Achei muito bacana um artigo – que segue mais abaixo –
falando de um documentário, que deve ser igualmente muito bonito (vou tentar
conseguir o DVD – segue no final um link para a sinopse e trailer do filme).
“A Caverna dos Sonhos Perdidos” é dirigido e narrado pelo
famoso cineasta alemão Werner Herzog. Fala sobre os desenhos feitos há 30 mil
anos, achados não faz muito, em 1994, no sul da França, ocultos ao fundo de uma
enorme caverna, chamada hoje de caverna de Chouvet (pouco conhecida em relação
a outra caverna famosa por suas pinturas rupestres, a de Lascaux, também na
França).
Já destaco para vocês o seguinte trecho do artigo:
“[...] perdemos nos dias de hoje esta integração com a
totalidade do cosmos, com a natureza. Somos seres dissociados da totalidade,
vivendo uma vida partida que se contrapõe ao mundo natural. Na escalada da
nossa história, na busca do conhecimento, do esclarecimento, fomos nos
afastando do mundo mágico das incursões fantásticas de nossos ancestrais,
tornando-nos escravos dos ditames da ciência. Para nós, torna-se ridículo
qualquer movimento nesta área, pois as tachamos próprias de sociedades
primitivas e sem cultura. Observando-se tais murais, a elegância contida nos
cavalos e demais animais da Caverna de Chouvet, percebemos que existe um
artista em cada um de nós, em cada ser humano. Mas, como exercer essa arte num
mundo tomado pela mercadoria? Como é possível integrar-se à paisagem, se todas
as nossas ações foram tomadas pela economia, que controla o nosso tempo e a
nossa alma?”
Uma ressalva: a expressão acima “escravo dos ditames da
ciência” poderia ser substituída por outros ditames, como o “ditames de uma
igreja” ou “de uma ideologia política” etc. Acho que todos os “ditames”, todo
dogmatismo, toda a explicação fechada é limitadora dos potenciais humanos.
Para mim, a ciência tem um enorme potencial transcendente,
que busca sempre se aprofundar, “ir além”, qualificar e expandir a compreensão
do mundo, das suas coisas, do próprio ser humano. O “achamento” da caverna,
aliás, é fruto do impulso científico, pois foi descoberta por três cientistas:
Jean-Marie Chouvet (de onde vem o nome da caverna), acompanhado de Cristian
Hillaire e Elliete Brunel, conforme está no artigo. Para quem já tem toda a
explicação do universo e sentido da vida dado por uma religião, filosofia ou
ideologia, por que continuar procurando?? Até porque a procura efetiva pode
levar a conhecimentos destrutivos de velhas crenças ou/e de compreensões
fragilmente embasadas...
Abraços!
Iuri
-------------------------------
A Caverna dos Sonhos Perdidos
Por Arlindenor Pedro*
Na instigante entrevista que deu ao jornalista Bill Moyers
(divulgada em vídeo no Brasil em 1988),
Joseph Campbell relata que ficou muito emocionado quando ele e sua mulher
visitaram a caverna de Lascaux , no sudoeste francês e interagiram com as
imagens dos artistas do paleolítico que deixaram imortalizadas suas obras de
arte nas profundezas das grutas, nas suas paredes.
Antes tinham visitado as catedrais medievais do interior da
Europa, e ele então aproveitou para fazer um paralelo entre os objetivos que
motivaram os artistas que criaram os belos vitrais dessas igrejas e as imagens
que encontrou dos pintores rupestres. O ambiente criado por essas figuras não
cumpririam as mesmas funções? Não seriam locais de adoração aos deuses, onde os
reflexos do mundo real seriam afastados e as mentes poderiam ser tocadas pelas
imagens, levando o observador para o mundo do oculto, do irreal, do fantástico - o mundo dos espíritos?
Levados pelos xamãs, assim descreveu Campbell, os jovens que
se iniciariam na caça desciam as profundezas da caverna e ali, em plena
escuridão, que só desparecia com as luzes dos archotes, desenvolviam cerimônias de contato com os espíritos presentes nos
animais que iriam abater mais tarde. As figuras desses animais, dispostas ao
longo das paredes, aproveitando as protuberâncias das pedras, numa postura de
movimento, iluminadas pelo fogo, tomam então vida, e como num filme, saltam aos
olhos. Ao som de música ritual e fumaças de
ervas inebriantes, chega-se então ao êxtase e ao desprendimento do mundo lá de
fora - o
rito de passagem muito presente nas sociedades primitivas. Campbell deduz,
então, que esta é a razão de que essas obras, feitas pelos homens do
paleolítico, se encontram, invariavelmente no fundo das cavernas, aonde não
existe luz e o som do exterior. Isto é, sem a interferência do mundo real.
