Numa troca de e-mail com um amigo escritor, que publicou um livro com relatos sobre golpes do tipo “conto do bilhete”, destaquei (e incrementei) algumas partes das mensagens que enviei a ele. Seguem abaixo.
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E é assim mesmo: o cara está “condicionado” a ver discos voadores; ou o cara morre de vontade de ver algo assim, extraordinário, e qualquer fenômeno não imediatamente identificado se torna um “avistamento de ufo”...
Há ufólogos que lutam contra o amadorismo e crendices nas investigações. Mas a esmagadora maioria dos “adeptos”, pelo que noto, são “crentões” das ideias da “nova era” – e estão longe de uma abordagem de fato científica –, sedentos de algo que substitua as velhas religiões, cada vez mais carcomidas (mesmo que o número de adeptos se expanda).
Tenho um blog, que incialmente tinha uma proposta, mas virou um repositório para textos (comentários pessoais) “alertado” para, justamente, uma perspectiva obscurantista de uma certa abordagem sobre ufos/óvnis e assuntos correlatos, além de propor uma atenção a coisas extremamente interessantes, mas bem mais “pé no chão”. O pontapé para publicar os comentários foi a leitura há não muito tempo daquele livro do finado físico Carl Sagan, “O mundo assombrado pelos demônios – A ciência vista como uma vela no escuro”. Os comentários postados são normalmente e-mails levemente adaptados, que envio ou troco com um pessoal de uma lista. [O blog é este “AlertaOvniBrasil”.]
Ainda falando em “171” – as engambelações que estamos sujeitos enquanto seres ávidos e acríticos diante de supostas maravilhas –, estou lendo uma revista Galileu – de outubro de 2012 – cuja reportagem de capa é “Por que você acredita – seu cérebro é programado para crer. Entenda como isso influencia suas atitudes (superstições, conspirações, astrologia, fim do mundo, destino, espíritos, deus)”.
Tenho aqui até um link para a matéria, caso tu queiras dar uma olhada:
http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI320171-17579,00-POR+QUE+VOCE+ACREDITA+EM+HOROSCOPO+ESPIRITOS+ETS+E+RELIGIOES.html
Voltando, tenho esta relação com o tema “ufologia” – muito por conta de amigos queridos. Mas ao mesmo tempo que percebo o interesse pelo assunto como algo positivo e estimulante à busca de conhecimentos, e que também pode propiciar um rompimento do pensamento antropocêntrico (o ser humano como centro de tudo, inclusive como a principal preocupação de um suposto criador de tudo que há no universo), vejo o assunto (ufos ou óvnis) ser encarado como uma crendice (obliterante do livre pensamento), estabelecendo-se como uma nova forma de igreja. Como diz a própria reportagem da revista, substituiu-se anjos e demônios por ETs bons e maus... E até Jesus Cristo teria vindo à Terra num disco voador...
Michael Shermer é citado nesta Galileu. Aliás, o seu último lançamento no Brasil – o livro “Cérebro e Crença” – é o mote da reportagem. Eu li semanas atrás boa parte de um livro anterior dele (dos publicados no Brasil), que se chama “Por que as pessoas acreditam em Coisas Estranhas”, com o subtítulo “pseudociência, superstição e outras confusões de nossos tempos”.
Shermer diz que
“Faz parte da natureza humana [acreditar]. Não evoluímos para duvidar ou questionar. Desenvolver um senso crítico e uma visão própria de mundo exige educação, reflexão e tempo. Crer é muito mais fácil. As pessoas preferem ser enganadas”.
Especificamente, sobre ufologia, ele diz que
“Nenhuma fotografia pretensamente tirada de um disco voador sobreviveu a um exame detalhado. São todas alegações falsas, montagens feitas para iludir. Embora seja possível que algumas alegações de eventos paranormais, mediúnicos ou ufológicos possam ser verdadeiras, a verdade é que a maior parte delas é falsa”.
O link para a entrevista completa, que saiu na revista Época no ano passado (2012), onde ele fala isso (acima) está reproduzida logo abaixo.
http://www.michaelshermer.com/2012/01/as-pessoas-gostam-de-ser-enganadas/
Comentário posteriores:
*Voltando ao Shermer, tenho que me penitenciar por ter retirado, para tentar sintetizar, um complemento da fala dele na entrevista da Época. Deixei de fora a seguinte finalização da frase:
“(...) e o mais provável é que todas não passem de pura farsa”.
Assim, o trecho que destaquei fica:
“Nenhuma fotografia pretensamente tirada de um disco voador sobreviveu a um exame detalhado. São todas alegações falsas, montagens feitas para iludir. Embora seja possível que algumas alegações de eventos paranormais, mediúnicos ou ufológicos possam ser verdadeiras, a verdade é que a maior parte delas é falsa, e o mais provável é que todas não passem de pura farsa”.
Como indiquei, para quem quiser confirmar, está aqui a entrevista completa:
http://www.michaelshermer.com/2012/01/as-pessoas-gostam-de-ser-enganadas/
Ou seja, Shermer afirma que a probabilidade indica que todas fotos sejam falsas como indicadoras de “discos voadores”, ou seja, veículos supostamente vindos do espaço, de outros planetas.
