segunda-feira, 29 de outubro de 2012

“A presença humana no Sistema Solar nunca foi tão ampla”

Algo muito interessante li na coluna Ciência em Pauta da Scientific American Brasil de agosto deste ano (2012), com uma reportagem especial sobre sonda-jipe-robô Curiosity, naquela altura ainda não tendo chegado a superfície de Marte.

Os editores da revista anotam o seguinte na página 17:

Com a chegada [na órbita de Mercúrio em 2011 da sonda] Messenger, a Nasa e agências internacionais similares têm agora espaçonaves estacionadas em Mercúrio, Vênus, Marte e Saturno – sem mencionar a Terra e a Lua. Duas outras naves da Nasa estão a caminho de Júpiter e Plutão; outra deve deve atingir o planeta-anão, Ceres, em 2015. A presença humana no Sistema Solar nunca foi tão ampla.

E poderá ser ainda mais, com robôs espionando luas estranhas, que podem abrigar vida, ou mal compreendidos planetas externos.

É fantástica essa situação que vivemos. Estamos, enquanto humanidade, investigado muito de perto uma quantidade de áreas e objetos espaciais incríveis, produzindo uma quantidade de dados que possibilitam ampliar e qualificar nossos conhecimentos sobre o Universo.

Para os ufólogos e ufologistas, isso pode, absurdamente, ser algo desestimulante. Por quê? Porque embora tantos “olhos no espaço”, embora tantos canais de registro e divulgação de informações, ainda não tivemos UMA SEQUER PROVA de naves ou outro elemento indicando a presença de “alienígenas”. Enquanto ufólogos e ufologistas, continuamos nos “alimentando” de suposições e teorias conspiratórias (tipo “A Nasa esconde informações, porque o caos se instalaria” e outras pérolas que infantilmente divertem muita gente).

Das suposições eu gosto, enquanto hipóteses, enquanto possibilidades; teorias conspiratórias, cada vez mais me dão uma sensação de esvaziamento intelectual e escorregadela para um misticismo retrógrado, que pretende trocar a nossa tremenda angústia e ignorância – mesmo que consideramos todo o corpo de pesquisa e conhecimentos científicos disponíveis nesta segunda década do século XXI – por uma “esperança no além”, seja elas anunciadas por uma Virgem Maria os Asthar Sharan. Talvez isso esteja, como produto da evolução da espécie, registrado em nossa genética – a “vontade” ou “predisposição de acreditar”, para não nos “travar” pelo medo, pelos abismos da existência, auxiliando-nos na sobrevivência em um meio hostil desde os tempos da savana e das cavernas...

No planeta água, comer carne é abusar de um recurso cada vez mais escasso

Numa sessão da revista National Geographic Brasil de setembro (2012) é apresentado uma tabela com o consumo de água na produção de alimentos. Os dados se referem ao consumo do líquido por unidade de valor nutritivo (litro/kcal). E estarrecem: por exemplo, para produzir cereais (trigo, milho, centeio, arroz etc.) se gasta MENOS 10 VEZES água do que para produzir carne bovina. O índice é de 0,5 litro/kcal para 10,3 litro/kcal. Até na produção de carne de porco (2,2) e frango (3) se gasta menos água.  Legumes e outros vegetais não ultrapassam o índice de 1,3 litro/kcal.

Assim é que quem se preocupa realmente com a sustentabilidade do planeta, afora considerações de ordem esotéricas (“espirituais”) ou éticas (a sessação da vida e a dor impingida a seres tão biologicamente próximos ao animal humano) sobre a matança de animais, há um motivo ambientalista evidenciado na absurda “necessidade” da água para que o camarada tenha o seu churrasco dominical.

Também não se está considerando os “custos” ambientais do desmatamento para a expansão das pastagens (como acontece na região amazônica e do pantanal brasileiros) e na produção da carne bovina nos matadouros e frigoríficos. Provavelmente, aí os números seriam ainda mais díspares e preocupantes. Tudo indica que o consumo do “prosaico churrasquinho” ou do “bifinho da mamãe” implica num impacto ambiental medonho. E há, sim, formas alternativas de uma alimentação saudável sem necessidade de tamanha matança e prejuízo ecológico.

Queremos salvar a Terra? Nos importamos com o futuro de nossos semelhantes? Mesmo? Então que tal diminuir o consumo de carne desses nossos irmãos, mamíferos com tantas semelhanças conosco?

***Nos últimos anos, tenho dito que sigo uma orientação vegetariana, e não que eu seja vegetariano restrito.

A razão principal do meu vegetarianismo é que quero evitar ao máximo causar sofrimento desnecessários a outros animais, concebendo que há uma hierarquia, estando os mamíferos no ponto mais alto da consciência e sensibilidade a dores físicas e emocionais. Considero também que há aspectos mais sutis, como a existência do corpo astral (ou algo que se assemelhe), que podem nos trazer prejuízos quando ingerimos a carne.