Tais cerimonias tornam-se incompreensíveis para nós,
cidadãos das polis contemporâneas. Mas, são plenamente aceitáveis e necessárias
num mundo onde se articulam os conceitos de fluidez (onde é possível uma parede
falar, um animal se manifestar, um homem se transformar em uma árvore, etc.) e de permeabilidade (onde não
existem barreiras entre o mundo dos espíritos e o nosso mundo, o chamado mundo
real). Dessa forma, no seu êxtase, o xamã se eleva ao mundo dos espíritos e
leva com ele os participantes do cerimonial.
O cineasta alemão Werner Herzog também viveu essa
experiência do que nos fala Campbell. Mas, desta vez em outra caverna, a
caverna de Chouvet, próximo ao rio Ardèche, no sul da França.
Esta caverna foi descoberta pelo cientista Jean-Marie
Chouvet (de onde vem o nome da caverna) acompanhado dos cientistas Cristian
Hillaire e Elliete Brunel, em 1994, três dias antes do Natal.
Eles estavam à procura de uma corrente de ar indicativa da
presença de cavernas e toparam com uma fenda em um grande rochedo que os levou
a uma das maiores descobertas cientificas de todos os tempos: uma grandiosa
caverna, com cerca de 400 metros de extensão, aprofundando- se terra adentro.
No seu fundo depara-se com majestosos painéis, com inúmeras pinturas,
praticamente intactas, com cerca de 30 mil anos de existência.
Devido ao fato de que há algumas dezenas de milhares de anos
ter ocorrido um deslizamento que tampou toda a entrada desta caverna, ela
manteve-se intocada, transformando-se numa verdadeira cápsula do tempo, com a
história congelada em um momento.
Herzog, ciente desta descoberta e do seu valor para a
humanidade, desenvolveu um processo de negociação com o Ministério da Cultura
da França conseguindo, então, o feito de ser o único cineasta que conseguiu
mostrar imagens da Caverna de Chouvet, produzindo um documentário que tem um
inestimável papel para o debate da formação da cultura humana e do papel dos
mitos na nossa existência. Ele deu o nome ao documentário de “A Caverna dos
Sonhos Perdidos”, que exemplifica bem a sua visão do que viu e queria mostrar.
O governo francês, já experiente com os problemas que
surgiram em Lascaux, que teve que ser fechada devido ao mofo que surgiu nas
paredes, motivado pela respiração dos turistas, montou uma política de quase
total restrição de acesso ao sítio. Sua entrada está lacrada com uma porta, que
lembra a porta de um banco, e a permanência no seu interior é monitorada,
restringindo-se a um pequeno tempo. Desta forma, o tempo de Herzog e sua
pequena equipe foi restringido ao máximo, e ele só conseguiu a licença de
filmagem no interior da caverna pelo prestígio que desfruta junto aos
franceses, e ao tornar o filme disponível ao público francês como elemento
cultural, sem fins comerciais.
Temos então um filme muito bem acabado, escrito, dirigido e
narrado por ele, com imagens em 3D, o que dá a esta obra um caráter
espetacular, que merece ser visto. Destacam-se nele a fotografia, a música
inquietante do violoncelo do compositor Ernest Reijseger, além do texto
recitado pelo diretor, que nos leva a profundas reflexões. Uma obra que foge ao
clichê dos documentários científicos, possuindo a chancela característica de um
dos cineastas mais criativos do cinema contemporâneo, que sempre encarou o seu
oficio de forma intuitiva e como parte da sua própria existência, nos legando
uma obra extensa, onde a realidade funde-se com a ficção.
Participante do movimento do Cinema Novo Alemão e
influenciado pela Nouvelle Vague francesa e do Cinema Novo do Brasil, amigo e
admirador de cineastas e artistas brasileiros, como Nelson Pereira dos Santos,
Glauber Rocha, Milton Nascimento, e outros, Werner Herzog produziu grandes
clássicos do cinema pós-guerra, filmando várias obras na América do Sul. O
público brasileiro certamente conhece os filmes de 1972 “Aquire – A Cólera dos
Deuses ( que retrata a natureza humana submetida a um processo limite de tensão
que leva ao caos e a um total descolamento com a realidade ) e o de 1982,
Fitzcarraldo (onde é vivida a determinação de um alemão que move um barco por
sobre uma montanha na busca de concretizar a utopia de ver sua opera encenada
em plena Amazônia). Ambos os filmes têm um elenco grandioso, com elementos
estéticos inesquecíveis, onde, sem dúvidas, se destaca o polêmico ator Klaus
Kinski, amigo-inimigo de Herzog. Filmes com a marca registrada do diretor,
inclusive com o seu humor ácido e desconcertante nas falas de alguns
personagens.
Em determinado momento do documentário, com a câmera
acompanhando as sobras e luzes que emanam das figuras postas nos murais, um dos
cientistas pede aos visitantes um silêncio total, para que o som da caverna se
destaque. Nessa hora, chegamos a escutar o bater do coração dos visitantes.