Já se sabe, por inúmeras meios, que, sim, a maior parte das fotos são de fato falsas. Shermer vai adiante e diz que “o mais provável é que todas não passem de pura farsa”. “Farsa”, montagens ou indução de interpretação de algo que não é, ou que se está “forçando”, a partir do “eu quero acreditar” ao invés do “eu quero saber”. É duro de se admitir, mas como diz o ufólogo português Nuno Silveira, é preciso considerar seriamente o quanto são precários os nossos indicadores, as nossas “provas”, com um histórico absurdo de engodos, cretinices e, até, canalhices descaradas.
Não sei detalhes sobre os levantamentos, investigações, pesquisas de Shermer sobre o tema “ufo”. Na obra que eu li dele, “Por que as pessoas acreditam em Coisas Estranhas”, há um capítulo específico e uma extensa bibliografia e percebe-se, além de experiência de vida, uma grande erudição, fruto, talvez, de sua longa trajetória de professor de História da Ciência (Claremont University e Chapman Univesrity), palestrante em eventos como o Fronteiras do Pensamento (hoje o maior ciclo de conferências da América Latina, com os expoentes mundiais em artes, filosofia e ciências), articulista da revista Scientific American, entre outras credenciais nada desprezíveis.
Mas é muito bom que a gente tenha contrapontos e me honra muito receber considerações, mesmo quando contrariam as minhas ideias. Só assim se pode “voltar atrás” ou aperfeiçoar as nossas concepções. O pior de tudo, acho eu, é aferrar-se a uma visão, sem a disposição de debate-las francamente, similar a um devoto de uma seita fundamentalista, que se ofende com qualquer tipo de questionamento.
**Para continuar o debate envolvendo a posição de alguns cientistas, a partir da conversa com o Daniel (em 24/01 – conforme a mensagem mais abaixo).
Aliás, falo propositalmente em “alguns cientistas” porque não se pode generalizar. Como tenho conversado com o Rafa, uma coisa é a Ciência e seu “estado da arte” contemporâneo, sua metodologia, sua permanente autofiscalização e mudanças na medida que surgem novas teorias e instrumentos de verificação; outra coisa é a posição de um cientista “a”, “b”, “c” etc. Podem haver opiniões diferentes, equívocos, simpatias, antipatias, afinal são seres humanos naturalmente falíveis e suscetíveis a humores. “Cada cabeça, uma sentença”, diz o ditado. Isso vale para qualquer indivíduo – cientista, pipoqueiro, jogador de futebol, padre etc.
Eu já li algumas coisas do Marcelo Glaser, alguém, um brasileiro que está na ponta mundial quando se fala em astrofísica. Não deve ser por nada que pesquisou para a NASA e Kavli Institute for Theoretical Physics, dando aulas em educandários como o Dartmouth College e a UFRJ. Mas, com certeza, erudição e credenciais acadêmicas não significam estar imune a equívocos. Entretanto, no caso do Glaser, para alguém que a vida toda tem estudado profundamente as questões da física, do espaço, da astronomia, da astrofísica, da própria exobiologia, acho que não dá para desconsiderá-lo em seu ponto de vista, mesmo que frontalmente contrário ao que possamos ter. Qual seria, mesmo, o seu “erro”?
Interessante que outro astrofísico de renome, Carl Sagan, seja visto com simpatia por muitos ufólogos. Sagan se posicionou frontalmente contra a ideia de discos voadores, ETs, abduções conforme os relatos “clássicos” que existem por aí. Para mim, TODA PESSOA INTERESSADA EM UFOLOGIA deveria ler – em especial os capítulos específicos em torno do tema – o livro de Sagan “O MUNDO ASSOMBRADO PELOS DEMÔNIOS: A Ciência Vista como uma Vela no Escuro”.
Eis uma resenha muito boa: http://www.comciencia.br/resenhas/carl.htm
O livro, como todas as obras de Sagan, é muito agradável e acessível, mesmo quando lida com aspectos mais abstratos ou técnicos. E o que ele afirma, em síntese, similarmente ao Shermer, é que não existe evidência concreta alguma sobre naves e seres extraterrestres; ele faz um esforço danado para mostrar o quanto é pernicioso considerar como “certo” o que é apenas “relato” ou “exercício hipotético”, construindo-se uma pseudociência ou endossando crendices travestidas de “algo profundo”; como alega Sagan, isso pode estar nos levando a um retrocesso, a uma volta a um tempo “de trevas”, de irracionalismos, de repressão ao desenvolvimento do pensamento, do conhecimento humano e do próprio desfrute da vida; quando penso no Projeto Portal, é exatamente isso que me parece estar ocorrendo: gente aderindo as mais esfarrapadas teses, sustentadas por armações para pegar incautos “loucos para acreditar”.
***O livro mais bonito do Sagan talvez seja Um Pálido Ponto Azul – até pela encadernação, fotos etc.
Mas “O Mundo Assombrado...”, como eu disse, acho que vale a pena o esforço – pelas argumentações do Sagan, este cara muito cultuado por ufólogos, mas que poucos o leram, a não ser algumas frases soltas e alguns capítulos da série Cosmos. Todo caso, talvez seja cientista mais importante para as pesquisas sobre vida extraterrestre. Uma pena que morreu cedo... Um baita mestre.