Mas acho que o humano é biologicamente um animal omnívoro. Ou seja, podemos comer carne. Por nosso livre arbítrio (mesmo que cheio de limitações), podemos nos abster de comê-la em situações de boa oferta de fontes proteicas e outros elementos nutricionais vegetais. Mas sempre me vem à cabeça as populações que vivem em ambientes extremos, como os esquimós daquele livro “No País das Sombras Longas”, onde a carne é completamente indispensável à vida. Obvio que, aí, o sacrifício é feito numa situação de extremo respeito àquele ser (respeito, reverência, agradecimento), e tudo – músculo, ossos, vísceras, couro (e até o conteúdo do estômago e intestino) – é aproveitado para a sobrevivência, sem haver mortes além do estritamente necessário.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Eram os deuses motociclistas?

Na interessante introdução feita pelo repórter alemão Ernst von Khuon no livro “Vieram os  deuses de outras galáxia?” (com o subtítulo “Cientistas discutem as teses de Erich von Daniken”), publicado no Brasil em 1972 (originalmente saído na Alemanha em 1970), ou seja, logo após o lançamento das duas obras primeiras de Daniken, indicando a rápida e enorme repercussão que elas tiveram (deve-se também considerar o momento, quando a “corrida espacial” chega ao seu auge, com descida de astronautas americanos na Lua [“Um pequeno paço para um homem, mas um grande para a humanidade.”], causando uma comoção mundial, já iniciada com o cosmonauta russo Gagarim em 1961, orbitando a Terra pela primeira vez [“A Terra é azul!”]).

Khuon já nesta abertura do livro problematiza a associação de imagens milenares, feitas em pedra, caso de povos pré-colombianos na América Latina, a artefatos tecnológicos humanos contemporâneos (anos de 1960/70), caso de trajes e naves espaciais. Numa comparação um tanto jocosa, mas, por isso mesmo, bastante eficiente, ele diz que se é possível associar a imagem de um deus maia ou outra entidade de culturas mesoamericanas antiquíssimas a um astronauta da atualidade, melhor ainda, por maiores semelhanças, se poderia associá-lo a uma alegoria de um motoqueiro, com seu capacete, onde espia pelo visor, montado em sua possante Suzuqui ou Harley-Davison, cheia de “relógios”, luzes, velocímetro, odômetro e outros indicadores de desempenho da máquina, além de arabescos da conformação externa de um desses veículos velozes, de alta potência, com as reentrâncias próprias do motor, quadro, banco e, quem sabe, representação de pinturas do tipo "Easy Rider", com labaredas ou outros grafismos no tanque de gasolina e carenagens...

Nas palavras de Khuon:

“Acho eu que seria a coisa menos provável neste mundo que esses ‘astronautas’, que em eras primitivas venceram distâncias de anos-luz, se parecessem com os tripulantes dos voos espaciais da atualidade. O deus dos índios maias, no Templo das Inscrições, em Pelenque [México], bem podia ser visto como astronautas de nossos dias, mas, melhor ainda, como piloto de provas em uma motocicleta, com o pé no pedal e os instrumentos de controle em sua frente.”

E continua no mesmo parágrafo, complementando:

“É pouco provável que o astronauta de uma civilização mais adiantada do que a nossa usasse equipamentos parecidos com o usado por Neil Armstrong; a sua aparência deveria ter sido bastante diferente.”

Ressalta, ainda, o mais provável:

“Outrossim, a explicação dos arqueólogos de que o deus maia estaria realizando um culto continua igualmente crível, mesmo nessa formulação bastante vaga.”

A “vontade de acreditar” – sem uma boa dose de autoanálise e autocrítica – pode nos levar a grandes enganos, “vendo” em tudo indicações “óbvias” por aquilo que estamos “apaixonados”. Assim é que possíveis associações, mas não passando de remotas hipóteses, ganham status de “fato inconteste” na cabeça da pessoa, levando-a a um mergulho cada vez mais profundo naquilo que jamais passou de tese ou divagação, afogando o indivíduo numa intricada ilusão, que, às vezes, se torna o seu “sentido da vida”, tornando-se ainda mais “fortalecido” e “potente” quando encontra apoio em outros “crentes”, confrades, coirmãos, reunidos em uma comunidade de apoio mútuo.

Num dos artigos – “Inteligências em estrelas distantes – o sonho de Daniken e a realidade das chances biológico-evolutivas para inteligências extraterrestres” – desse mesmo livro organizado Ernst von Khuon, Joachim Ilies diz o seguinte (p. 54), de forma muito direta, simples e sintética:

“Todos nós conhecemos os casos de fanáticos por determinada ideia ou causa, os monomaníacos, que a cada passo encontram a prova de sua convicção. São indivíduos com ideia fixa, preconcebida, na qual baseia os seus fatos.”

Enfim, todo o cuidado na hora de observar algo para não moldá-lo de acordo com nossos desejos. Para uns, os deuses seriam astronautas, mas para outros, bem poderiam ser motociclistas...


*Como até já disse o prof. Ernesto Bono, todo cuidado para não fazer da ciência uma nova religião.

