conta de amigos queridos. Mas ao mesmo tempo que percebo o interesse pelo assunto como algo positivo e estimulante à busca de conhecimentos, e que também pode propiciar um rompimento do pensamento antropocêntrico (o ser humano como centro de tudo, inclusive como a principal preocupação de um suposto criador de tudo que há no universo), vejo o assunto (ufos ou óvnis) ser encarado como uma crendice (obliterante do livre pensamento), estabelecendo-se como uma nova forma de igreja. Como diz a própria reportagem da revista, substituiu-se anjos e demônios por ETs bons e maus... E até Jesus Cristo teria vindo à Terra num disco voador...
Michael Shermer é citado nesta Galileu. Aliás, o seu último lançamento no Brasil – o livro “Cérebro e Crença” – é o mote da reportagem. Eu li semanas atrás boa parte de um livro anterior dele (dos publicados no Brasil), que se chama “Por que as pessoas acreditam em Coisas Estranhas”, com o subtítulo “pseudociência, superstição e outras confusões de nossos tempos”.
Shermer diz que
“Faz parte da natureza humana [acreditar]. Não evoluímos para duvidar ou questionar. Desenvolver um senso crítico e uma visão própria de mundo exige educação, reflexão e tempo. Crer é muito mais fácil. As pessoas preferem ser enganadas”.
Especificamente, sobre ufologia, ele diz que
“Nenhuma fotografia pretensamente tirada de um disco voador sobreviveu a um exame detalhado. São todas alegações falsas, montagens feitas para iludir. Embora seja possível que algumas alegações de eventos paranormais, mediúnicos ou ufológicos possam ser verdadeiras, a verdade é que a maior parte delas é falsa”.
O link para a entrevista completa, que saiu na revista Época no ano passado (2012), onde ele fala isso (acima) está reproduzida logo abaixo.
http://www.michaelshermer.com/2012/01/as-pessoas-gostam-de-ser-enganadas/
Comentário posteriores:
*Voltando ao Shermer, tenho que me penitenciar por ter retirado, para tentar sintetizar, um complemento da fala dele na entrevista da Época. Deixei de fora a seguinte finalização da frase:
“(...) e o mais provável é que todas não passem de pura farsa”.
Assim, o trecho que destaquei fica:
“Nenhuma fotografia pretensamente tirada de um disco voador sobreviveu a um exame detalhado. São todas alegações falsas, montagens feitas para iludir. Embora seja possível que algumas alegações de eventos paranormais, mediúnicos ou ufológicos possam ser verdadeiras, a verdade é que a maior parte delas é falsa, e o mais provável é que todas não passem de pura farsa”.
Como indiquei, para quem quiser confirmar, está aqui a entrevista completa:
http://www.michaelshermer.com/2012/01/as-pessoas-gostam-de-ser-enganadas/
Ou seja, Shermer afirma que a probabilidade indica que todas fotos sejam falsas como indicadoras de “discos voadores”, ou seja, veículos supostamente vindos do espaço, de outros planetas.
Já se sabe, por inúmeras meios, que, sim, a maior parte das fotos são de fato falsas. Shermer vai adiante e diz que “o mais provável é que todas não passem de pura farsa”. “Farsa”, montagens ou indução de interpretação de algo que não é, ou que se está “forçando”, a partir do “eu quero acreditar” ao invés do “eu quero saber”. É duro de se admitir, mas como diz o ufólogo português Nuno Silveira, é preciso considerar seriamente o quanto são precários os nossos indicadores, as nossas “provas”, com um histórico absurdo de engodos, cretinices e, até, canalhices descaradas.
Não sei detalhes sobre os levantamentos, investigações, pesquisas de Shermer sobre o tema “ufo”. Na obra que eu li dele, “Por que as pessoas acreditam em Coisas Estranhas”, há um capítulo específico e uma extensa bibliografia e percebe-se, além de experiência de vida, uma grande erudição, fruto, talvez, de sua longa trajetória de professor de História da Ciência (Claremont University e Chapman Univesrity), palestrante em eventos como o Fronteiras do Pensamento (hoje o maior ciclo de conferências da América Latina, com os expoentes mundiais em artes, filosofia e ciências), articulista da revista Scientific American, entre outras credenciais nada desprezíveis.
Mas é muito bom que a gente tenha contrapontos e me honra muito receber considerações, mesmo quando contrariam as minhas ideias. Só assim se pode “voltar atrás” ou aperfeiçoar as nossas concepções. O pior de tudo, acho eu, é aferrar-se a uma visão, sem a disposição de debate-las francamente, similar a um devoto de uma seita fundamentalista, que se ofende com qualquer tipo de questionamento.