Há muitas coisas na vida que não há – nem é preciso – provar, já que são, por exemplo, sentimentos, como a compaixão. Mas quando estamos querendo fazer pesquisa ufológica (assim com se faz pesquisa biológica) não há como escapar da metodologia científica, das comprovações. Caso contrário, será outra coisa que estamos fazendo: culto a ETs, culto a discos voadores, culto a Asthar Sharan etc. É o que eu acho.
Pois é. Copérnico lutou contra o obscurantismo da igreja; lutou contra a crendice, o dogmatismo; teve que vencer a perseguição a quem pensava racionalmente. Estudiosos sérios sobre vida extraterrestre têm de lutar contra a crendice de ufólatras, que não abrem mão da ideia que discos voadores e ETs são reais, irrefutáveis... A Ufologia pode ser a nova igreja repressora do século XXI... Hehe!!
E crer é mais difícil, sim, concordo – em vários casos. Tem coisas “tipo” a concepção de uma virgem, tomada de forma literal, um dos cernes da crença cristã (os católicos chamam isso de “mistérios”, para não dizerem “lorotas”- hehe!!). É preciso muita coragem para defender tal “acontecimento” hoje em dia; de fato, é difícil apoiar disparates tão grandes; no caso, é mais fácil (e mais correto!) não acreditar.
Posto aqui cometários pessoais sobre acontecimentos e outras reflexões que ligo à ufologia - pela qual nutro várias simpatias. Com apreensão, observo cada vez mais o interesse e o estudo sobre vida e a inteligência fora da Terra e além da humanidade derivar, dentro dos meios chamados "ufológicos", para as mais tacanhas formas de crendice e superstição, reforçando o obscurantismo, a irracionalidade, o fundamentalismo religioso e a pseudociência.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
“Um objeto bizarro, que desafia a nossa imaginação.”
Mais uma vez, não se trata de um ufo/óvni ou algo do gênero.
O “objeto bizarro, que desafia a nossa imaginação” são os buracos negros
– esses fenômenos do nosso universo astrofísico. E o que está entre aspas foi
dito por um jovem pesquisador gaúcho, Rodrigo Nemmen da Silva, que está fazendo
seu pós-doutorado na Goddard Space Flight Center, Nasa, nos EUA. Ele é um dos
cabeças da equipe que está desvendando fenômenos envolvendo substâncias (sim,
substâncias) eliminadas pelos buracos negros. O trabalho foi publicado na
prestigiada revista Science.
Essas informações estão na reportagem que saiu no jornal
Zero Hora de 15/12/12. Mais abaixo, segue o link.
Nascido em Passo Fundo (aquela cidade que é mencionada no
filme “Sinais”, do diretor Shyamalan), Rodrigo diz o seguinte:
“Escolhi estudar os buracos negros, porque é algo fascinante
e são laboratórios incríveis para entender a natureza, e que mexe com o
imaginário popular. Mas, se eu paro pra pensar, vejo que é um objeto bizarro,
que desafia a nossa imaginação.”
Desafios à imaginação, para mim, seria uma das positividades
da ufologia. Desde que não sejamos absorvidos pelo “buraco negro” do obscurantismo,
ou seja, da crendice travestida de “ciência”, quando não completamente
contaminado por uma postura místico-religiosa estapafúrdia, de fragilíssimas
bases e consequências desastrosas, como diz com muita propriedade o ufólogo
português Nuno Silveira, em entrevista dada à Revista Ufo (edição 184 – ali
Nuno diz ao entrevistador, Paulo Poian, que, ao invés do lema “eu quero
acreditar”, o “lema” dos ufólogos, emprestado do filme “Arquivo X”, deveria ser
“eu quero saber”).
Talvez antes de nos “meter” a ufólogos, devêssemos estudar
bem mais. Quem sabe um pós-doutorado na Goddard Space Flight Center? Teríamos
competência para tal? Teríamos paciência e dedicação para chegarmos em tais
lonjuras pedregosas? Pois acho que todos nós que nos pretendemos pesquisadores
do assunto, sim, deveríamos estudar – diversas matérias acadêmicas – com muito
afinco antes de pontificar qualquer coisa. Não uma carteirinha de algum tipo de
“Centro Intergaláctico de Estudos Orion”, mas de estruturas sérias, que
precisam zelar por suas reputações institucionais.
A reportagem de Zero Hora:
Físico de Passo Fundo que estuda na Nasa faz descoberta
sobre os buracos negros
Artigo com os resultados da pesquisa foi publicado nesta
sexta-feira na revista Science
Comentários posteriores:
*É isso aí. Ficar na busca. Não desdenhar dos vários
caminhos para o saber, não esquecendo que o mentefato cultural (como chama o
professor Attico Chassot, aí de PoA) da ciência é uma das grandes chaves que
temos, que já deu muitas provas de seu poder (para o bem e para o mal).
**Mas me parece natural as coisas irem se complexificando e
que vá surgindo novas concepções, superando ou aumentando as possibilidades de “explicação”.