**Acho que não há nenhum caminho “seguro” ou único para a compreensão do mundo. A ciência contemporânea, em toda a sua precariedade inerente por ser ferramenta humana, esse ser ou, melhor, esse animal física e cognitivamente limitado, me parece, no momento, o menos falível ou falsificável, justamente porque é inerente ao seu método uma boa dose de auto-crítica e sua essência de hipóteses sempre provisórias, até que surjam outras com mais esclarecimento e menos falhas.

***Óbvio que o que diz o alemão Ernst - sobre os deuses serem motociclistas - é uma paródia ao que quer ver Daniken (astronautas). Aliás, em entrevistas, Daniken já teria admitido embustaes (alguns poderia dizer "estratpegias") deliberados “para captar a atenção do leitor” – como se ele estivesse escrevendo ficção, e não um ensaio apresentando hipóteses factíveis. Para mim isso é lamentável, porque destrói a confiança na "possibilidade de verdade", "forçando a barra" para persuadir o leitor sobre a realidade do que ele (daniken) está levantando.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Quando a religião sufoca e até esfola o conhecimento

No sábado retrasado olhei um filme que me deixou muito impactado e que recomendo a todos. O filme se chama “Alexandria”, produção espanhola de 2009, multipremiada e muito didática, contando, de forma romanceada, a história real da filósofa Hipátia, que viveu em Alexandria, no Egito, entre os anos 355 e 415, época da dominação romana naquela região do norte da África, mas sob pressão cada vez maior dos cristãos, que, de minoria oprimida, se tornam, cada vez mais, na maioria opressora.

 Além dos aspectos do puro desejo de poder humano e manipulações de vários tipos, há na narração de “Alexandria” o caminho a que se chega com o obscurantismo, a fé cega, a superstição, ou seja, se chega a violência, a dor e castração da inteligência humana. Hipátia, uma pensadora independente, professora de ciências, como a astronomia, acaba sendo barbaramente apedrejada e arrastada pela cidade por monges cristãos, que a chamam de bruxa, herege, ateia etc. Aparece aí explicitamente a face da intolerância, do machismo extremo inerentes ao cristianismo e todas as seitas derivadas do patriarcalismo mais arcaico, autoritário, caso do judaísmo, de onde saiu Jesus.

Relacionei o filme a um e-mail que me foi repassado dias atrás. Contém uma “foto”, na verdade um desenho retratando Cristo conforme o estereótipo – um homem branco, magro, de cabelos compridos, com um rosto expressando dor, tendo na cabeça a terrível coroa de espinhos. Interessante que essa figura, que representa o amor incondicional, a bondade encarnada, a suprema compaixão, aquele que se dá pela salvação da humanidade... caso a gente não repasse o e-mail com tal figura, isto desencadeará uma grande desgraça... Referências como a de ter sido “divulgada até no [programa da Rede Globo] Fantástico", um presidente sem nome da Argentina (cujo filho morreu), uma pessoa chamada Alberto Martines (imaginei-o um mexicano ou costa-riquenho)... a expressão "o poder Ele tem", "milagres", ganhar na loteria, o prazo de "13 dias"... tudo isso me perturbou justamente pela superstição, o obscurantismo evidenciados; a crendice mais simplória e, aí é o ponto, ao que parece, compartilhada por pessoas que tenho o maior apreço e consideração, pela amizade e por suas capacidades intelectuais; pessoas que atuam em uma academia de ensino superior (assim como Hipátia, do filme “Alexandria”). Ao ler o texto, pensei que, só numa primeira olhada, já se vê a precariedade e, “ouso dizer”, o embuste erguido em cima de algo sem sustentação, sem base, que lida só com o nosso lado fantasista, paranoico, crédulo e medroso – o irracionalismo que contradiz todas as conquistas da humanidade em seu tortuoso caminho, mas que, a final, tem nos levado a um entendimento cada vez mais profundo do cosmos e da vida, vide as tantas e complexas conquistas científicas e tecnológicas de nosso uso cotidiano, afora coisas impensáveis como uma sonda movida a energia atômica pesquisando Marte.

Pois o filme “Alexandria”, dirigido pelo mesmo cara que fez o oscarizado “Mar Adentro” (Alejandro Amenábar), é um libelo pela liberdade de pensamento e contra concepções que travem a expansão do saber, travando a análise crítica e, especialmente, a auto-crítica. É um libelo pelo “amor à sabedoria” e contra a cegueiras do dogmatismo, da irreflexão. Hipátia é esfolada porque se recusou a aderir a uma crença que coíbe questionamentos e se impõe, se não pelo convencimento, pela força mais brutal.

Bem, era isso. Fica a dica de filme. Segue um link com a sinopse e treiler:

http://www.imagemfilmes.com.br/imagemfilmes/principal/filme.aspx?filme=103236

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Hoje chegamos a Marte mais uma vez

Hoje de madrugada, 06 de agosto de 2012, a sonda-robô Curiosity (imagem de divulgação) pousou em Marte, numa manobra complexa. Vai desenvolver vasto estudo durante um ano marciano (equivalente a 687 dias na Terra). A Curiosity faz parte de uma série de sondas que há décadas estão investigando Marte. Trata-se de algo “bem mais em conta” do que se usar astronautas, como se fez na Lua até 1972. Mais barato, menos arriscado, menos traumático em caso de falhas fatais.