**Para continuar o debate envolvendo a posição de alguns cientistas, a partir da conversa com o Daniel (em 24/01 – conforme a mensagem mais abaixo).
Aliás, falo propositalmente em “alguns cientistas” porque não se pode generalizar. Como tenho conversado com o Rafa, uma coisa é a Ciência e seu “estado da arte” contemporâneo, sua metodologia, sua permanente autofiscalização e mudanças na medida que surgem novas teorias e instrumentos de verificação; outra coisa é a posição de um cientista “a”, “b”, “c” etc. Podem haver opiniões diferentes, equívocos, simpatias, antipatias, afinal são seres humanos naturalmente falíveis e suscetíveis a humores. “Cada cabeça, uma sentença”, diz o ditado. Isso vale para qualquer indivíduo – cientista, pipoqueiro, jogador de futebol, padre etc.
Eu já li algumas coisas do Marcelo Glaser, alguém, um brasileiro que está na ponta mundial quando se fala em astrofísica. Não deve ser por nada que pesquisou para a NASA e Kavli Institute for Theoretical Physics, dando aulas em educandários como o Dartmouth College e a UFRJ. Mas, com certeza, erudição e credenciais acadêmicas não significam estar imune a equívocos. Entretanto, no caso do Glaser, para alguém que a vida toda tem estudado profundamente as questões da física, do espaço, da astronomia, da astrofísica, da própria exobiologia, acho que não dá para desconsiderá-lo em seu ponto de vista, mesmo que frontalmente contrário ao que possamos ter. Qual seria, mesmo, o seu “erro”?
Interessante que outro astrofísico de renome, Carl Sagan, seja visto com simpatia por muitos ufólogos. Sagan se posicionou frontalmente contra a ideia de discos voadores, ETs, abduções conforme os relatos “clássicos” que existem por aí. Para mim, TODA PESSOA INTERESSADA EM UFOLOGIA deveria ler – em especial os capítulos específicos em torno do tema – o livro de Sagan “O MUNDO ASSOMBRADO PELOS DEMÔNIOS: A Ciência Vista como uma Vela no Escuro”.
Eis uma resenha muito boa: http://www.comciencia.br/resenhas/carl.htm
O livro, como todas as obras de Sagan, é muito agradável e acessível, mesmo quando lida com aspectos mais abstratos ou técnicos. E o que ele afirma, em síntese, similarmente ao Shermer, é que não existe evidência concreta alguma sobre naves e seres extraterrestres; ele faz um esforço danado para mostrar o quanto é pernicioso considerar como “certo” o que é apenas “relato” ou “exercício hipotético”, construindo-se uma pseudociência ou endossando crendices travestidas de “algo profundo”; como alega Sagan, isso pode estar nos levando a um retrocesso, a uma volta a um tempo “de trevas”, de irracionalismos, de repressão ao desenvolvimento do pensamento, do conhecimento humano e do próprio desfrute da vida; quando penso no Projeto Portal, é exatamente isso que me parece estar ocorrendo: gente aderindo as mais esfarrapadas teses, sustentadas por armações para pegar incautos “loucos para acreditar”.
***O livro mais bonito do Sagan talvez seja Um Pálido Ponto Azul – até pela encadernação, fotos etc.
Mas “O Mundo Assombrado...”, como eu disse, acho que vale a pena o esforço – pelas argumentações do Sagan, este cara muito cultuado por ufólogos, mas que poucos o leram, a não ser algumas frases soltas e alguns capítulos da série Cosmos. Todo caso, talvez seja cientista mais importante para as pesquisas sobre vida extraterrestre. Uma pena que morreu cedo... Um baita mestre.
Há muitas coisas na vida que não há – nem é preciso – provar, já que são, por exemplo, sentimentos, como a compaixão. Mas quando estamos querendo fazer pesquisa ufológica (assim com se faz pesquisa biológica) não há como escapar da metodologia científica, das comprovações. Caso contrário, será outra coisa que estamos fazendo: culto a ETs, culto a discos voadores, culto a Asthar Sharan etc. É o que eu acho.
Pois é. Copérnico lutou contra o obscurantismo da igreja; lutou contra a crendice, o dogmatismo; teve que vencer a perseguição a quem pensava racionalmente. Estudiosos sérios sobre vida extraterrestre têm de lutar contra a crendice de ufólatras, que não abrem mão da ideia que discos voadores e ETs são reais, irrefutáveis... A Ufologia pode ser a nova igreja repressora do século XXI... Hehe!!
