segunda-feira, 22 de abril de 2013

Mestres com os pés no mundo e cabeças ousadas


Aproveitando uma troca de e-mail com os mestres Rafa Amorim e Nelson, compartilho também com vocês a minha empolgação, continuando minhas pesquisas sobre a vida e as expedições do norueguês Thor Heyerdhal.

É algo de um fascínio sem fim. Seis amigos, numa jangada feita totalmente de toras, taquaras, cipós, folhas de palmeira tenham, durante mais de 100 dias, atravessado da costa do Peru à Polinésia, tudo para mostrar a viabilidade da teoria do povoamento de nativos sul-americanos, que, com sua tecnologia de navegação – aparentemente rústica, extremamente eficiente –, conseguiram navegar milhares de quilômetros mar adentro, num período que recém se saía da traumática 2ª Guerra Mundial. Thor estava contrariando a ideia vigente de que a região do Taiti teria sido colonizada por asiáticos, jamais por peruanos pré-colombianos. O sucesso da travessia abalou fortemente convicções.

A aventura não foi só a transposição oceânica em si, mas a organização de uma empreitada daquela envergadura e ousadia, que começa como uma ideia que muitos consideraram estapafúrdia, totalmente insana, uma temeridade, um atirar-se à morte certa e sem sentido.

Na Wikipédia, falando sobre o falecimento de Thor, anotaram assim:

“Thor Heyerdahl morreu em 18 de abril de 2002 em sua casa na Itália depois de 87 anos dedicando sua vida às descobertas dos enigmas da humanidade.”

Poxa! Uma vida dedicada aos “enigmas da humanidade”. Não é algo fantástico? Poder devotar uma longa vida a buscar entender os mistérios que nos rodeiam – e nos compõem enquanto seres indagadores, imersos numa complexidade avassaladora.

Thor Heyerdahl é alguém para se admirar e tratar como um verdadeiro mestre – sem mistificação, sem se ajoelhar; um mestre que estimula a usar toda a nossa habilidade humana para raciocinar, refletir, intuir, se emocionar e “fazer acontecer”.

*Na ilustração anexa, mais uma vez o Kon-Tiki, embarcação usada pela mencionada expedição de Thor Heyerdahl.

**Complemento: Triste é a pessoa perder a curiosidade – aquele impulso infantil de querer saber tudo, temperado, na adultez, pela experiência e prudência que evitam circunlóquios e armadilhas piores. Uma lástima que tantas coisas nos prendam em nossa pacatice. Acho que Thor Heyerdahl, por uma série de circunstâncias, escapou do ordinário, e viveu uma vida extraordinária em seu pleno significado.

Na busca de informações do nosso “amigo”, achei aqui na biblioteca da universidade a sua autobiografia “Na Trilha de Adão: memórias de um filósofo da aventura”, editada pela Companhia das Letras em 2000.

É um livro muito interessante, porque, acaba por ser um síntese de todas as empreitadas do norueguês, além de trazer muitos detalhes da sua vida e do mundo onde viveu, ou seja, praticamente o século XX.

Ainda estou lendo-o. Na página 22: ao cometerem que ele ter sido uma pessoa de sorte, Thor anota:

“A pergunta não é como ter sorte, mas como evitar a falta dela.”

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