Como acredito que o nível da complexidade do universo é tal, com nossa
capacidade de compreensão é limitada em forma e quantidade, jamais saberemos o
que é o labirinto onde estamos metidos. Mas o legal é tentar; dar nó em pingo
d’água, construir mentefatos (teorias) e outras ferramentas que nos dê mais
lampejos sobre as coisas que nos rodeiam tão enigmaticamente. Claro que o
primeiro passo é ver as coisas como enigmas, e não cair nesta banalização
corriqueiras, onde a pessoa nem mais se espanta com as estrelas num céu
esplendoroso, que dirá com o sabor de um espresso bem tirado!
***É sempre um prazer receber tuas ponderações. Me honra
muito, embora os elogios a mim, do tipo “inteligência superior”, fique por
conta de tua grande generosidade!
Sobre siglas, gostei bastante também da denominação do
citado ufólogo Nunes Silveira, FANI, Fenômenos Aéreos Não Identificados, porque
mais abrangentes, não se referindo propriamente a “objetos”, ou seja, algum
tipo de “sólido” – até porque boa parte dos relatos se referem a luzes...
Um dos meus gostos pela ufologia foi justamente por um FANI
(não confundir com FANIquito! Hehe!!), compartilhado com vários amigos, durante
uma noite em um acampamento no interior de Venâncio Aires. Anos depois, fui
descobrir que o objeto muito provavelmente seria um balão meteorológico, pelo
tipo de “deslocamento” e colorações.
Sobre o “querer saber” ao invés do “querer acreditar” me
parece muito bem sacado e muito pertinente, mesmo. Acho que o “querer
acreditar” nos induz a “ver” – pela ansiedade, pela predisposição mental, pela
sede humana de epifanias, pela serie de imagens que podemos estar evocando em
nossas mentes influenciáveis (estereótipos da cultura de massa) e cheias de
limitações (pelos cinco sentidos e cognitivamente falando). O “querer saber”,
numa perspectiva mais científica clássica, impõe ao pesquisador/estudante a
autocrítica e constantes revisões – próprias e alheias, sem medo do
contraditório, da contestação, do questionamento duro, do abandono de teorias e
até paradigmas (aliás, no ano passado, a fundamental obra de Thomas Kuhn, A
Estrutura das Revoluções Científicas, completou 50 anos, introduzindo inúmeras
formas novas de “se fazer ciência”).
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
O Word Economic Forum – o todo-poderos Fórum de Davos, na Suíça – alerta para "X Factor": as implicações mundiais da descoberta de vida fora da Terra
Vocês devem ter visto. Achei sensacional. Porque apresentado num evento internacional que congrega os mais poderosos do mundo – pessoas, países, empresas, organismos. O Fórum Internacional de Davos (foto de um momento da edição no ano de 2008).
No jornal Zero Hora, aqui do RS, saiu na quinta-feira passada, 10/01/2013, em destaque na capa, com uma ilustração com discos voadores sobrevoando a montanhas de Davos, nos cinematográficos alpes suíços, a seguinte manchete:
Algo estranho em Davos
O normalmente sisudo encontro dos países ricos traz para a pauta a hipótese de vida extraterrestre
Internamente, na página 20, a reportagem começa assim:
Fórum Econômico Mundial chama atenção para vida extraterrestre
Estudo encomendado pelo encontro de Davos lista entre os fatores de risco não totalmente detectados a existência de vida fora da Terra
Um assunto geralmente confinado a grupos de curiosos e cercado de ceticismo ganhou vitrina de alta exposição e público de enorme influência: a vida extraterrestre. Um relatório divulgado na manhã desta quarta-feira pela organização do Fórum Econômico Mundial, que se realizada de 23 a 27 de janeiro em Davos, na Suíça, coloca em discussão o que chama de "Fatores X" — riscos que podem surpreender, até por passar ao largo das preocupações mais comuns. Muitos desses aspectos, conforme o texto do editor-chefe da revista científica Nature, Tim Appenzeller, colaborador do fórum na análise dos riscos globais de 2013, são consequências dos desafios científicos e tecnológicos.
[...]
Para quem duvida que uma organização tão séria esteja falando coisas de malucos, o próprio jornal indica o link para a matéria que está no site oficial do Fórum de Davos, o Word Economic Forum:
http://reports.weforum.org/global-risks-2013/section-five/x-factors/
A matéria de ZH está aqui:
http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/economia/noticia/2013/01/forum-economico-mundial-chama-atencao-para-vida-extraterrestre-4005511.html
Seria um momento privilegiado para a ufologia tomar uma direção de seriedade e viabilidade científica, recuperando-se do mar de crendices, obscurantismos e pseudocientificidade que está a se debater desde muito, com honrosas e salvadoras exceções.
Infelizmente, exercitando o meu ceticismo, acho que os “bruxos da nova era” vão é aproveitar para anunciar que está comprovado que, sim, Jesus virá num disco voador e outras bobagens sempre recicladas, fazendo da ufologia um neoreligião pentecostal com laivos kardecistas e cristãos, misturado com um pouco de Isaac Asimov, George Lucas, Fritjof Capra, Osho, Gandalf e Saci Pererê...
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Seres inteligentes – abertura para aquilo que não é espelho (a majestade das sequoias e outras espécies veneráveis)
Pessoal,
Começando o ano e, no rescaldo de comentários que posto por aqui, tinha um perdido num canto; dei uma penteada nele e vai aqui para entupir vossas mentes, agora que já entrando no 3º ano da segunda década do século XXI.