A Curiosty é o auge da exploração de satélite naturais e planetas, tal sua envergadura e possibilidades. São os humanos que chegam com seus instrumentos em confins inimagináveis para nossos antepassados de poucas gerações, atestando a evolução tecnológica possibilitada pela ciência humana.

Uma pena que não muitos se dão conta de quanto trabalho e saber se condensam num aparato como a Curiosity. Não raro, nossa “curiosidade” não vai além de superfícies ou se embrenha em caminhos onde o obscuro dá uma falsa noção de profundidade.

Segue um link com a notícia:

http://www.jb.com.br/ciencia-e-tecnologia/noticias/2012/08/06/sonda-de-us-25-bilhoes-pousa-com-seguranca-em-marte/

Não, o homem não foi a Lua... mas lobisomem existe, sim!


Pessoal,

Segue o meu comentário, aproveitando os 40 anos da última “descida” de astronautas americanos na superfície lunar, que vai se completar no mês de dezembro (se é que o mundo não vai pro brejo antes – hehe!!). “Descida” esta que tem despertado muitas polêmicas, com uma corrente acreditado que houve uma grande falsificação da tal presença humana no satélite natural da Terra.

Aceito contrapontos!


Há quase 40 anos atrás, em dezembro de 1972, encerravam-se as missões do projeto Apollo. “No total, foram feitas onze missões tripuladas no projeto Apollo, e seis delas pousaram na Lua, no total de doze astronautas que caminharam no solo lunar e lá fizeram experimentos científicos", registra a página em português da Wikipédia (indicação abaixo).

Além das missões específicas Apollo (começando pela fase de testes da Apollo 1, 4, 5 e 6), houve 20 (vinte) anteriores, que também testaram várias situações e equipamentos, aperfeiçoando as condições para as expedições lunares tripuladas e a descida na Lua, além de duas posteriores, antes da desativação completa do projeto Appolo – projeto este levado pela Nasa com extremo sucesso e grandes avanços tecnológicos e no entendimento astronômico, da formação planetária etc. (Outro sucedâneo é o próprio despertar do movimento ecológico e da internalização de uma visão global dos problemas humanos, ao se ter registros da “bolinha azul” lá do alto, fotografia que correu o mundo, tirada na última missão na Lua, a Apollo 17; não havia mais dúvida sobre a situação que vivíamos: um belíssimo planeta em meio ao inóspito e infinito espaço.)

Não há mistério maior na desativação do programa, já que a “Corrida Espacial” estava praticamente vencida pelos EUA e as prioridade político-econômicas mudavam no desenrolar dos anos de 1970. No artigo sobre a quase trágica missão Apollo 13 publicado no livro “1001 Dias que Abalaram o Mundo” (editora Sextante, 2009), há um parágrafo que sintetiza a questão:

“As missões à Lua foram determinadas por razões fundamentalmente políticas, num momento em que os Estados Unidos pareciam estar sendo vergonhosamente ultrapassados pela União Soviética na exploração do espaço. No entanto, a melhoria das relações americano-soviéticas – para não falar dos custos crescentes – levou os Estados Unidos a reavaliarem seu programa espacial. As missões lunares foram encerradas depois do retorno bem-sucedido da Apollo 17, em 1972.”

As “teorias da conspiração” muitas vezes parecem se focar na missão Apollo 11 (quando se trata, como dissemos, de um programa muito mais amplo); os adeptos acham improvável um nível tecnológico para a chegada de humanos na superfície lunar. Não consideram a enormidade dos recursos investidos e esforços científico-tecnológicos e a diversidade das evidências da “alusinagem” de homens na Lua a partir de 1969 – num total de 12 pessoas pisando o solo lunar em 6 missões tripuladas, como já mencionando. A “manipulação da Nasa” deveria ser altamente complexa e envolver milhares (ou milhões) de registros – incluindo filmes, fotos, objetos, documentos etc. Me parece até insano tala nível e volume de manipulações. Quantas pessoas teriam que guardar segredo? Algum astronauta ou técnicos, entre centenas envolvidos no longo projeto Apollo, “desconfirmou” o pouso na Lua? A agência espacial da União Soviética (Roskosmos) denunciou alguma falcatrua? Vão me dizer que o complô envolve EUA e URSS?

Particularmete, fico pensando qual é a avaliação dos “conspirativos” quando estão a bordo de um Boing 747 ou Airbus A380, que pode carregar 845 passageiros, numa altitude 15 mil e 200 metros, atingido 970km/h, atravessando os céus de Londres a Buenos Aires em poucas horas (como é o caso de uma das rotas aéreas que observo todos os dias lá da minha casa)? Acham isso improvável também? Trata-se de alguma enganação? Uma indução por meio de alguma droga que aplicam nos passageiros, fazendo-os sonhar que viajaram dessa maneira? Não percebem que voar num avião assim é apenas uma amostra das possibilidades da tecnologia humana já desenvolvidas? Não assistem TV via satélite? Ou satélite é outra baboseira para enganar os trouxas? Ora, a tecnologia usada nas missões Appolo eram tão de ponta, sem necessidade de viabilizá-las comercialmente, com fins militares em primeiro lugar, que ainda hoje não foram superadas.