E crer é mais difícil, sim, concordo – em vários casos. Tem coisas “tipo” a concepção de uma virgem, tomada de forma literal, um dos cernes da crença cristã (os católicos chamam isso de “mistérios”, para não dizerem “lorotas”- hehe!!). É preciso muita coragem para defender tal “acontecimento” hoje em dia; de fato, é difícil apoiar disparates tão grandes; no caso, é mais fácil (e mais correto!) não acreditar.
****************
E é assim mesmo: o cara está “condicionado” a ver discos voadores; ou o cara morre de vontade de ver algo assim, extraordinário, e qualquer fenômeno não imediatamente identificado se torna um “avistamento de ufo”...
Há ufólogos que lutam contra o amadorismo e crendices nas investigações. Mas a esmagadora maioria dos “adeptos”, pelo que noto, são “crentões” das ideias da “nova era” – e estão longe de uma abordagem de fato científica –, sedentos de algo que substitua as velhas religiões, cada vez mais carcomidas (mesmo que o número de adeptos se expanda).
Tenho um blog, que incialmente tinha uma proposta, mas virou um repositório para textos (comentários pessoais) “alertado” para, justamente, uma perspectiva obscurantista de uma certa abordagem sobre ufos/óvnis e assuntos correlatos, além de propor uma atenção a coisas extremamente interessantes, mas bem mais “pé no chão”. O pontapé para publicar os comentários foi a leitura há não muito tempo daquele livro do finado físico Carl Sagan, “O mundo assombrado pelos demônios – A ciência vista como uma vela no escuro”. Os comentários postados são normalmente e-mails levemente adaptados, que envio ou troco com um pessoal de uma lista. [O blog é este “AlertaOvniBrasil”.]
Ainda falando em “171” – as engambelações que estamos sujeitos enquanto seres ávidos e acríticos diante de supostas maravilhas –, estou lendo uma revista Galileu – de outubro de 2012 – cuja reportagem de capa é “Por que você acredita – seu cérebro é programado para crer. Entenda como isso influencia suas atitudes (superstições, conspirações, astrologia, fim do mundo, destino, espíritos, deus)”.
Tenho aqui até um link para a matéria, caso tu queiras dar uma olhada:
http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI320171-17579,00-POR+QUE+VOCE+ACREDITA+EM+HOROSCOPO+ESPIRITOS+ETS+E+RELIGIOES.html
Voltando, tenho esta relação com o tema “ufologia” – muito por conta de amigos queridos. Mas ao mesmo tempo que percebo o interesse pelo assunto como algo positivo e estimulante à busca de conhecimentos, e que também pode propiciar um rompimento do pensamento antropocêntrico (o ser humano como centro de tudo, inclusive como a principal preocupação de um suposto criador de tudo que há no universo), vejo o assunto (ufos ou óvnis) ser encarado como uma crendice (obliterante do livre pensamento), estabelecendo-se como uma nova forma de igreja. Como diz a própria reportagem da revista, substituiu-se anjos e demônios por ETs bons e maus... E até Jesus Cristo teria vindo à Terra num disco voador...
Michael Shermer é citado nesta Galileu. Aliás, o seu último lançamento no Brasil – o livro “Cérebro e Crença” – é o mote da reportagem. Eu li semanas atrás boa parte de um livro anterior dele (dos publicados no Brasil), que se chama “Por que as pessoas acreditam em Coisas Estranhas”, com o subtítulo “pseudociência, superstição e outras confusões de nossos tempos”.
Shermer diz que
“Faz parte da natureza humana [acreditar]. Não evoluímos para duvidar ou questionar. Desenvolver um senso crítico e uma visão própria de mundo exige educação, reflexão e tempo. Crer é muito mais fácil. As pessoas preferem ser enganadas”.
Especificamente, sobre ufologia, ele diz que
“Nenhuma fotografia pretensamente tirada de um disco voador sobreviveu a um exame detalhado. São todas alegações falsas, montagens feitas para iludir. Embora seja possível que algumas alegações de eventos paranormais, mediúnicos ou ufológicos possam ser verdadeiras, a verdade é que a maior parte delas é falsa”.
