quinta-feira, 29 de novembro de 2012

"Em um dia, fui a outro planeta e voltei", disse J. Cameron




Dias atrás mencionei o feito do projeto Stratos, com um salto de paraquedas de altitude estratosférica (mais de 39 mil metros), quebrando um recorde e, mais uma vez, desafiando limites físicos dos humanos através de muita preparação e tecnologia. (Aproveito para dar a dica deste e outros vídeos: “O ponto de vista de Felix durante o Salto - Red Bull Stratos”, em http://www.redbull.com.br/cs/Satellite/pt_BR/Video/O-ponto-de-vista-de-Felix-durante-o-Salto-Red-021243271142460)

Pois agora segue abaixo o link para aa reportagem onde o recorde se dá de maneira "inversa", quer dizer, um humano chega ao mais profundo abismo do planeta (quase 11 mil metros), no oceano, e não nos céus (não sei porquê se usa “céu” no plural...).

Como disse James Cameron, o piloto da cápsula submarina, “fui a outro planeta". Claro que o também cineasta (Avatar e Titanic) está se referindo ao tipo de ambiente e vida que existem em mais este lugar extremo da Terra – e não em Marte ou alguma lua ou planeta em Alpha Centauri.

Temos companhias insuspeitadas aqui mesmo nesta bola flutuante nos confins do universo, vivendo sem luz alguma, sob pressões absurdas em fossas oceânicas. E queremos saber se há vida para além deste pontinho cósmico onde habitamos. OK. Mas, muitos de nós, mal sabemos o que de fato existe aqui na nossa “casa”. Não só não sabemos, como não valorizamos. Corremos atrás de fadas, anjos, espíritos, mulas-sem-cabeça e ETs. Queremos nos maravilhar, ora! Queremos que haja "algo além". Mas o fato é que estamos muito aquém do potencial que realmente temos aqui, concretamente: descobrir e compreender os seres e as coisas que nos rodeiam, usando ferramentas como a biologia, a física, química, matemática, engenharias; a psicologia evolutiva, a sociobiologia, a filosofia acadêmica, a antropologia cultural etc.

Ou seja, a “magia da existência” pode se revelar por fórmulas acessíveis, sem depender de clarividência e outros esoterismos;  basta uma dedicação, um esforço sério a estudos e a habilidades reais e atingíveis por nossos cérebros, por nossos cinco sentidos – ferramenta que a evolução das espécies nos dotou após milhões de anos.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Monte Erebus - uma expedição pelas páginas da revista...

A National Geographic Brasil publicou em sua edição do último mês de agosto deste ano uma reportagem: “Monte Erebus: um mundo invertido na Antártica”.

E foi um grande prazer lê-la. É uma forma de "viajar" junto na expedição a esse lugar extremo da Terra – um vulcão na Antártica. Estiveram lá cientistas e a jornalista, Olivia Judson, que escreveu a matéria. Transparece que se trata de gente jovial, sem clima algum de "seriedade absoluta" – a não ser nos cuidados com a saúde e a pesquisa em si. A emoção vem de “conhecer” lugares e coisas que se ligam ao miraculoso universo onde vivemos. Embora um dos membro seja um exobiólogo, o pessoal que estava lá não buscava indícios de ETs. O que buscavam, em última instância, são indicações “de onde vem” e “como acontece” a vida no planeta. Ou seja, os aspectos químicos, físicos e biológicos  que nos fizeram e nos fazem seres terráqueos.

Acho que o grande barato está aí, neste buscar entender o labirinto onde estamos todos metidos. Uma pequena pista, uma pecinha do infinito quebra-cabeça às vezes se insinua e a gente avança uma casa no jogo.

Para quem gosta deste assunto envolvendo “extremófilas: formas de vida que prosperam nos mais radicais ambientes que este planeta pode oferecer – ácido fervente, por exemplo”, segue uns trechos selecionados.