Francamente... Acham-se sombras e outros elementos supostamente contraditórios em imagens de astronautas na superfície lunar, e tais imagens duvidosas – quem sabe, estas, sim, manipuladas – acabam convencendo muitos de que, “definitivamente o homem não foi a Lua” – mas, ao mesmo tempo, muitos destes mesmos “o-homem-não-pisou-na-lua” têm plena certeza da existência de lobisomens e mulas-sem-cabeça...

Não que não haja uma gama de coisas a que somos induzidos a acreditar; não que não existam enganações. Mas acho que é necessário se pesquisar muito e buscar sempre informações fidedignas, não caindo no sensacionalismo barato, fruto de má-fé ou da mente doentia.


* Na Wikipédia em português tem um bom apanhado sobre a projeto Apollo, que recomendo como dados confiáveis, com boas referências comprováveis e vários hipertextos e links complementares:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Projecto_Apollo


** Sobre a Teoria da Conspiração, há um bom e resumido apanhado no portal Terra:

http://www.terra.com.br/noticias/infograficos/homem-na-lua/teoria-02.htm


Abraços!

Iuri


# Como eu disse, não dá para ser ingênuo e achar que não há um jogo medonho por detrás de muitas coisas. Há hipótese bem interessante. Particularmente, nunca tive muita paciência para ver os “erros” nas fotos e vídeos. Suponho que vários “erros” podem ser plantados por pessoa que, não sei bem porquê, tem um gosto especial em burlar e “inventar histórias”. E o que era uma “brincadeira” se torna uma polêmica com ares de seriedade.

## A essência prece ser esta: alguém faz uma brincadeira, como a de "inventar" um "registro antiguíssimo de discos voadores em uma caverna", que se torna um “mistério” e que alguns (ou muitos) passam a dar alto crédito, mesmo diante da fragilidades das evidências. E disso pode surgir até uma nova igreja!

### Esses dias fiquei perturbado pelo envio de um daqueles e-mails "TU DEVES REPASSAR AGORAAAARGHH!!!”, sob pena de te acontecer alguma desgraça. Minha perturbação ficou por conta de quem estava me enviado aquilo: uma pessoa com doutorado e professor universitário... Vai o comentário que fiz na ocasião:

Aí está o e-mail [não está reproduzido aqui neste post]...

Começa por dizer que se trata de uma foto, quando é um desenho – obviamente de Jesus, conforme o estereótipo. Interessante que essa figura, que representa o amor incondicional, a bondade encarnada, a suprema compaixão... caso tu não a repasses, desencadeará uma grande desgraça na vida do preguiçoso, desatento ou cético internauta...

Referências como a de ter aparecido "até no Fantástico", um presidente da Argentina, uma pessoa chamada Alberto Martines (imaginei-o um mexicano ou costa-riquenho)... a referência a "o poder Ele tem", "milagres", ganhar na loteria, o prazo de "13 dias"... tudo isso me espanta pela superstição, o obscurantismo envolvidos; a crendice mais simplória e, aí é o ponto, ao que parece, compartilhada por pessoas com doutorado, profissionais bem remunerados da área da educação superior... Não, não é exatamente (ou somente) uma crítica: é uma vontade de entender o que está acontecendo... Me parece, também, um contradição - algo que se choca ao propósito do saber desenvolvido nas academias, no ensino e pesquisa universitárias, que, acho eu, justamente se estabelece para não sermos submetidos pela irracionalidade (mesmo que se possa dizer que o humano seja por natureza 98% irracional, e coisas como a religião não sejam necessariamente ruins, um mal, mas estratégias de conforto e compreensão do mundo aparentemente caótico em que vivemos).

Tem um cara que se chama Michael Shermer, articulista na Scientific American (já vi uns pedaços de palestras dele no Youtube) e editor de uma outra revista famosa, a Skeptic Inquirerer. Bem, ele diz que "sua intenção não é subestimar as pessoas que acreditam em 'coisas estranhas', mas sim entender por que elas acreditam" naquilo, sem cair num "dogmatismo científico". Nessa questão da "Foto de Jesus" eu estou por aí.

Outro ponto que também me surpreende, aí de um modo mais geral, é a nossa “alienação tecnológica” – e que levam pessoas a repassar mensagens que julgo estapafúrdias. Usamos inúmeros e sofisticados artefatos tecnológicos – eletrônicos, computacionais e mecânicos especialmente – sem que tenhamos uma noção ao menos básica da complexidade dos conhecimentos e habilidades humanas consubstanciadas num ato, por exemplo, de enviarmos uma mensagem via internet, anexando uma imagem ou vídeo; ou no ato de atendermos nossa mãe no celular, enquanto estamos nos deslocamos no elevador do aeroporto, onde embarcaremos numa viagem sem escala em um avião Airbus A380 de Porto Alegre até São Paulo... subjazem quase completamente esquecidos aí uma gama de fórmulas físico-matemáticas, química fina aplicada e de tantos outros conhecimentos gerados pela metodologia científica; parece que nos mantemos como crianças crédulas, despachando mensagens de um conteúdo confuso e do maior obscurantismo, da maior desconsideração aos conhecimento das diversas ciências – incluindo as humanísticas (caso da sociologia, ciência política, antropologia etc.)...