O link para a entrevista completa, que saiu na revista Época no ano passado (2012), onde ele fala isso (acima) está reproduzida logo abaixo.
http://www.michaelshermer.com/2012/01/as-pessoas-gostam-de-ser-enganadas/
Comentário posteriores:
*Voltando ao Shermer, tenho que me penitenciar por ter retirado, para tentar sintetizar, um complemento da fala dele na entrevista da Época. Deixei de fora a seguinte finalização da frase:
“(...) e o mais provável é que todas não passem de pura farsa”.
Assim, o trecho que destaquei fica:
“Nenhuma fotografia pretensamente tirada de um disco voador sobreviveu a um exame detalhado. São todas alegações falsas, montagens feitas para iludir. Embora seja possível que algumas alegações de eventos paranormais, mediúnicos ou ufológicos possam ser verdadeiras, a verdade é que a maior parte delas é falsa, e o mais provável é que todas não passem de pura farsa”.
Como indiquei, para quem quiser confirmar, está aqui a entrevista completa:
http://www.michaelshermer.com/2012/01/as-pessoas-gostam-de-ser-enganadas/
Ou seja, Shermer afirma que a probabilidade indica que todas fotos sejam falsas como indicadoras de “discos voadores”, ou seja, veículos supostamente vindos do espaço, de outros planetas.
Já se sabe, por inúmeras meios, que, sim, a maior parte das fotos são de fato falsas. Shermer vai adiante e diz que “o mais provável é que todas não passem de pura farsa”. “Farsa”, montagens ou indução de interpretação de algo que não é, ou que se está “forçando”, a partir do “eu quero acreditar” ao invés do “eu quero saber”. É duro de se admitir, mas como diz o ufólogo português Nuno Silveira, é preciso considerar seriamente o quanto são precários os nossos indicadores, as nossas “provas”, com um histórico absurdo de engodos, cretinices e, até, canalhices descaradas.
Não sei detalhes sobre os levantamentos, investigações, pesquisas de Shermer sobre o tema “ufo”. Na obra que eu li dele, “Por que as pessoas acreditam em Coisas Estranhas”, há um capítulo específico e uma extensa bibliografia e percebe-se, além de experiência de vida, uma grande erudição, fruto, talvez, de sua longa trajetória de professor de História da Ciência (Claremont University e Chapman Univesrity), palestrante em eventos como o Fronteiras do Pensamento (hoje o maior ciclo de conferências da América Latina, com os expoentes mundiais em artes, filosofia e ciências), articulista da revista Scientific American, entre outras credenciais nada desprezíveis.
Mas é muito bom que a gente tenha contrapontos e me honra muito receber considerações, mesmo quando contrariam as minhas ideias. Só assim se pode “voltar atrás” ou aperfeiçoar as nossas concepções. O pior de tudo, acho eu, é aferrar-se a uma visão, sem a disposição de debate-las francamente, similar a um devoto de uma seita fundamentalista, que se ofende com qualquer tipo de questionamento.
**Para continuar o debate envolvendo a posição de alguns cientistas, a partir da conversa com o Daniel (em 24/01 – conforme a mensagem mais abaixo).
Aliás, falo propositalmente em “alguns cientistas” porque não se pode generalizar. Como tenho conversado com o Rafa, uma coisa é a Ciência e seu “estado da arte” contemporâneo, sua metodologia, sua permanente autofiscalização e mudanças na medida que surgem novas teorias e instrumentos de verificação; outra coisa é a posição de um cientista “a”, “b”, “c” etc. Podem haver opiniões diferentes, equívocos, simpatias, antipatias, afinal são seres humanos naturalmente falíveis e suscetíveis a humores. “Cada cabeça, uma sentença”, diz o ditado. Isso vale para qualquer indivíduo – cientista, pipoqueiro, jogador de futebol, padre etc.
Eu já li algumas coisas do Marcelo Glaser, alguém, um brasileiro que está na ponta mundial quando se fala em astrofísica. Não deve ser por nada que pesquisou para a NASA e Kavli Institute for Theoretical Physics, dando aulas em educandários como o Dartmouth College e a UFRJ. Mas, com certeza, erudição e credenciais acadêmicas não significam estar imune a equívocos. Entretanto, no caso do Glaser, para alguém que a vida toda tem estudado profundamente as questões da física, do espaço, da astronomia, da astrofísica, da própria exobiologia, acho que não dá para desconsiderá-lo em seu ponto de vista, mesmo que frontalmente contrário ao que possamos ter. Qual seria, mesmo, o seu “erro”?