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Seres inteligentes – abertura para aquilo que não é espelho (a majestade das sequoias e outras espécies veneráveis)
Humanos se vangloriam de suas capacidade mentais, às vezes sem se dar conta que nossas limitações de percepção e “processamento de informações” não vai muito longe. Fiquemos só com o exemplo de nossa visão, que não abarca o que chamamos de ultravioleta e infravermelho, frequências existentes, mas não processáveis por nosso aparato natural – olho/cérebro).
Mas mesmo que enredados em nosso próprio mundo mental e suas limitações biológicas, podemos contar com alguns aparatos que fornecem pistas de onde estamos metidos– uma complexidade tão grande que vai além de qualquer instrumento de sentido e poder de compreensão acessíveis a seres terráqueos como nós, moldados em bilhões de anos de desenvolvimento no processo de seleção natural, como genialmente concluiu Darwin e ampliou a biologia molecular e a genética.
Todo o caso, a inteligência – e a beleza – não precisam ficar tão centradas em nós mesmo, os macacos nus.
Não é a primeira vez que digo isso, mas árvores são seres fantásticos, de uma beleza e inteligência muito explícitas e por vezes desprezadas, tal o nosso antropocentrismo, reforçado por religiões e outras ideologias. Quem disse que não há inteligência em crescer-se seguindo a luz, a água e nutrientes do solo? Observe-se o movimento das folhas, dos galhos, das raízes... Observe-se a convivência com outras plantas e animais, a produção de frutos, sementes, brotos... Com nós, animais da espécie humana, as árvores usam de suas inteligências para sobreviver, crescer, procriar e, assim, “ser feliz”!
Talvez pelo porte, pela “majestade”, pelo contraste de tamanho em relação a outros seres vegetais e animais, as Sequoias sejam uma das mais impressionantes árvores hoje existentes. Quem, diante de um ser destes, de tal magnitude, não fica numa atitude reverencial – abismado, impactado por forma tão colossal e misteriosa?
Numa crônica no caderno Viagem do jornal Zero Hora, em 21 de agosto de 2012, o veterinário Everton Fauth, aqui de Santa Cruz do Sul, conta que visitou parques nos EUA com árvores extraordinárias, como Sequias de 84 metros de altura, oito metros de circunferência e 2,7 mil anos de vida. Há espécies de sequoias ainda mais altas – embora mais “finas” -, caso de uma com 115 metros (veja-se as ilustrações abaixo e acima).
Em termos de longevidade, Everton fala de uma espécie de pinheiro – Bristlecone Pine –, com 4.845 anos... um “ser vivo fantástico que á tinha 2,8 mil anos quando Jesus Cristo ainda pregava”... Ela está em um parque de Sierra Nevada, em local não divulgada, em prevenção a tentativa de imbecis de praticarem alguma “gracinha” destrutiva (sim, nossa espécie é também de uma incrível estupidez, um dos nossos diferenciais em relação a outros animais.)
Enquanto isso, caçamos ETs, Pés Grandes, anjos e gnomos – todos antropomórficos, humanoides, revelando aquela nossa típica necessidade de pensar a inteligência e o extraordinário em algo e em semelhança conosco, os macacos nus referidos.
*Macacos nus faz referência ao livro de Desmond Morris, zoólogo e etólogo inglês, autor do livro “O Macaco Nu”, tornado best-seller, publicado originalmente em 1967. Na resenha para uma edição brasileira de 2001, da Editora Record, é dito o seguinte:
“Ao tratar de temas como sexo, alimentação e relacionamento, Desmond Morris analisa o comportamento humano do ponto de vista animal e mostra como o homem faz questão de negar as características hereditárias de sua própria espécie. E o quanto isso é prejudicial para a compreensão de si mesmo.” (FONTE: http://books.google.com.br/books/about/O_macaco_nu.html?id=PGc_JnnlztwC&redir_esc=y)
**”não é espelho” no título, obviamente, quer se referir ao mito grego de Narciso; não tanto no sentido da vaidade (narcisismo), mas de auto-referência enquanto espécie, de se fazer de parâmetro ideal (ou idealizado) para tudo e todos, e que, me parece, leva ao antropocentrismo e à a antropolatria. Também obviamente, tal centralismo e apologia são, em certa medida, inevitáveis, porque constituintes de nossa linha primata, talvez, até, inicialmente, como um mecanismo de sobrevivência, hipertrofiando-se no convívio e criação de instituições, como igrejas – e salões de beleza, revistas de moda etc...
*** Vídeo de apresentação do Sequoia & Kings Canyon National Park, Califórnia, EUA, onde aparece espécies extraordinárias, entre ouras coisas bacanas:
http://www.youtube.com/watch?v=fAIXjPxbbeY&feature=player_embedded
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
Revelações de 225 milhões de anos atrás
Em vários jornais da semana passada (19/12/2012) saiu uma notícia sobre a descoberta, aqui (Santa Cruz do Sul) ao lado, no interior da cidade de Agudo, de fósseis bastante completos do período Triássico, uns 225 milhões de anos atrás. Um deles, de um “sauropodomorfo”, estaria com os ossos todos articulados, o que possibilitará um entendimento ainda mais preciso de como eram e como viviam esses primitivos animais – antepassados dos grandes dinossauros, que depois chegariam a pesar 12 toneladas e medir 30 metros.