Para quem quer ver toda reportagem e IMAGENS MAGNÍFICAS, segue o link para a reportagem completa:


http://viajeaqui.abril.com.br/materias/monte-erebus-antartica-vulcao


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NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

EDIÇÃO 149 - AGOSTO DE 2012 - 27/07/2012


Monte Erebus: um mundo invertido na Antártica

Enquanto os cientistas tremem de frio, micróbios proliferam no solo de um vulcão

por Olivia Judson

(trechos da reportagem)

Embora os solos [em torno da cratera no Monte Erebus] sejam quentes – suas temperaturas podem chegar a 65°C –, o ar logo acima não é. Além disso, a menos de 1 metro de distância do ponto quente, a temperatura do solo cai drasticamente. A acidez também muda. No ponto quente, o solo é neutro; a pouca distância, ácido. E estéril: frio, seco, ácido e hostil à vida.

A presença dessas ilhas [de vida no entorno do Erebus] inspira questões intrigantes. Que micróbios vivem ali, e de onde vieram? Micróbios podem viajar no vento por centenas de quilômetros. Será que provêm dos solos quentes de vulcões mais ao norte? Ou será que os micróbios do Erebus são únicos, e – o que seria fascinante – terão vindo das profundezas da Terra? A biosfera da subsuperfície, onde esses organismos vivem em rochas muito abaixo da superfície terrestre, é um dos ecossistemas menos conhecidos e estudados do planeta. Mas pode ser um dos maiores – algumas estimativas indicam que um terço de todas as bactérias da Terra talvez viva lá – e dos mais estranhos. Esses micróbios não ganham a vida extraindo energia solar. Eles a obtêm de outras fontes, como do ferro ou do hidrogênio. Esse ecossistema profundo e escuro também poderia ser um dos mais primitivos do planeta e abrigar formas de vida que há muito tempo vêm seguindo um caminho evolucionário separado.

(...)

Herbold [um dos pesquisadores da expedição ao Monte Erebus] e eu acabamos falando sobre as estrambóticas arqueias. “São estranhas demais”, diz Herbold. “Não consigo entendê-las.”

As arqueias compõem um dos três ramos principais, ou domínios, da árvore filogenética. (Os outros dois são as bactérias e os eucariotos, organismos com núcleo nas células, como as plantas, os fungos e os animais.) E, embora as arqueias também vivam em lugares corriqueiros, como o mar aberto, têm fama porque são extremófilas: formas de vida que prosperam nos mais radicais ambientes que este planeta pode oferecer – ácido fervente, por exemplo. Assim, não é de surpreender que elas estivessem à espreita naqueles solos quentes do monte Erebus.

Essas arqueias antárticas, porém, são um tanto misteriosas. Encontradas em solos que o grupo coletou em viagens anteriores ao Erebus, até agora elas são conhecidas apenas por sequências de DNA, as quais têm pouca semelhança com as das arqueias descobertas em outras partes. Isso sugere, talvez, que elas de fato vêm seguindo o próprio curso evolucionário há muito, muito tempo.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Na mítica Roswell, uma experiência dos limites humanos...


Mesmo que o assunto da semana seja Sandy, A Tempestade, segue um comentário sobre um outro acontecimento nos EUA:

Vocês devem ter acompanhado isso. Eu li rapidamente o que saiu na imprensa no dia 15 de outubro passado, após o salto do rapaz. Pois achei fantástico– quase uma missão espacial!

O cara atingiu 38,6 mil metros e quebrou a velocidade do som, provando possibilidades humanas, suportando condições extremas de velocidade e altitude.

Só há pouco vi o vídeo e fiquei tenso e emocionado com mais esta “loucura”, buscando superar limites – com, claro, amplos cuidados e testes, como aconteceu nas missões Apollo, chegando-se à superfície lunar a partir de 1969 – embora alguns acreditam que isso não ocorreu, mesmo com todas as evidência, considerando que há, entre esses céticos em relação a alunissagem humana, os que, ao mesmo tempo, acreditam piamente em lobisomens e na concepção imaculada.

Aliás, o paraquedista estratosférico, Felix Baumgharter, bateu uma façanha, o recorde de altitude, estabelecido - assim com a chegada de humanos na Lua pelas missões Apollo - nos anos de 1960 (na verdade, exatamente em 1960), justamente por um dos comandantes da atual operação de paraquedismo no Novo México. O homem se chama Joe Kittinger, aposentado da força aérea Americana. Aí, mais uma evidência de que repetir ou superar feitos tecnológicos dependem de vários fatores, como foi e é o caso da chegada a superfície lunar.

Obvio que o merchandising é grosso (a missão se chamou "Red Bull Stratos"). Mas como viabilizar uma coisa dessas? Aliás, nas missões espaciais, muito da viabilidade financeira vinha também de “verbas de propaganda” das “potências” tecnológicas, EUA e União Soviética, buscando hegemonia político-ideológica mundial.

Ainda na borda da cápsula, mas já na “porta”, antes do “pulo”, olhando daquela altura absurda, o paraquedista disse:

"Às vezes é preciso estar bem acima para perceber o quão pequeno você é."

Uma constatação bem humorada e uma sabedoria que pode ser dita com uma convicção total somente pelos que visitam abismos...

Para quem por acaso ainda não viu, segue o links para a reportagem onde está o vídeo que mencionei. E, a seguir, um utro link de um vídeo editado, sintetizando todo o processo do salto.

http://ultimosegundo.ig.com.br/ciencia/2012-10-14/felix-baumgartner-faz-hoje-salto-da-estratosfera.html

http://tvig.ig.com.br/esporte/outros-esportes/novo-video-mostra-melhores-momentos-de-salto-da-estratosfera-8a49802639368a22013a69d9724430ea.html

***O nosso saudoso Carl Sagan já dizia que aquela foto (acima) tirada em uma das missões Apollo (a numerada de 8), onde aparece a Terra por inteira, em toda a sua beleza e solidão azul e branca, foi quando se inaugurou a era da “Cidadania Cósmica”; foi quando ninguém mais poderia ter dúvidas sobre o fato de vivermos todos numa mesma “Nave Mãe” em meio a um sem-fim e miraculoso universo; todas as fronteiras entre países e até entre espécies se anulava pela imeditada visualização da situação de estarmos TODOS embarcados em Gaya, em Pachamama...

****Aproveito par indicar a leitura de "História da conquista da Lua em imagens" (em três partes) publicado no blog

http://www.tecnoclasta.com/2009/07/24/historia-do-conquista-da-lua-em-imagens-parte-1/

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

“A presença humana no Sistema Solar nunca foi tão ampla”

Algo muito interessante li na coluna Ciência em Pauta da Scientific American Brasil de agosto deste ano (2012), com uma reportagem especial sobre sonda-jipe-robô Curiosity, naquela altura ainda não tendo chegado a superfície de Marte.

Os editores da revista anotam o seguinte na página 17:

Com a chegada [na órbita de Mercúrio em 2011 da sonda] Messenger, a Nasa e agências internacionais similares têm agora espaçonaves estacionadas em Mercúrio, Vênus, Marte e Saturno – sem mencionar a Terra e a Lua. Duas outras naves da Nasa estão a caminho de Júpiter e Plutão; outra deve deve atingir o planeta-anão, Ceres, em 2015. A presença humana no Sistema Solar nunca foi tão ampla.

E poderá ser ainda mais, com robôs espionando luas estranhas, que podem abrigar vida, ou mal compreendidos planetas externos.

É fantástica essa situação que vivemos. Estamos, enquanto humanidade, investigado muito de perto uma quantidade de áreas e objetos espaciais incríveis, produzindo uma quantidade de dados que possibilitam ampliar e qualificar nossos conhecimentos sobre o Universo.

Para os ufólogos e ufologistas, isso pode, absurdamente, ser algo desestimulante. Por quê? Porque embora tantos “olhos no espaço”, embora tantos canais de registro e divulgação de informações, ainda não tivemos UMA SEQUER PROVA de naves ou outro elemento indicando a presença de “alienígenas”. Enquanto ufólogos e ufologistas, continuamos nos “alimentando” de suposições e teorias conspiratórias (tipo “A Nasa esconde informações, porque o caos se instalaria” e outras pérolas que infantilmente divertem muita gente).

Das suposições eu gosto, enquanto hipóteses, enquanto possibilidades; teorias conspiratórias, cada vez mais me dão uma sensação de esvaziamento intelectual e escorregadela para um misticismo retrógrado, que pretende trocar a nossa tremenda angústia e ignorância – mesmo que consideramos todo o corpo de pesquisa e conhecimentos científicos disponíveis nesta segunda década do século XXI – por uma “esperança no além”, seja elas anunciadas por uma Virgem Maria os Asthar Sharan. Talvez isso esteja, como produto da evolução da espécie, registrado em nossa genética – a “vontade” ou “predisposição de acreditar”, para não nos “travar” pelo medo, pelos abismos da existência, auxiliando-nos na sobrevivência em um meio hostil desde os tempos da savana e das cavernas...

No planeta água, comer carne é abusar de um recurso cada vez mais escasso

Numa sessão da revista National Geographic Brasil de setembro (2012) é apresentado uma tabela com o consumo de água na produção de alimentos. Os dados se referem ao consumo do líquido por unidade de valor nutritivo (litro/kcal). E estarrecem: por exemplo, para produzir cereais (trigo, milho, centeio, arroz etc.) se gasta MENOS 10 VEZES água do que para produzir carne bovina. O índice é de 0,5 litro/kcal para 10,3 litro/kcal. Até na produção de carne de porco (2,2) e frango (3) se gasta menos água.  Legumes e outros vegetais não ultrapassam o índice de 1,3 litro/kcal.

Assim é que quem se preocupa realmente com a sustentabilidade do planeta, afora considerações de ordem esotéricas (“espirituais”) ou éticas (a sessação da vida e a dor impingida a seres tão biologicamente próximos ao animal humano) sobre a matança de animais, há um motivo ambientalista evidenciado na absurda “necessidade” da água para que o camarada tenha o seu churrasco dominical.

Também não se está considerando os “custos” ambientais do desmatamento para a expansão das pastagens (como acontece na região amazônica e do pantanal brasileiros) e na produção da carne bovina nos matadouros e frigoríficos. Provavelmente, aí os números seriam ainda mais díspares e preocupantes. Tudo indica que o consumo do “prosaico churrasquinho” ou do “bifinho da mamãe” implica num impacto ambiental medonho. E há, sim, formas alternativas de uma alimentação saudável sem necessidade de tamanha matança e prejuízo ecológico.

Queremos salvar a Terra? Nos importamos com o futuro de nossos semelhantes? Mesmo? Então que tal diminuir o consumo de carne desses nossos irmãos, mamíferos com tantas semelhanças conosco?

***Nos últimos anos, tenho dito que sigo uma orientação vegetariana, e não que eu seja vegetariano restrito.

A razão principal do meu vegetarianismo é que quero evitar ao máximo causar sofrimento desnecessários a outros animais, concebendo que há uma hierarquia, estando os mamíferos no ponto mais alto da consciência e sensibilidade a dores físicas e emocionais. Considero também que há aspectos mais sutis, como a existência do corpo astral (ou algo que se assemelhe), que podem nos trazer prejuízos quando ingerimos a carne.

Mas acho que o humano é biologicamente um animal omnívoro. Ou seja, podemos comer carne. Por nosso livre arbítrio (mesmo que cheio de limitações), podemos nos abster de comê-la em situações de boa oferta de fontes proteicas e outros elementos nutricionais vegetais. Mas sempre me vem à cabeça as populações que vivem em ambientes extremos, como os esquimós daquele livro “No País das Sombras Longas”, onde a carne é completamente indispensável à vida. Obvio que, aí, o sacrifício é feito numa situação de extremo respeito àquele ser (respeito, reverência, agradecimento), e tudo – músculo, ossos, vísceras, couro (e até o conteúdo do estômago e intestino) – é aproveitado para a sobrevivência, sem haver mortes além do estritamente necessário.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Eram os deuses motociclistas?

Na interessante introdução feita pelo repórter alemão Ernst von Khuon no livro “Vieram os  deuses de outras galáxia?” (com o subtítulo “Cientistas discutem as teses de Erich von Daniken”), publicado no Brasil em 1972 (originalmente saído na Alemanha em 1970), ou seja, logo após o lançamento das duas obras primeiras de Daniken, indicando a rápida e enorme repercussão que elas tiveram (deve-se também considerar o momento, quando a “corrida espacial” chega ao seu auge, com descida de astronautas americanos na Lua [“Um pequeno paço para um homem, mas um grande para a humanidade.”], causando uma comoção mundial, já iniciada com o cosmonauta russo Gagarim em 1961, orbitando a Terra pela primeira vez [“A Terra é azul!”]).

Khuon já nesta abertura do livro problematiza a associação de imagens milenares, feitas em pedra, caso de povos pré-colombianos na América Latina, a artefatos tecnológicos humanos contemporâneos (anos de 1960/70), caso de trajes e naves espaciais. Numa comparação um tanto jocosa, mas, por isso mesmo, bastante eficiente, ele diz que se é possível associar a imagem de um deus maia ou outra entidade de culturas mesoamericanas antiquíssimas a um astronauta da atualidade, melhor ainda, por maiores semelhanças, se poderia associá-lo a uma alegoria de um motoqueiro, com seu capacete, onde espia pelo visor, montado em sua possante Suzuqui ou Harley-Davison, cheia de “relógios”, luzes, velocímetro, odômetro e outros indicadores de desempenho da máquina, além de arabescos da conformação externa de um desses veículos velozes, de alta potência, com as reentrâncias próprias do motor, quadro, banco e, quem sabe, representação de pinturas do tipo "Easy Rider", com labaredas ou outros grafismos no tanque de gasolina e carenagens...

Nas palavras de Khuon:

“Acho eu que seria a coisa menos provável neste mundo que esses ‘astronautas’, que em eras primitivas venceram distâncias de anos-luz, se parecessem com os tripulantes dos voos espaciais da atualidade. O deus dos índios maias, no Templo das Inscrições, em Pelenque [México], bem podia ser visto como astronautas de nossos dias, mas, melhor ainda, como piloto de provas em uma motocicleta, com o pé no pedal e os instrumentos de controle em sua frente.”

E continua no mesmo parágrafo, complementando:

“É pouco provável que o astronauta de uma civilização mais adiantada do que a nossa usasse equipamentos parecidos com o usado por Neil Armstrong; a sua aparência deveria ter sido bastante diferente.”

Ressalta, ainda, o mais provável:

“Outrossim, a explicação dos arqueólogos de que o deus maia estaria realizando um culto continua igualmente crível, mesmo nessa formulação bastante vaga.”

A “vontade de acreditar” – sem uma boa dose de autoanálise e autocrítica – pode nos levar a grandes enganos, “vendo” em tudo indicações “óbvias” por aquilo que estamos “apaixonados”. Assim é que possíveis associações, mas não passando de remotas hipóteses, ganham status de “fato inconteste” na cabeça da pessoa, levando-a a um mergulho cada vez mais profundo naquilo que jamais passou de tese ou divagação, afogando o indivíduo numa intricada ilusão, que, às vezes, se torna o seu “sentido da vida”, tornando-se ainda mais “fortalecido” e “potente” quando encontra apoio em outros “crentes”, confrades, coirmãos, reunidos em uma comunidade de apoio mútuo.

Num dos artigos – “Inteligências em estrelas distantes – o sonho de Daniken e a realidade das chances biológico-evolutivas para inteligências extraterrestres” – desse mesmo livro organizado Ernst von Khuon, Joachim Ilies diz o seguinte (p. 54), de forma muito direta, simples e sintética:

“Todos nós conhecemos os casos de fanáticos por determinada ideia ou causa, os monomaníacos, que a cada passo encontram a prova de sua convicção. São indivíduos com ideia fixa, preconcebida, na qual baseia os seus fatos.”

Enfim, todo o cuidado na hora de observar algo para não moldá-lo de acordo com nossos desejos. Para uns, os deuses seriam astronautas, mas para outros, bem poderiam ser motociclistas...


*Como até já disse o prof. Ernesto Bono, todo cuidado para não fazer da ciência uma nova religião.

**Acho que não há nenhum caminho “seguro” ou único para a compreensão do mundo. A ciência contemporânea, em toda a sua precariedade inerente por ser ferramenta humana, esse ser ou, melhor, esse animal física e cognitivamente limitado, me parece, no momento, o menos falível ou falsificável, justamente porque é inerente ao seu método uma boa dose de auto-crítica e sua essência de hipóteses sempre provisórias, até que surjam outras com mais esclarecimento e menos falhas.

***Óbvio que o que diz o alemão Ernst - sobre os deuses serem motociclistas - é uma paródia ao que quer ver Daniken (astronautas). Aliás, em entrevistas, Daniken já teria admitido embustaes (alguns poderia dizer "estratpegias") deliberados “para captar a atenção do leitor” – como se ele estivesse escrevendo ficção, e não um ensaio apresentando hipóteses factíveis. Para mim isso é lamentável, porque destrói a confiança na "possibilidade de verdade", "forçando a barra" para persuadir o leitor sobre a realidade do que ele (daniken) está levantando.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Quando a religião sufoca e até esfola o conhecimento

No sábado retrasado olhei um filme que me deixou muito impactado e que recomendo a todos. O filme se chama “Alexandria”, produção espanhola de 2009, multipremiada e muito didática, contando, de forma romanceada, a história real da filósofa Hipátia, que viveu em Alexandria, no Egito, entre os anos 355 e 415, época da dominação romana naquela região do norte da África, mas sob pressão cada vez maior dos cristãos, que, de minoria oprimida, se tornam, cada vez mais, na maioria opressora.

 Além dos aspectos do puro desejo de poder humano e manipulações de vários tipos, há na narração de “Alexandria” o caminho a que se chega com o obscurantismo, a fé cega, a superstição, ou seja, se chega a violência, a dor e castração da inteligência humana. Hipátia, uma pensadora independente, professora de ciências, como a astronomia, acaba sendo barbaramente apedrejada e arrastada pela cidade por monges cristãos, que a chamam de bruxa, herege, ateia etc. Aparece aí explicitamente a face da intolerância, do machismo extremo inerentes ao cristianismo e todas as seitas derivadas do patriarcalismo mais arcaico, autoritário, caso do judaísmo, de onde saiu Jesus.

Relacionei o filme a um e-mail que me foi repassado dias atrás. Contém uma “foto”, na verdade um desenho retratando Cristo conforme o estereótipo – um homem branco, magro, de cabelos compridos, com um rosto expressando dor, tendo na cabeça a terrível coroa de espinhos. Interessante que essa figura, que representa o amor incondicional, a bondade encarnada, a suprema compaixão, aquele que se dá pela salvação da humanidade... caso a gente não repasse o e-mail com tal figura, isto desencadeará uma grande desgraça... Referências como a de ter sido “divulgada até no [programa da Rede Globo] Fantástico", um presidente sem nome da Argentina (cujo filho morreu), uma pessoa chamada Alberto Martines (imaginei-o um mexicano ou costa-riquenho)... a expressão "o poder Ele tem", "milagres", ganhar na loteria, o prazo de "13 dias"... tudo isso me perturbou justamente pela superstição, o obscurantismo evidenciados; a crendice mais simplória e, aí é o ponto, ao que parece, compartilhada por pessoas que tenho o maior apreço e consideração, pela amizade e por suas capacidades intelectuais; pessoas que atuam em uma academia de ensino superior (assim como Hipátia, do filme “Alexandria”). Ao ler o texto, pensei que, só numa primeira olhada, já se vê a precariedade e, “ouso dizer”, o embuste erguido em cima de algo sem sustentação, sem base, que lida só com o nosso lado fantasista, paranoico, crédulo e medroso – o irracionalismo que contradiz todas as conquistas da humanidade em seu tortuoso caminho, mas que, a final, tem nos levado a um entendimento cada vez mais profundo do cosmos e da vida, vide as tantas e complexas conquistas científicas e tecnológicas de nosso uso cotidiano, afora coisas impensáveis como uma sonda movida a energia atômica pesquisando Marte.

Pois o filme “Alexandria”, dirigido pelo mesmo cara que fez o oscarizado “Mar Adentro” (Alejandro Amenábar), é um libelo pela liberdade de pensamento e contra concepções que travem a expansão do saber, travando a análise crítica e, especialmente, a auto-crítica. É um libelo pelo “amor à sabedoria” e contra a cegueiras do dogmatismo, da irreflexão. Hipátia é esfolada porque se recusou a aderir a uma crença que coíbe questionamentos e se impõe, se não pelo convencimento, pela força mais brutal.

Bem, era isso. Fica a dica de filme. Segue um link com a sinopse e treiler:

http://www.imagemfilmes.com.br/imagemfilmes/principal/filme.aspx?filme=103236