Interessante que outro astrofísico de renome, Carl Sagan, seja visto com simpatia por muitos ufólogos. Sagan se posicionou frontalmente contra a ideia de discos voadores, ETs, abduções conforme os relatos “clássicos” que existem por aí. Para mim, TODA PESSOA INTERESSADA EM UFOLOGIA deveria ler – em especial os capítulos específicos em torno do tema – o livro de Sagan “O MUNDO ASSOMBRADO PELOS DEMÔNIOS: A Ciência Vista como uma Vela no Escuro”.
Eis uma resenha muito boa: http://www.comciencia.br/resenhas/carl.htm
O livro, como todas as obras de Sagan, é muito agradável e acessível, mesmo quando lida com aspectos mais abstratos ou técnicos. E o que ele afirma, em síntese, similarmente ao Shermer, é que não existe evidência concreta alguma sobre naves e seres extraterrestres; ele faz um esforço danado para mostrar o quanto é pernicioso considerar como “certo” o que é apenas “relato” ou “exercício hipotético”, construindo-se uma pseudociência ou endossando crendices travestidas de “algo profundo”; como alega Sagan, isso pode estar nos levando a um retrocesso, a uma volta a um tempo “de trevas”, de irracionalismos, de repressão ao desenvolvimento do pensamento, do conhecimento humano e do próprio desfrute da vida; quando penso no Projeto Portal, é exatamente isso que me parece estar ocorrendo: gente aderindo as mais esfarrapadas teses, sustentadas por armações para pegar incautos “loucos para acreditar”.
***O livro mais bonito do Sagan talvez seja Um Pálido Ponto Azul – até pela encadernação, fotos etc.
Mas “O Mundo Assombrado...”, como eu disse, acho que vale a pena o esforço – pelas argumentações do Sagan, este cara muito cultuado por ufólogos, mas que poucos o leram, a não ser algumas frases soltas e alguns capítulos da série Cosmos. Todo caso, talvez seja cientista mais importante para as pesquisas sobre vida extraterrestre. Uma pena que morreu cedo... Um baita mestre.
Há muitas coisas na vida que não há – nem é preciso – provar, já que são, por exemplo, sentimentos, como a compaixão. Mas quando estamos querendo fazer pesquisa ufológica (assim com se faz pesquisa biológica) não há como escapar da metodologia científica, das comprovações. Caso contrário, será outra coisa que estamos fazendo: culto a ETs, culto a discos voadores, culto a Asthar Sharan etc. É o que eu acho.
Pois é. Copérnico lutou contra o obscurantismo da igreja; lutou contra a crendice, o dogmatismo; teve que vencer a perseguição a quem pensava racionalmente. Estudiosos sérios sobre vida extraterrestre têm de lutar contra a crendice de ufólatras, que não abrem mão da ideia que discos voadores e ETs são reais, irrefutáveis... A Ufologia pode ser a nova igreja repressora do século XXI... Hehe!!
E crer é mais difícil, sim, concordo – em vários casos. Tem coisas “tipo” a concepção de uma virgem, tomada de forma literal, um dos cernes da crença cristã (os católicos chamam isso de “mistérios”, para não dizerem “lorotas”- hehe!!). É preciso muita coragem para defender tal “acontecimento” hoje em dia; de fato, é difícil apoiar disparates tão grandes; no caso, é mais fácil (e mais correto!) não acreditar.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
“Um objeto bizarro, que desafia a nossa imaginação.”
Mais uma vez, não se trata de um ufo/óvni ou algo do gênero.
O “objeto bizarro, que desafia a nossa imaginação” são os buracos negros
– esses fenômenos do nosso universo astrofísico. E o que está entre aspas foi
dito por um jovem pesquisador gaúcho, Rodrigo Nemmen da Silva, que está fazendo
seu pós-doutorado na Goddard Space Flight Center, Nasa, nos EUA. Ele é um dos
cabeças da equipe que está desvendando fenômenos envolvendo substâncias (sim,
substâncias) eliminadas pelos buracos negros. O trabalho foi publicado na
prestigiada revista Science.
Essas informações estão na reportagem que saiu no jornal
Zero Hora de 15/12/12. Mais abaixo, segue o link.
Nascido em Passo Fundo (aquela cidade que é mencionada no
filme “Sinais”, do diretor Shyamalan), Rodrigo diz o seguinte:
“Escolhi estudar os buracos negros, porque é algo fascinante
e são laboratórios incríveis para entender a natureza, e que mexe com o
imaginário popular. Mas, se eu paro pra pensar, vejo que é um objeto bizarro,
que desafia a nossa imaginação.”