Liderados por professores, técnicos e estudantes da Unipampa, os fosseis serão estudados por longa data e deverão produzir uma série de estudos, decifrando um pouco mais o longínquo passado da nossa região e do próprio planeta Terra e seu habitantes. Os materiais ficarão num centro de pesquisa em paleontologia no município de São João do Polêsine (ao lado de Agudo, próximo a Santa Maria, a uns 120km de Santa Cruz).
Não é fascinante isso? E não se trata de alguma “visão”, de algum “relato”. É algo ao mesmo tempo extraordinário e muito concreto, que “fala” sobre a trajetória do nosso planeta, da origem e desenvolvimento da vida.
Os detalhes são tão complexos e as elucubrações intelectuais são tão intensas e emocionantes que chega a ser uma tolice querer achar algo “além”, quando temos tantas possibilidades de ampliar a compreensão sobre o mundo onde estamos, caso dos estudos paleontológicos. Como tudo que quer chegar a respostas factíveis, a “ciência dos fósseis” exige uma dedicação séria, compenetrada, em permanente teste de suas hipóteses, aberta a novos dados que chegam – sem cair em apelos a fantasias, que remetem ao obscurantismo e ao travamento da inteligência.
Lastimável que a ufologia não raro produza esse embotamento, ao tornar-se (ou a manter-se) acientífica – muito mais uma forma de religiosidade ou refúgio existencial em uma ficção. Acredito que ganharíamos muito mais se estudássemos com mais afinco temas como a mencionada paleontologia – um do estudos científicos que vem nos tirando das trevas da ignorância e dogmatismo religioso.
Nas ilustrações (divulgação) acima e abaixo, pesquisadores da Unipampa trabalhando no local da descoberta dos fósseis, em Agudo.
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*Prezado camarada Rafael Amorim, pesquisador do fenômeno e, sem dúvida, referência gaúcha e brasileira no assunto:
Tu tens razão: não dá para generalizar, porque se sabe que há muita gente empenhada em NÃO fazer da ufologia uma “ufolatria”, como tu mesmo dizes, ou seja, uma espécie de “novo culto”, de uma “nova igreja”, com seus rituais, sacerdotes e até “santos”, do tipo Asthar Sharan (no Céu) e Urandir (na Terra). Ou, se não um culto, tem uns que fazem da ufologia um novo folclore, colaborando na consolidação no imaginário popular de novos “seres bizarros”, como o Chupa-Cabra e o ET de Varginha, ao lado da Mula Sem Cabeça, Saci Pererê, o Lobisomem e a Cuca... Ou misturam tudo isso e constroem um ogro de papelão sustentado por um discurso pseudocientífico que parece seduzir muita gente. A vontade é de rir, não fosse a engambelação flagrante, explorando até monetariamente, como costumam fazer tantas igrejas (supostamente) baseadas na coletânea de contos e admoestações chamado Bíblia – e também em outros vários “escritos sagrados”, interessantes como obras históricas, mas perversamente alçadas a “verdades eternas”...
Aliás, meu novo “guru”, o jornalista Christoher Hitchens, recentemente falecido (lamentavelmente, porque era um cara em plena e madura produção intelectual), disse o seguinte sobre nossa propensão a cair no engodo, no “171”:
“Não é esnobismo perceber a forma como as pessoas exibem ingenuidade e seu instinto de rebanho, e seu desejo ou talvez necessidade de serem enganadas. É um problema antigo. A credulidade pode ser uma forma de inocência, e até mesmo inócua em si, mas é um grande convite a que malvados e os espertos explorem seus irmãos e irmãs e, portanto, é uma das grandes vulnerabilidades humanas. Não é possível nenhum relato honesto do crescimento e da persistência da religião sem referências a esse fato inflexível." (p. 149-150, Hitchens, 2006)
Para encerrar, é preciso reconhecer que a ufologia, ao contrário da paleontologia, não possui sequer um objeto material ou outra prova incontestável da existência de naves e seres extraterrestres. Lidamos com hipóteses e relatos (mesmo que documentados, o que não altera a sua pouca ou inexistente materialidade). A paleontologia tem os fósseis (em anexo, duas fotos divulgando o referido achado paleontológico em Agudo, RS) e outras indicações materiais (marcas em paredes, solos, pedras etc.) que formatam a teoria e demonstram a veracidade da existência, por exemplo, de dinossauros – não como fantasias hollywoodianas do tipo “O Parque dos Dinossauros”, mas como seres que habitaram a Terra.
Sobre discos voadores e ETs, temos pouco mais que os filmes de ficção e a “vontade de acreditar”... Mas isso já é algo para impulsionar uma busca! O problema é NÃO fazer de tal busca uma caça infantil travestida de seriedade (o exemplo patente é o que se vê no “Projeto Portal”). Muito bom que tenhamos – como o Rafael cita – gente “pé no chão” e não delirantes e espertalhões a comandar todo cenário da ufologia brasileira e mundial.
Abraço!
Iuri
**Marcelo, Daniel e demais colegas,
Eu sempre acho as falas do Daniel excelentes, de uma ponderação lúcida, aberta e simpática – um camarada extraordinário, literal e sinceramente.
