quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

“Crer é muito mais fácil”

Numa troca de e-mail com um amigo escritor, que publicou um livro com relatos sobre golpes do tipo “conto do bilhete”, destaquei (e incrementei) algumas partes das mensagens que enviei a ele. Seguem abaixo.

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E é assim mesmo: o cara está “condicionado” a ver discos voadores; ou o cara morre de vontade de ver algo assim, extraordinário, e qualquer fenômeno não imediatamente identificado se torna um “avistamento de ufo”...

Há ufólogos que lutam contra o amadorismo e crendices nas investigações. Mas a esmagadora maioria dos “adeptos”, pelo que noto, são “crentões” das ideias da “nova era” – e estão longe de uma abordagem de fato científica –, sedentos de algo que substitua as velhas religiões, cada vez mais carcomidas (mesmo que o número de adeptos se expanda).

Tenho um blog, que incialmente tinha uma proposta, mas virou um repositório para textos (comentários pessoais) “alertado” para, justamente, uma perspectiva obscurantista de uma certa abordagem sobre ufos/óvnis e assuntos correlatos, além de propor uma atenção a coisas extremamente interessantes, mas bem mais “pé no chão”. O pontapé para publicar os comentários foi a leitura há não muito tempo daquele livro do finado físico Carl Sagan, “O mundo assombrado pelos demônios – A ciência vista como uma vela no escuro”. Os comentários postados são normalmente e-mails levemente adaptados, que envio ou troco com um pessoal de uma lista. [O blog é este “AlertaOvniBrasil”.]

Ainda falando em “171” – as engambelações que estamos sujeitos enquanto seres ávidos e acríticos diante de supostas maravilhas –, estou lendo uma revista Galileu – de outubro de 2012 – cuja reportagem de capa é “Por que você acredita – seu cérebro é programado para crer. Entenda como isso influencia suas atitudes (superstições, conspirações, astrologia, fim do mundo, destino, espíritos, deus)”.
Tenho aqui até um link para a matéria, caso tu queiras dar uma olhada:

http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI320171-17579,00-POR+QUE+VOCE+ACREDITA+EM+HOROSCOPO+ESPIRITOS+ETS+E+RELIGIOES.html

Voltando, tenho esta relação com o tema “ufologia” – muito por conta de amigos queridos. Mas ao mesmo tempo que percebo o interesse pelo assunto como algo positivo e estimulante à busca de conhecimentos, e que também pode propiciar um rompimento do pensamento antropocêntrico (o ser humano como centro de tudo, inclusive como a principal preocupação de um suposto criador de tudo que há no universo), vejo o assunto (ufos ou óvnis) ser encarado como uma crendice (obliterante do livre pensamento), estabelecendo-se como uma nova forma de igreja. Como diz a própria reportagem da revista, substituiu-se anjos e demônios por ETs bons e maus... E até Jesus Cristo teria vindo à Terra num disco voador...

Michael Shermer é citado nesta Galileu. Aliás, o seu último lançamento no Brasil – o livro “Cérebro e Crença” – é o mote da reportagem. Eu li semanas atrás boa parte de um livro anterior dele (dos publicados no Brasil), que se chama “Por que as pessoas acreditam em Coisas Estranhas”, com o subtítulo “pseudociência, superstição e outras confusões de nossos tempos”.
Shermer diz que

“Faz parte da natureza humana [acreditar]. Não evoluímos para duvidar ou questionar. Desenvolver um senso crítico e uma visão própria de mundo exige educação, reflexão e tempo. Crer é muito mais fácil. As pessoas preferem ser enganadas”.

Especificamente, sobre ufologia, ele diz que

“Nenhuma fotografia pretensamente tirada de um disco voador sobreviveu a um exame detalhado. São todas alegações falsas, montagens feitas para iludir. Embora seja possível que algumas alegações de eventos paranormais, mediúnicos ou ufológicos possam ser verdadeiras, a verdade é que a maior parte delas é falsa”.

O link para a entrevista completa, que saiu na revista Época no ano passado (2012), onde ele fala isso (acima) está reproduzida logo abaixo.

http://www.michaelshermer.com/2012/01/as-pessoas-gostam-de-ser-enganadas/


Comentário posteriores:

*Voltando ao Shermer, tenho que me penitenciar por ter retirado, para tentar sintetizar, um complemento da fala dele na entrevista da Época. Deixei de fora a seguinte finalização da frase:

“(...) e o mais provável é que todas não passem de pura farsa”.

Assim, o trecho que destaquei fica:

“Nenhuma fotografia pretensamente tirada de um disco voador sobreviveu a um exame detalhado. São todas alegações falsas, montagens feitas para iludir. Embora seja possível que algumas alegações de eventos paranormais, mediúnicos ou ufológicos possam ser verdadeiras, a verdade é que a maior parte delas é falsa, e o mais provável é que todas não passem de pura farsa”.

Como indiquei, para quem quiser confirmar, está aqui a entrevista completa:

http://www.michaelshermer.com/2012/01/as-pessoas-gostam-de-ser-enganadas/

Ou seja, Shermer afirma que a probabilidade indica que todas fotos sejam falsas como indicadoras de “discos voadores”, ou seja, veículos supostamente vindos do espaço, de outros planetas.

Já se sabe, por inúmeras meios, que, sim, a maior parte das fotos são de fato falsas. Shermer vai adiante e diz que “o mais provável é que todas não passem de pura farsa”. “Farsa”, montagens ou indução de interpretação de algo que não é, ou que se está “forçando”, a partir do “eu quero acreditar” ao invés do “eu quero saber”. É duro de se admitir, mas como diz o ufólogo português Nuno Silveira, é preciso considerar seriamente o quanto são precários os nossos indicadores, as nossas “provas”, com um histórico absurdo de engodos, cretinices e, até, canalhices descaradas.

Não sei detalhes sobre os levantamentos, investigações, pesquisas de Shermer sobre o tema “ufo”. Na obra que eu li dele, “Por que as pessoas acreditam em Coisas Estranhas”, há um capítulo específico e uma extensa bibliografia e percebe-se, além de experiência de vida, uma grande erudição, fruto, talvez, de sua longa trajetória de professor de História da Ciência (Claremont University e Chapman Univesrity), palestrante em eventos como o Fronteiras do Pensamento (hoje o maior ciclo de conferências da América Latina, com os expoentes mundiais em artes, filosofia e ciências), articulista da revista Scientific American, entre outras credenciais nada desprezíveis.

Mas é muito bom que a gente tenha contrapontos e me honra muito receber considerações, mesmo quando contrariam as minhas ideias. Só assim se pode “voltar atrás” ou aperfeiçoar as nossas concepções. O pior de tudo, acho eu, é aferrar-se a uma visão, sem a disposição de debate-las francamente, similar a um devoto de uma seita fundamentalista, que se ofende com qualquer tipo de questionamento.


**Para continuar o debate envolvendo a posição de alguns cientistas, a partir da conversa com o Daniel (em 24/01 – conforme a mensagem mais abaixo).

Aliás, falo propositalmente em “alguns cientistas” porque não se pode generalizar. Como tenho conversado com o Rafa, uma coisa é a Ciência e seu “estado da arte” contemporâneo, sua metodologia, sua permanente autofiscalização e mudanças na medida que surgem novas teorias e instrumentos de verificação; outra coisa é a posição de um cientista “a”, “b”, “c” etc. Podem haver opiniões diferentes, equívocos, simpatias, antipatias, afinal são seres humanos naturalmente falíveis e suscetíveis a humores. “Cada cabeça, uma sentença”, diz o ditado. Isso vale para qualquer indivíduo – cientista, pipoqueiro, jogador de futebol, padre etc.

Eu já li algumas coisas do Marcelo Glaser, alguém, um brasileiro que está na ponta mundial quando se fala em astrofísica. Não deve ser por nada que pesquisou para a NASA e Kavli Institute for Theoretical Physics, dando aulas em educandários como o Dartmouth College e a UFRJ. Mas, com certeza, erudição e credenciais acadêmicas não significam estar imune a equívocos. Entretanto, no caso do Glaser, para alguém que a vida toda tem estudado profundamente as questões da física, do espaço, da astronomia, da astrofísica, da própria exobiologia, acho que não dá para desconsiderá-lo em seu ponto de vista, mesmo que frontalmente contrário ao que possamos ter. Qual seria, mesmo, o seu “erro”?

Interessante que outro astrofísico de renome, Carl Sagan, seja visto com simpatia por muitos ufólogos. Sagan se posicionou frontalmente contra a ideia de discos voadores, ETs, abduções conforme os relatos “clássicos” que existem por aí. Para mim, TODA PESSOA INTERESSADA EM UFOLOGIA deveria ler – em especial os capítulos específicos em torno do tema – o livro de Sagan “O MUNDO ASSOMBRADO PELOS DEMÔNIOS: A Ciência Vista como uma Vela no Escuro”.

Eis uma resenha muito boa: http://www.comciencia.br/resenhas/carl.htm

O livro, como todas as obras de Sagan, é muito agradável e acessível, mesmo quando lida com aspectos mais abstratos ou técnicos. E o que ele afirma, em síntese, similarmente ao Shermer, é que não existe evidência concreta alguma sobre naves e seres extraterrestres; ele faz um esforço danado para mostrar o quanto é pernicioso considerar como “certo” o que é apenas “relato” ou “exercício hipotético”, construindo-se uma pseudociência ou endossando crendices travestidas de “algo profundo”; como alega Sagan, isso pode estar nos levando a um retrocesso, a uma volta a um tempo “de trevas”, de irracionalismos, de repressão ao desenvolvimento do pensamento, do conhecimento humano e do próprio desfrute da vida; quando penso no Projeto Portal, é exatamente isso que me parece estar ocorrendo: gente aderindo as mais esfarrapadas teses, sustentadas por armações para pegar incautos “loucos para acreditar”.



***O livro mais bonito do Sagan talvez seja Um Pálido Ponto Azul – até pela encadernação, fotos etc.

Mas “O Mundo Assombrado...”, como eu disse, acho que vale a pena o esforço – pelas argumentações do Sagan, este cara muito cultuado por ufólogos, mas que poucos o leram, a não ser algumas frases soltas e alguns capítulos da série Cosmos. Todo caso, talvez seja cientista mais importante para as pesquisas sobre vida extraterrestre. Uma pena que morreu cedo... Um baita mestre.

Há muitas coisas na vida que não há – nem é preciso – provar, já que são, por exemplo, sentimentos, como a compaixão. Mas quando estamos querendo fazer pesquisa ufológica (assim com se faz pesquisa biológica) não há como escapar da metodologia científica, das comprovações. Caso contrário, será outra coisa que estamos fazendo: culto a ETs, culto a discos voadores, culto a Asthar Sharan etc. É o que eu acho.

Pois é. Copérnico lutou contra o obscurantismo da igreja; lutou contra a crendice, o dogmatismo; teve que vencer a perseguição a quem pensava racionalmente. Estudiosos sérios sobre vida extraterrestre têm de lutar contra a crendice de ufólatras, que não abrem mão da ideia que discos voadores e ETs são reais, irrefutáveis... A Ufologia pode ser a nova igreja repressora do século XXI... Hehe!!

E crer é mais difícil, sim, concordo – em vários casos. Tem coisas “tipo” a concepção de uma virgem, tomada de forma literal, um dos cernes da crença cristã (os católicos chamam isso de “mistérios”, para não dizerem “lorotas”- hehe!!). É preciso muita coragem para defender tal  “acontecimento” hoje em dia; de fato, é difícil apoiar disparates tão grandes; no caso, é mais fácil (e mais correto!) não acreditar.

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