Uma ligeira leitura do texto deveria ser suficiente para alertar-nos sobre sua precariedade. E onde se esperava a sensatez, por se tratar de pessoas que trabalham em uma universidade, reduto da reflexão metódica e exaustiva, o que se vê, porém, é a mais rasa credulidade...


Há em nossas vidas uma crucial contradição, resultado do uso alienado, do “analfabetismo científico”, que nos mantém apenas na superfície, nas “interfaces” dos aparatos tecnológicos  – o teclado do celular, da tela do computador, do controle remoto da TV, da direção do automóvel, da poltrona do avião, do creme vegetal sobre a fatia do pão de sanduíche etc. parece que não temos estímulo para entender “o que está pro trás”, qual a “magia” que está ali... Por certo isso exige um certo esforço intelectual (talvez aí esteja um dos nós da questão...), mas tal empenho revelaria que não há magia propriamente, mas um preciso funcionamento derivado de um enorme esforço acumulado de saberes.

Desenhos de 30 mil anos



Pessoal,

Achei muito bacana um artigo – que segue mais abaixo – falando de um documentário, que deve ser igualmente muito bonito (vou tentar conseguir o DVD – segue no final um link para a sinopse e trailer do filme).

“A Caverna dos Sonhos Perdidos” é dirigido e narrado pelo famoso cineasta alemão Werner Herzog. Fala sobre os desenhos feitos há 30 mil anos, achados não faz muito, em 1994, no sul da França, ocultos ao fundo de uma enorme caverna, chamada hoje de caverna de Chouvet (pouco conhecida em relação a outra caverna famosa por suas pinturas rupestres, a de Lascaux, também na França).

Já destaco para vocês o seguinte trecho do artigo:

“[...] perdemos nos dias de hoje esta integração com a totalidade do cosmos, com a natureza. Somos seres dissociados da totalidade, vivendo uma vida partida que se contrapõe ao mundo natural. Na escalada da nossa história, na busca do conhecimento, do esclarecimento, fomos nos afastando do mundo mágico das incursões fantásticas de nossos ancestrais, tornando-nos escravos dos ditames da ciência. Para nós, torna-se ridículo qualquer movimento nesta área, pois as tachamos próprias de sociedades primitivas e sem cultura. Observando-se tais murais, a elegância contida nos cavalos e demais animais da Caverna de Chouvet, percebemos que existe um artista em cada um de nós, em cada ser humano. Mas, como exercer essa arte num mundo tomado pela mercadoria? Como é possível integrar-se à paisagem, se todas as nossas ações foram tomadas pela economia, que controla o nosso tempo e a nossa alma?”

Uma ressalva: a expressão acima “escravo dos ditames da ciência” poderia ser substituída por outros ditames, como o “ditames de uma igreja” ou “de uma ideologia política” etc. Acho que todos os “ditames”, todo dogmatismo, toda a explicação fechada é limitadora dos potenciais humanos.

Para mim, a ciência tem um enorme potencial transcendente, que busca sempre se aprofundar, “ir além”, qualificar e expandir a compreensão do mundo, das suas coisas, do próprio ser humano. O “achamento” da caverna, aliás, é fruto do impulso científico, pois foi descoberta por três cientistas: Jean-Marie Chouvet (de onde vem o nome da caverna), acompanhado de Cristian Hillaire e Elliete Brunel, conforme está no artigo. Para quem já tem toda a explicação do universo e sentido da vida dado por uma religião, filosofia ou ideologia, por que continuar procurando?? Até porque a procura efetiva pode levar a conhecimentos destrutivos de velhas crenças ou/e de compreensões fragilmente embasadas...

Abraços!

Iuri


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A Caverna dos Sonhos Perdidos

Por Arlindenor Pedro*

Na instigante entrevista que deu ao jornalista Bill Moyers (divulgada em vídeo no Brasil em 1988), Joseph Campbell relata que ficou muito emocionado quando ele e sua mulher visitaram a caverna de Lascaux , no sudoeste francês e interagiram com as imagens dos artistas do paleolítico que deixaram imortalizadas suas obras de arte nas profundezas das grutas, nas suas paredes.

Antes tinham visitado as catedrais medievais do interior da Europa, e ele então aproveitou para fazer um paralelo entre os objetivos que motivaram os artistas que criaram os belos vitrais dessas igrejas e as imagens que encontrou dos pintores rupestres. O ambiente criado por essas figuras não cumpririam as mesmas funções? Não seriam locais de adoração aos deuses, onde os reflexos do mundo real seriam afastados e as mentes poderiam ser tocadas pelas imagens, levando o observador para o mundo do oculto, do irreal, do fantástico - o mundo dos espíritos?