A comparação da ufologia e da bacteriologia é muito boa e me deu vontade de ver esta biografia do Pasteur. Mas, infelizmente, a ufologia, conforme está estabelecida, encabeçada por caras como o XXXXXX [nome omitido, para evitar complicações jurídicas], que se diz “pesquisador e ufólogo”, está cheia de “contaminações”. Acho que será preciso um longo processo para torná-la cientificamente e academicamente reconhecida, porque, pela minha observação, a grande parcela dos que se declaram ufólogos têm um perfil que não se ajusta a um cientista, e estão mais próximos de um estereótipo de guru ou apóstolo de uma congregação de místicos da “Nova Era”. Aposto mais em exobiologia ou astrobiologia e até na exossociologia como caminhos mais seguros e profícuos para a investigação de manifestação de vida e inteligência extraterrestres. A própria denominação “ufologia” está incorporada no imaginário popular como algo da ordem do “fantástico”, na mesma linha do “fenômeno” dos lobisomens...
O Daniel também tem razão sobre o “fundamentalismo científico”. Como também comentei com o Marcelo, a dimensão da fantasia, do fantásticos, do mítico, da imaginação, do próprio devaneio, da especulação aparentemente mais descabida são fundamentais para construirmos as explicações – sempre tentativas, mesmo as “científicas”, já que precisamos considerar todas as indicações de nossas naturais limitações enquanto mamíferos habitando este ecossistema terreno, tendo um cérebro moldado a quase perfeição (como as mãos!) para nossas primatas necessidades de sobrevivência, mas que, miraculosamente (oba!), abriu “fendas” para espiarmos uma imensidão “incomensurável”, como disse Thomas Kuhn, o cara do “A Estrutura das Revoluções Científicas”, que popularizou o hoje quase abusado termo “mudança de paradigma”.
Agradeço o carinho e a consideração dos amigos em seus comentários sobre os textículos (não confundir com testículos! Hehe!) que lhes envio de vez em quando!
Abraços!
Iuri
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
E o papa tuitou...
Uma amiga me repassou a notícia:
O papa Bento XVI tuitou pela primeira vez nesta quarta-feira, durante sua audiência semanal, no auditório Paulo VI, no Vaticano. Bento XVI escreveu em seu iPad uma mensagem de saudação aos mais de 670 mil seguidores. "Queridos amigos, estou feliz por entrar em contato com vocês pelo Twitter. Obrigado por sua resposta generosa. Eu abençoo a todos de coração", disse.
Pois até o Papa tem conta no Twitter e usa tablets... E com certeza o Vaticano está no Facebook, a grande rede de contatos, informação e interação, que está marcando o século 21 com novas formas de comunicação.
Essa situação sempre me chama a atenção – da Igreja (ou das igrejas) usar (em) a tecnologia. Há uma contradição, me parece. Todo o moderno aparato tecnológico foi construído “apesar” da religião judaico-cristã (entre outras). Física, química, engenharia, biologia etc. não tiveram um livre-desenvolvimento por intervenção de “sacerdotes”. Até hoje, avanços na medicina, como as possibilidades de uso de embriões, é travado por uma visão ortodoxa, da Idade do Bronze, época em que o Velho Testamento foi moldado – por isso são preceitos de tribos patriarcais seminômades das imediações do Mediterrâneo. Estudiosos e pensadores, mesmo cristão, como Giordano Bruno, foram mortos pela sua própria igreja (no caso, pela inquisição - Congregação da Sacra, Romana e Universal Inquisição do Santo Ofício); outros, foram duramente censurados, sob ameaças de tortura e assassinato, caso de Galileu Galilei. E até hoje esse sectarismo violento (virulento, também), anti-liberdade e anticientífico é praticado mais ou menos explicitamente por instituições religiosas e seus “fiéis” exaltados.
Talvez essa adesão a crenças irracionais e antiquadamente preconceituosas – enquanto usufruímos de produtos das engenharias mais sofisticas – seja culpa da nossa alienação em amplo sentido. Vivemos na superfície de tudo. Assim como não sabemos praticamente nada do que existe internamente e como funciona eletronicamente um telefone celular (apenas apertamos os botões na superfície do teclado ou tela), assim também não sabemos praticamente nada sobre as bases históricas, psicológicas e sociológicas da fé em, por exemplo, Nossa Senhora Aparecida. Em plena procissão a Santa, ligamos para nossa avó, para saber se tudo está bem em casa. Em ambos os casos – caminhar num evento que reverencia uma virgem que concebeu imaculada e usar o sistema de telefonia móvel – o nosso nível de consciência da complexidade envolvida no que está acontecendo é baixíssimo; nossa ignorância – no sentido técnico de falta de conhecimentos – é altíssima. Agimos como macacos puxando alavancas para ganhar uma banana.
Acho que o potencial humano vai muito além de puxar alavancas. Somos analfabetos funcionais na leitura das coisas que nos rodeiam. Precisamos urgente de um “mobral” científico-histórico-filosófico para entender o que de fato está sendo dito; não só assinar o nosso nome em documentos que não sabemos o conteúdo.
***Ao se referir a políticos e burocratas fundamentalistas na cabeça de governos como o do Paquistão, o jornalista Christofer Hitchens, em seu livro “Deus não é grande – como a religião envenena tudo” (Ediouro, 2007), uma denúncia veemente contra o obscurantismo e sectarismo religiosos, diz o seguinte:
“É uma ironia trágica e potencialmente letal que aqueles que mais desprezam a ciência e o método de livre investigação tenham sido capazes de surrupia-lo e incorporar os produtos sofisticados dele a seus sonhos doentios [de morte e destruição em massa].”
Calendário maia, fim do mundo e sorvete na testa
Nem mesmo a prestigiada revista brasileira de divulgação científica, a Ciência Hoje, escapou das confusões sobre as “profecias” do 21 de dezembro. Confusões estas que ficam à beira, por um lado, da histeria e, por outro, da piada. Estamos diante do “fim do mundo”, baseado no que estaria inscrito num calendário de nativos mesoamericanos, os maias.
Em sua edição número 295, ao abordar o assunto – “2012, afinal, é o fim do mundo?” – a Ciência Hoje publicou em sua capa o que deveria ser uma pedra esculpida, se referindo ao tal calendário maia. Na edição posterior, os editores reconheceram o “furo”: se tratava de uma imagem de um objeto... asteca... Não foi culpa do autor da matéria. O próprio banco de imagens de onde foi comprada a ilustração catalogava como “calendário maia”. Falhou a revista em checar isso muito bem. Em todo o caso, a matéria é boa e vai abaixo o link para quem quiser ler o que está no site da publicação.
Se a Ciência Hoje, uma revista sob responsabilidade da SBPC, uma tradicional organização de cientistas renomados, atuando pelo desenvolvimento da ciência ; se este pessoal não fez a revisão devida e deixou passar tamanho engano, fico pensando quanta bobajada está sendo dita, mostrada e repetida por aí. Aos enganos por lapsos e desconhecimento, some-se o que estão produzindo os “espertos”, sempre a fim de explorar esta nossa atávica nostalgia judaico-cristã do apocalipse. Vendem-se manuais, amuletos, “programas de salvação” etc. E mesmo sabendo que se trata de mais um sorvete na testa, daqueles de duas bolas grandes (chocolate e morango), socamos a guloseima com um sorriso cândido, prenhes de esperanças infantis...
O fato é que no dia 21 de dezembro (daqui dez dias!) vai ser aquela mesmice mundial: acidentes, assassinatos, tempestades – um desfile de tragédias maiores e menores trazidas pela imprensa. Alguns vão dizer que “Está aí, começou, mesmo, o fim do mundo!” – e não vai adiantar nada ponderar coisa alguma. Quem quer acreditar, vai acreditar, e quando chegar o frustrante vigésimo primeiro dia do último mês do ano... vai embarcar em alguma desculpa (adiou-se o fim do mundo por conta de uma intervenção de Asthar Sharan, por exemplo). E logo-logo se terá mais uma previsão de armagedom e um bom tempo para se comprazer com a mais nova (e mórbida) esperança de que – “desta vez pra valer” – tudo vai acabar, enfim...
Afora os “apocalípticos clássicos”, há os que são adeptos – ou acabaram aderindo, tal a evidência da bazófia – para ideias não das explosões cinematográficas, da morte em massa, de gritos e uivos, mas de “uma nova era”, um novo ciclo... Bem, um novo ciclo começa todos os dias com a rotação da Terra e toda a coreografia (ia dizendo dança) dos planetas, estrelas, satélites naturais etc. que compõem a nossa galáxia e o universo que conhecemos. Todos os dias o mundo “termina” e “recomeça”, Sol e Lua, claro e escuro, vigília e sono, pintassilgos e morcegos... Não seria uma boa aproveitar isso e renovar a nós mesmo a cada transposição do dia e da noite; quem sabe buscar ir mais adiante em nossos esforços por conhecimentos embasados, ajudando a construir uma civilização mais harmônica, sem apelos patéticos ao irracionalismo e a emocionabilidade?
Acho que muito dessas expectativas “bíblicas” são geradas por insatisfação e angústia. Muitas pessoas não gostam de suas vidas e se sentem pressionadas por um mundo muitas vezes duro, cheio de injustiças e desgraceiras várias (crianças sendo prostituídas, florestas nativas desmatadas, autoflagelação em nome de Jesus...), onde estamos cheios de “responsabilidades” – contas a pagar, um chefe chato, enxaqueca, segundas-feiras etc. Um belo fim do mundo seria uma oportunidade de “zerar” as coisas e reiniciar tudo de novo!
***Quem puder, leia a matéria da Ciência Hoje que me referi: uma das coisas interessantes é a desmistificação da “harmonia” dos povos antigos da mesoamérica. Os maias, por exemplo, que não estão “extintos”, entraram em decadência por contas de guerras de poder e destruição ambiental. Estão longe desta ideia de uma civilização de sábios, zens, “evoluídos”. Óbvio que a grandiosidade de cidades, seus monumentos, técnicas de escultura, arquitetura, avanços na agricultura, na escrita, na astronomia, entre outros, são admiráveis. Mas também havia uma profusão de sacrifícios humanos, tortura e antropofagia rituais, ou seja, muito sangue, carne e vísceras humanas para aplacar deuses e saciar fomes.
http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2012/295/2012-afinal-e-o-fim-do-mundo
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