No sábado retrasado olhei um filme que me deixou muito impactado e que recomendo a todos. O filme se chama “Alexandria”, produção espanhola de 2009, multipremiada e muito didática, contando, de forma romanceada, a história real da filósofa Hipátia, que viveu em Alexandria, no Egito, entre os anos 355 e 415, época da dominação romana naquela região do norte da África, mas sob pressão cada vez maior dos cristãos, que, de minoria oprimida, se tornam, cada vez mais, na maioria opressora.
Além dos aspectos do puro desejo de poder humano e manipulações de vários tipos, há na narração de “Alexandria” o caminho a que se chega com o obscurantismo, a fé cega, a superstição, ou seja, se chega a violência, a dor e castração da inteligência humana. Hipátia, uma pensadora independente, professora de ciências, como a astronomia, acaba sendo barbaramente apedrejada e arrastada pela cidade por monges cristãos, que a chamam de bruxa, herege, ateia etc. Aparece aí explicitamente a face da intolerância, do machismo extremo inerentes ao cristianismo e todas as seitas derivadas do patriarcalismo mais arcaico, autoritário, caso do judaísmo, de onde saiu Jesus.
Relacionei o filme a um e-mail que me foi repassado dias atrás. Contém uma “foto”, na verdade um desenho retratando Cristo conforme o estereótipo – um homem branco, magro, de cabelos compridos, com um rosto expressando dor, tendo na cabeça a terrível coroa de espinhos.
Interessante que essa figura, que representa o amor incondicional, a bondade encarnada, a suprema compaixão, aquele que se dá pela salvação da humanidade... caso a gente não repasse o e-mail com tal figura, isto desencadeará uma grande desgraça...
Referências como a de ter sido “divulgada até no [programa da Rede Globo] Fantástico", um presidente sem nome da Argentina (cujo filho morreu), uma pessoa chamada Alberto Martines (imaginei-o um mexicano ou costa-riquenho)... a expressão "o poder Ele tem", "milagres", ganhar na loteria, o prazo de "13 dias"... tudo isso me perturbou justamente pela superstição, o obscurantismo evidenciados; a crendice mais simplória e, aí é o ponto, ao que parece, compartilhada por pessoas que tenho o maior apreço e consideração, pela amizade e por suas capacidades intelectuais; pessoas que atuam em uma academia de ensino superior (assim como Hipátia, do filme “Alexandria”). Ao ler o texto, pensei que, só numa primeira olhada, já se vê a precariedade e, “ouso dizer”, o embuste erguido em cima de algo sem sustentação, sem base, que lida só com o nosso lado fantasista, paranoico, crédulo e medroso – o irracionalismo que contradiz todas as conquistas da humanidade em seu tortuoso caminho, mas que, a final, tem nos levado a um entendimento cada vez mais profundo do cosmos e da vida, vide as tantas e complexas conquistas científicas e tecnológicas de nosso uso cotidiano, afora coisas impensáveis como uma sonda movida a energia atômica pesquisando Marte.
Pois o filme “Alexandria”, dirigido pelo mesmo cara que fez o oscarizado “Mar Adentro” (Alejandro Amenábar), é um libelo pela liberdade de pensamento e contra concepções que travem a expansão do saber, travando a análise crítica e, especialmente, a auto-crítica. É um libelo pelo “amor à sabedoria” e contra a cegueiras do dogmatismo, da irreflexão. Hipátia é esfolada porque se recusou a aderir a uma crença que coíbe questionamentos e se impõe, se não pelo convencimento, pela força mais brutal.
Bem, era isso. Fica a dica de filme. Segue um link com a sinopse e treiler:
http://www.imagemfilmes.com.br/imagemfilmes/principal/filme.aspx?filme=103236
Posto aqui cometários pessoais sobre acontecimentos e outras reflexões que ligo à ufologia - pela qual nutro várias simpatias. Com apreensão, observo cada vez mais o interesse e o estudo sobre vida e a inteligência fora da Terra e além da humanidade derivar, dentro dos meios chamados "ufológicos", para as mais tacanhas formas de crendice e superstição, reforçando o obscurantismo, a irracionalidade, o fundamentalismo religioso e a pseudociência.
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