Levados pelos xamãs, assim descreveu Campbell, os jovens que se iniciariam na caça desciam as profundezas da caverna e ali, em plena escuridão, que só desparecia com as luzes dos archotes, desenvolviam cerimônias de contato com os espíritos presentes nos animais que iriam abater mais tarde. As figuras desses animais, dispostas ao longo das paredes, aproveitando as protuberâncias das pedras, numa postura de movimento, iluminadas pelo fogo, tomam então vida, e como num filme, saltam aos olhos. Ao som de música ritual e fumaças de ervas inebriantes, chega-se então ao êxtase e ao desprendimento do mundo lá de fora - o rito de passagem muito presente nas sociedades primitivas. Campbell deduz, então, que esta é a razão de que essas obras, feitas pelos homens do paleolítico, se encontram, invariavelmente no fundo das cavernas, aonde não existe luz e o som do exterior. Isto é, sem a interferência do mundo real.

Tais cerimonias tornam-se incompreensíveis para nós, cidadãos das polis contemporâneas. Mas, são plenamente aceitáveis e necessárias num mundo onde se articulam os conceitos de fluidez (onde é possível uma parede falar, um animal se manifestar, um homem se transformar em uma árvore, etc.) e de permeabilidade (onde não existem barreiras entre o mundo dos espíritos e o nosso mundo, o chamado mundo real). Dessa forma, no seu êxtase, o xamã se eleva ao mundo dos espíritos e leva com ele os participantes do cerimonial.

O cineasta alemão Werner Herzog também viveu essa experiência do que nos fala Campbell. Mas, desta vez em outra caverna, a caverna de Chouvet, próximo ao rio Ardèche, no sul da França.

Esta caverna foi descoberta pelo cientista Jean-Marie Chouvet (de onde vem o nome da caverna) acompanhado dos cientistas Cristian Hillaire e Elliete Brunel, em 1994, três dias antes do Natal.

Eles estavam à procura de uma corrente de ar indicativa da presença de cavernas e toparam com uma fenda em um grande rochedo que os levou a uma das maiores descobertas cientificas de todos os tempos: uma grandiosa caverna, com cerca de 400 metros de extensão, aprofundando- se terra adentro. No seu fundo depara-se com majestosos painéis, com inúmeras pinturas, praticamente intactas, com cerca de 30 mil anos de existência.

Devido ao fato de que há algumas dezenas de milhares de anos ter ocorrido um deslizamento que tampou toda a entrada desta caverna, ela manteve-se intocada, transformando-se numa verdadeira cápsula do tempo, com a história congelada em um momento.

Herzog, ciente desta descoberta e do seu valor para a humanidade, desenvolveu um processo de negociação com o Ministério da Cultura da França conseguindo, então, o feito de ser o único cineasta que conseguiu mostrar imagens da Caverna de Chouvet, produzindo um documentário que tem um inestimável papel para o debate da formação da cultura humana e do papel dos mitos na nossa existência. Ele deu o nome ao documentário de “A Caverna dos Sonhos Perdidos”, que exemplifica bem a sua visão do que viu e queria mostrar.

O governo francês, já experiente com os problemas que surgiram em Lascaux, que teve que ser fechada devido ao mofo que surgiu nas paredes, motivado pela respiração dos turistas, montou uma política de quase total restrição de acesso ao sítio. Sua entrada está lacrada com uma porta, que lembra a porta de um banco, e a permanência no seu interior é monitorada, restringindo-se a um pequeno tempo. Desta forma, o tempo de Herzog e sua pequena equipe foi restringido ao máximo, e ele só conseguiu a licença de filmagem no interior da caverna pelo prestígio que desfruta junto aos franceses, e ao tornar o filme disponível ao público francês como elemento cultural, sem fins comerciais.

Temos então um filme muito bem acabado, escrito, dirigido e narrado por ele, com imagens em 3D, o que dá a esta obra um caráter espetacular, que merece ser visto. Destacam-se nele a fotografia, a música inquietante do violoncelo do compositor Ernest Reijseger, além do texto recitado pelo diretor, que nos leva a profundas reflexões. Uma obra que foge ao clichê dos documentários científicos, possuindo a chancela característica de um dos cineastas mais criativos do cinema contemporâneo, que sempre encarou o seu oficio de forma intuitiva e como parte da sua própria existência, nos legando uma obra extensa, onde a realidade funde-se com a ficção.

Participante do movimento do Cinema Novo Alemão e influenciado pela Nouvelle Vague francesa e do Cinema Novo do Brasil, amigo e admirador de cineastas e artistas brasileiros, como Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Milton Nascimento, e outros, Werner Herzog produziu grandes clássicos do cinema pós-guerra, filmando várias obras na América do Sul. O público brasileiro certamente conhece os filmes de 1972 “Aquire – A Cólera dos Deuses ( que retrata a natureza humana submetida a um processo limite de tensão que leva ao caos e a um total descolamento com a realidade ) e o de 1982, Fitzcarraldo (onde é vivida a determinação de um alemão que move um barco por sobre uma montanha na busca de concretizar a utopia de ver sua opera encenada em plena Amazônia). Ambos os filmes têm um elenco grandioso, com elementos estéticos inesquecíveis, onde, sem dúvidas, se destaca o polêmico ator Klaus Kinski, amigo-inimigo de Herzog. Filmes com a marca registrada do diretor, inclusive com o seu humor ácido e desconcertante nas falas de alguns personagens.