Desafios à imaginação, para mim, seria uma das positividades
da ufologia. Desde que não sejamos absorvidos pelo “buraco negro” do obscurantismo,
ou seja, da crendice travestida de “ciência”, quando não completamente
contaminado por uma postura místico-religiosa estapafúrdia, de fragilíssimas
bases e consequências desastrosas, como diz com muita propriedade o ufólogo
português Nuno Silveira, em entrevista dada à Revista Ufo (edição 184 – ali
Nuno diz ao entrevistador, Paulo Poian, que, ao invés do lema “eu quero
acreditar”, o “lema” dos ufólogos, emprestado do filme “Arquivo X”, deveria ser
“eu quero saber”).
Talvez antes de nos “meter” a ufólogos, devêssemos estudar
bem mais. Quem sabe um pós-doutorado na Goddard Space Flight Center? Teríamos
competência para tal? Teríamos paciência e dedicação para chegarmos em tais
lonjuras pedregosas? Pois acho que todos nós que nos pretendemos pesquisadores
do assunto, sim, deveríamos estudar – diversas matérias acadêmicas – com muito
afinco antes de pontificar qualquer coisa. Não uma carteirinha de algum tipo de
“Centro Intergaláctico de Estudos Orion”, mas de estruturas sérias, que
precisam zelar por suas reputações institucionais.
A reportagem de Zero Hora:
Físico de Passo Fundo que estuda na Nasa faz descoberta
sobre os buracos negros
Artigo com os resultados da pesquisa foi publicado nesta
sexta-feira na revista Science
Comentários posteriores:
*É isso aí. Ficar na busca. Não desdenhar dos vários
caminhos para o saber, não esquecendo que o mentefato cultural (como chama o
professor Attico Chassot, aí de PoA) da ciência é uma das grandes chaves que
temos, que já deu muitas provas de seu poder (para o bem e para o mal).
**Mas me parece natural as coisas irem se complexificando e
que vá surgindo novas concepções, superando ou aumentando as possibilidades de “explicação”.
Como acredito que o nível da complexidade do universo é tal, com nossa
capacidade de compreensão é limitada em forma e quantidade, jamais saberemos o
que é o labirinto onde estamos metidos. Mas o legal é tentar; dar nó em pingo
d’água, construir mentefatos (teorias) e outras ferramentas que nos dê mais
lampejos sobre as coisas que nos rodeiam tão enigmaticamente. Claro que o
primeiro passo é ver as coisas como enigmas, e não cair nesta banalização
corriqueiras, onde a pessoa nem mais se espanta com as estrelas num céu
esplendoroso, que dirá com o sabor de um espresso bem tirado!
***É sempre um prazer receber tuas ponderações. Me honra
muito, embora os elogios a mim, do tipo “inteligência superior”, fique por
conta de tua grande generosidade!
Sobre siglas, gostei bastante também da denominação do
citado ufólogo Nunes Silveira, FANI, Fenômenos Aéreos Não Identificados, porque
mais abrangentes, não se referindo propriamente a “objetos”, ou seja, algum
tipo de “sólido” – até porque boa parte dos relatos se referem a luzes...
Um dos meus gostos pela ufologia foi justamente por um FANI
(não confundir com FANIquito! Hehe!!), compartilhado com vários amigos, durante
uma noite em um acampamento no interior de Venâncio Aires. Anos depois, fui
descobrir que o objeto muito provavelmente seria um balão meteorológico, pelo
tipo de “deslocamento” e colorações.
Sobre o “querer saber” ao invés do “querer acreditar” me
parece muito bem sacado e muito pertinente, mesmo. Acho que o “querer
acreditar” nos induz a “ver” – pela ansiedade, pela predisposição mental, pela
sede humana de epifanias, pela serie de imagens que podemos estar evocando em
nossas mentes influenciáveis (estereótipos da cultura de massa) e cheias de
limitações (pelos cinco sentidos e cognitivamente falando). O “querer saber”,
numa perspectiva mais científica clássica, impõe ao pesquisador/estudante a
autocrítica e constantes revisões – próprias e alheias, sem medo do
contraditório, da contestação, do questionamento duro, do abandono de teorias e
até paradigmas (aliás, no ano passado, a fundamental obra de Thomas Kuhn, A
Estrutura das Revoluções Científicas, completou 50 anos, introduzindo inúmeras
formas novas de “se fazer ciência”).
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