Herzog propõe então a seguinte questão: ¨será o som dos nossos corações o que
escutamos, ou será o dos artistas que pintaram nessa caverna? Será que seremos
capazes de compreender a visão dos artistas através desse abismo de tempo?¨.
A câmera sai então da caverna e ao som da musica incidental,
nas imagens em 3D, tomamos contato com o entorno, com a exuberância do vale do
rio Ardèche, e para um pórtico de pedra chamado Ponto D’Arc . Herzog diz: “há
certa áurea de melodrama nesta paisagem (o rio, o marco, as árvores), retirada
de uma ópera de Wagner ou de uma pintura do romantismo alemão.
Seria essa a nossa ligação com eles? Esta representação da
paisagem como um evento operístico não pertence apenas ao romantismo: os homens
da idade da pedra podiam ter tido a mesma percepção ao retratar essa paisagem.”
Esta é também a minha opinião.
Fica claro, é plenamente perceptível, que perdemos nos dias
de hoje esta integração com a totalidade do cosmos, com a natureza. Somos seres
dissociados da totalidade, vivendo uma vida partida que se contrapõe ao mundo
natural. Na escalada da nossa história, na busca do conhecimento, do
esclarecimento, fomos nos afastando do mundo mágico das incursões fantásticas
de nossos ancestrais, tornando-nos escravos dos ditames da ciência. Para nós,
torna-se ridículo qualquer movimento nesta área, pois as tachamos próprias de
sociedades primitivas e sem cultura.
Observando-se tais tais murais, a elegância contida nos
cavalos e demais animais da Caverna de Chouvet, percebemos que existe um
artista em cada um de nós, em cada ser humano.
Mas, como exercer essa arte num mundo tomado pela
mercadoria? Como é possível integrar-se à passagem [obs.:
por provável falha na digitação, acredito que a palavra deveria ser
“paisagem”, e não “passagem”], se todas as nossas ações foram tomadas pela
economia, que controla o nosso tempo e a nossa alma?
Associamos a arte ao dinheiro e ao valor no mercado. Isto se
faz com a pintura, a música, o cinema, enfim, com a tudo o que possa pertencer
à “indústria cultural”.
Herzog associa a arte das cavernas a movimentos grandiosos,
tais como o que nos deu Schiller e Goethe. E ele tem razão, pois a manifestação
artística está associada ao mundo em que ela foi gerada. Um movimento, como o
romantismo alemão, é um momento único e se deu quando almas sensíveis fizeram
aflorar a sua arte a despeito das amarras sociais, avançando para um novo
tempo. A percepção do ambiente estava tanto presente para os artistas alemães
como para os artistas do paleolítico.
Acredito que na atualidade, com a força que tem a mercadoria
e o dinheiro, que se divide o homem da natureza e o impede de ter com ela uma
relação direta, isto está cada dia mais difícil de ocorrer. Dai então, a atual
crise do processo criativo onde se vaticina a morte da arte.
Platão nos propõe que saiamos da caverna para conhecer a
realidade, onde está a luz do sol. Mas, através das palavras de Sócrates, nos
diz que somos como um rebanho de carneiros que precisam de um pastor para
sobreviver. E nos diz, então, que o pastor (aquele que sabe) é quem deve
conduzir as nossas vidas. Sairíamos da caverna, porém veríamos os dias com os
olhos dos outros ( como fazemos no dia-a-dia com os especialistas nos meios de
comunicação, que nos explicam o que ocorreu e o que ocorrerá ), acentuando a
nossa postura de contemplação no mundo.
Ao contrário, acredito que devamos voltar à caverna, e pelas
mãos do xamã (nesse caso o artista) devamos experimentar o êxtase diretamente,
vivendo a sensação da inter-relação com a natureza e seus elementos míticos –
como os jovens caçadores, dos quais nos falou Joseph Campbell. A forma de
escaparmos da intermediação do mercado e do dinheiro ( que se coloca entre o
homem e a natureza) é chegarmos a uma relação direta com o cosmos e
experimentarmos nossas emoções num processo direto de vida-vivida.
Afinal, cada sensação na relação com o mundo é única, pois
certamente cada jovem caçador reagia à sua maneira aos estímulos dos espíritos
da caverna.
Serra da Mantiqueira, junho de 2012.
*Arlindenor Pedro – é professor de história, funcionário
público e especialista em Projetos Educacionais. Anistiado por sua oposição ao
Regime Militar, atualmente dedica-se à produção de flores tropicais na Região
das Agulhas Negras.
E-mail para contatos : arlindenor@newageconsultores.com.br
Blog: arlindenor. wordpress.com
Link com sinopse e o trailer:

Nenhum comentário:
Postar um comentário