Em determinado momento do documentário, com a câmera acompanhando as sobras e luzes que emanam das figuras postas nos murais, um dos cientistas pede aos visitantes um silêncio total, para que o som da caverna se destaque. Nessa hora, chegamos a escutar o bater do coração dos visitantes. Herzog propõe então a seguinte questão: ¨será o som dos nossos corações o que escutamos, ou será o dos artistas que pintaram nessa caverna? Será que seremos capazes de compreender a visão dos artistas através desse abismo de tempo?¨.

A câmera sai então da caverna e ao som da musica incidental, nas imagens em 3D, tomamos contato com o entorno, com a exuberância do vale do rio Ardèche, e para um pórtico de pedra chamado Ponto D’Arc . Herzog diz: “há certa áurea de melodrama nesta paisagem (o rio, o marco, as árvores), retirada de uma ópera de Wagner ou de uma pintura do romantismo alemão.

Seria essa a nossa ligação com eles? Esta representação da paisagem como um evento operístico não pertence apenas ao romantismo: os homens da idade da pedra podiam ter tido a mesma percepção ao retratar essa paisagem.”

Esta é também a minha opinião.

Fica claro, é plenamente perceptível, que perdemos nos dias de hoje esta integração com a totalidade do cosmos, com a natureza. Somos seres dissociados da totalidade, vivendo uma vida partida que se contrapõe ao mundo natural. Na escalada da nossa história, na busca do conhecimento, do esclarecimento, fomos nos afastando do mundo mágico das incursões fantásticas de nossos ancestrais, tornando-nos escravos dos ditames da ciência. Para nós, torna-se ridículo qualquer movimento nesta área, pois as tachamos próprias de sociedades primitivas e sem cultura.

Observando-se tais tais murais, a elegância contida nos cavalos e demais animais da Caverna de Chouvet, percebemos que existe um artista em cada um de nós, em cada ser humano.

Mas, como exercer essa arte num mundo tomado pela mercadoria? Como é possível integrar-se à passagem [obs.: por provável falha na digitação, acredito que a palavra deveria ser “paisagem”, e não “passagem”], se todas as nossas ações foram tomadas pela economia, que controla o nosso tempo e a nossa alma?

Associamos a arte ao dinheiro e ao valor no mercado. Isto se faz com a pintura, a música, o cinema, enfim, com a tudo o que possa pertencer à “indústria cultural”.

Herzog associa a arte das cavernas a movimentos grandiosos, tais como o que nos deu Schiller e Goethe. E ele tem razão, pois a manifestação artística está associada ao mundo em que ela foi gerada. Um movimento, como o romantismo alemão, é um momento único e se deu quando almas sensíveis fizeram aflorar a sua arte a despeito das amarras sociais, avançando para um novo tempo. A percepção do ambiente estava tanto presente para os artistas alemães como para os artistas do paleolítico.

Acredito que na atualidade, com a força que tem a mercadoria e o dinheiro, que se divide o homem da natureza e o impede de ter com ela uma relação direta, isto está cada dia mais difícil de ocorrer. Dai então, a atual crise do processo criativo onde se vaticina a morte da arte.

Platão nos propõe que saiamos da caverna para conhecer a realidade, onde está a luz do sol. Mas, através das palavras de Sócrates, nos diz que somos como um rebanho de carneiros que precisam de um pastor para sobreviver. E nos diz, então, que o pastor (aquele que sabe) é quem deve conduzir as nossas vidas. Sairíamos da caverna, porém veríamos os dias com os olhos dos outros ( como fazemos no dia-a-dia com os especialistas nos meios de comunicação, que nos explicam o que ocorreu e o que ocorrerá ), acentuando a nossa postura de contemplação no mundo.

Ao contrário, acredito que devamos voltar à caverna, e pelas mãos do xamã (nesse caso o artista) devamos experimentar o êxtase diretamente, vivendo a sensação da inter-relação com a natureza e seus elementos míticos – como os jovens caçadores, dos quais nos falou Joseph Campbell. A forma de escaparmos da intermediação do mercado e do dinheiro ( que se coloca entre o homem e a natureza) é chegarmos a uma relação direta com o cosmos e experimentarmos nossas emoções num processo direto de vida-vivida.

Afinal, cada sensação na relação com o mundo é única, pois certamente cada jovem caçador reagia à sua maneira aos estímulos dos espíritos da caverna.

Serra da Mantiqueira, junho de 2012.

*Arlindenor Pedro – é professor de história, funcionário público e especialista em Projetos Educacionais. Anistiado por sua oposição ao Regime Militar, atualmente dedica-se à produção de flores tropicais na Região das Agulhas Negras.

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Link com sinopse e o trailer: