segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Hoje chegamos a Marte mais uma vez

Hoje de madrugada, 06 de agosto de 2012, a sonda-robô Curiosity (imagem de divulgação) pousou em Marte, numa manobra complexa. Vai desenvolver vasto estudo durante um ano marciano (equivalente a 687 dias na Terra). A Curiosity faz parte de uma série de sondas que há décadas estão investigando Marte. Trata-se de algo “bem mais em conta” do que se usar astronautas, como se fez na Lua até 1972. Mais barato, menos arriscado, menos traumático em caso de falhas fatais.

A Curiosty é o auge da exploração de satélite naturais e planetas, tal sua envergadura e possibilidades. São os humanos que chegam com seus instrumentos em confins inimagináveis para nossos antepassados de poucas gerações, atestando a evolução tecnológica possibilitada pela ciência humana.

Uma pena que não muitos se dão conta de quanto trabalho e saber se condensam num aparato como a Curiosity. Não raro, nossa “curiosidade” não vai além de superfícies ou se embrenha em caminhos onde o obscuro dá uma falsa noção de profundidade.

Segue um link com a notícia:

http://www.jb.com.br/ciencia-e-tecnologia/noticias/2012/08/06/sonda-de-us-25-bilhoes-pousa-com-seguranca-em-marte/

Não, o homem não foi a Lua... mas lobisomem existe, sim!


Pessoal,

Segue o meu comentário, aproveitando os 40 anos da última “descida” de astronautas americanos na superfície lunar, que vai se completar no mês de dezembro (se é que o mundo não vai pro brejo antes – hehe!!). “Descida” esta que tem despertado muitas polêmicas, com uma corrente acreditado que houve uma grande falsificação da tal presença humana no satélite natural da Terra.

Aceito contrapontos!


Há quase 40 anos atrás, em dezembro de 1972, encerravam-se as missões do projeto Apollo. “No total, foram feitas onze missões tripuladas no projeto Apollo, e seis delas pousaram na Lua, no total de doze astronautas que caminharam no solo lunar e lá fizeram experimentos científicos", registra a página em português da Wikipédia (indicação abaixo).

Além das missões específicas Apollo (começando pela fase de testes da Apollo 1, 4, 5 e 6), houve 20 (vinte) anteriores, que também testaram várias situações e equipamentos, aperfeiçoando as condições para as expedições lunares tripuladas e a descida na Lua, além de duas posteriores, antes da desativação completa do projeto Appolo – projeto este levado pela Nasa com extremo sucesso e grandes avanços tecnológicos e no entendimento astronômico, da formação planetária etc. (Outro sucedâneo é o próprio despertar do movimento ecológico e da internalização de uma visão global dos problemas humanos, ao se ter registros da “bolinha azul” lá do alto, fotografia que correu o mundo, tirada na última missão na Lua, a Apollo 17; não havia mais dúvida sobre a situação que vivíamos: um belíssimo planeta em meio ao inóspito e infinito espaço.)

Não há mistério maior na desativação do programa, já que a “Corrida Espacial” estava praticamente vencida pelos EUA e as prioridade político-econômicas mudavam no desenrolar dos anos de 1970. No artigo sobre a quase trágica missão Apollo 13 publicado no livro “1001 Dias que Abalaram o Mundo” (editora Sextante, 2009), há um parágrafo que sintetiza a questão:

“As missões à Lua foram determinadas por razões fundamentalmente políticas, num momento em que os Estados Unidos pareciam estar sendo vergonhosamente ultrapassados pela União Soviética na exploração do espaço. No entanto, a melhoria das relações americano-soviéticas – para não falar dos custos crescentes – levou os Estados Unidos a reavaliarem seu programa espacial. As missões lunares foram encerradas depois do retorno bem-sucedido da Apollo 17, em 1972.”

As “teorias da conspiração” muitas vezes parecem se focar na missão Apollo 11 (quando se trata, como dissemos, de um programa muito mais amplo); os adeptos acham improvável um nível tecnológico para a chegada de humanos na superfície lunar. Não consideram a enormidade dos recursos investidos e esforços científico-tecnológicos e a diversidade das evidências da “alusinagem” de homens na Lua a partir de 1969 – num total de 12 pessoas pisando o solo lunar em 6 missões tripuladas, como já mencionando. A “manipulação da Nasa” deveria ser altamente complexa e envolver milhares (ou milhões) de registros – incluindo filmes, fotos, objetos, documentos etc. Me parece até insano tala nível e volume de manipulações. Quantas pessoas teriam que guardar segredo? Algum astronauta ou técnicos, entre centenas envolvidos no longo projeto Apollo, “desconfirmou” o pouso na Lua? A agência espacial da União Soviética (Roskosmos) denunciou alguma falcatrua? Vão me dizer que o complô envolve EUA e URSS?

Particularmete, fico pensando qual é a avaliação dos “conspirativos” quando estão a bordo de um Boing 747 ou Airbus A380, que pode carregar 845 passageiros, numa altitude 15 mil e 200 metros, atingido 970km/h, atravessando os céus de Londres a Buenos Aires em poucas horas (como é o caso de uma das rotas aéreas que observo todos os dias lá da minha casa)? Acham isso improvável também? Trata-se de alguma enganação? Uma indução por meio de alguma droga que aplicam nos passageiros, fazendo-os sonhar que viajaram dessa maneira? Não percebem que voar num avião assim é apenas uma amostra das possibilidades da tecnologia humana já desenvolvidas? Não assistem TV via satélite? Ou satélite é outra baboseira para enganar os trouxas? Ora, a tecnologia usada nas missões Appolo eram tão de ponta, sem necessidade de viabilizá-las comercialmente, com fins militares em primeiro lugar, que ainda hoje não foram superadas.

Francamente... Acham-se sombras e outros elementos supostamente contraditórios em imagens de astronautas na superfície lunar, e tais imagens duvidosas – quem sabe, estas, sim, manipuladas – acabam convencendo muitos de que, “definitivamente o homem não foi a Lua” – mas, ao mesmo tempo, muitos destes mesmos “o-homem-não-pisou-na-lua” têm plena certeza da existência de lobisomens e mulas-sem-cabeça...

Não que não haja uma gama de coisas a que somos induzidos a acreditar; não que não existam enganações. Mas acho que é necessário se pesquisar muito e buscar sempre informações fidedignas, não caindo no sensacionalismo barato, fruto de má-fé ou da mente doentia.


* Na Wikipédia em português tem um bom apanhado sobre a projeto Apollo, que recomendo como dados confiáveis, com boas referências comprováveis e vários hipertextos e links complementares:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Projecto_Apollo


** Sobre a Teoria da Conspiração, há um bom e resumido apanhado no portal Terra:

http://www.terra.com.br/noticias/infograficos/homem-na-lua/teoria-02.htm


Abraços!

Iuri


# Como eu disse, não dá para ser ingênuo e achar que não há um jogo medonho por detrás de muitas coisas. Há hipótese bem interessante. Particularmente, nunca tive muita paciência para ver os “erros” nas fotos e vídeos. Suponho que vários “erros” podem ser plantados por pessoa que, não sei bem porquê, tem um gosto especial em burlar e “inventar histórias”. E o que era uma “brincadeira” se torna uma polêmica com ares de seriedade.

## A essência prece ser esta: alguém faz uma brincadeira, como a de "inventar" um "registro antiguíssimo de discos voadores em uma caverna", que se torna um “mistério” e que alguns (ou muitos) passam a dar alto crédito, mesmo diante da fragilidades das evidências. E disso pode surgir até uma nova igreja!

### Esses dias fiquei perturbado pelo envio de um daqueles e-mails "TU DEVES REPASSAR AGORAAAARGHH!!!”, sob pena de te acontecer alguma desgraça. Minha perturbação ficou por conta de quem estava me enviado aquilo: uma pessoa com doutorado e professor universitário... Vai o comentário que fiz na ocasião:

Aí está o e-mail [não está reproduzido aqui neste post]...

Começa por dizer que se trata de uma foto, quando é um desenho – obviamente de Jesus, conforme o estereótipo. Interessante que essa figura, que representa o amor incondicional, a bondade encarnada, a suprema compaixão... caso tu não a repasses, desencadeará uma grande desgraça na vida do preguiçoso, desatento ou cético internauta...

Referências como a de ter aparecido "até no Fantástico", um presidente da Argentina, uma pessoa chamada Alberto Martines (imaginei-o um mexicano ou costa-riquenho)... a referência a "o poder Ele tem", "milagres", ganhar na loteria, o prazo de "13 dias"... tudo isso me espanta pela superstição, o obscurantismo envolvidos; a crendice mais simplória e, aí é o ponto, ao que parece, compartilhada por pessoas com doutorado, profissionais bem remunerados da área da educação superior... Não, não é exatamente (ou somente) uma crítica: é uma vontade de entender o que está acontecendo... Me parece, também, um contradição - algo que se choca ao propósito do saber desenvolvido nas academias, no ensino e pesquisa universitárias, que, acho eu, justamente se estabelece para não sermos submetidos pela irracionalidade (mesmo que se possa dizer que o humano seja por natureza 98% irracional, e coisas como a religião não sejam necessariamente ruins, um mal, mas estratégias de conforto e compreensão do mundo aparentemente caótico em que vivemos).

Tem um cara que se chama Michael Shermer, articulista na Scientific American (já vi uns pedaços de palestras dele no Youtube) e editor de uma outra revista famosa, a Skeptic Inquirerer. Bem, ele diz que "sua intenção não é subestimar as pessoas que acreditam em 'coisas estranhas', mas sim entender por que elas acreditam" naquilo, sem cair num "dogmatismo científico". Nessa questão da "Foto de Jesus" eu estou por aí.

Outro ponto que também me surpreende, aí de um modo mais geral, é a nossa “alienação tecnológica” – e que levam pessoas a repassar mensagens que julgo estapafúrdias. Usamos inúmeros e sofisticados artefatos tecnológicos – eletrônicos, computacionais e mecânicos especialmente – sem que tenhamos uma noção ao menos básica da complexidade dos conhecimentos e habilidades humanas consubstanciadas num ato, por exemplo, de enviarmos uma mensagem via internet, anexando uma imagem ou vídeo; ou no ato de atendermos nossa mãe no celular, enquanto estamos nos deslocamos no elevador do aeroporto, onde embarcaremos numa viagem sem escala em um avião Airbus A380 de Porto Alegre até São Paulo... subjazem quase completamente esquecidos aí uma gama de fórmulas físico-matemáticas, química fina aplicada e de tantos outros conhecimentos gerados pela metodologia científica; parece que nos mantemos como crianças crédulas, despachando mensagens de um conteúdo confuso e do maior obscurantismo, da maior desconsideração aos conhecimento das diversas ciências – incluindo as humanísticas (caso da sociologia, ciência política, antropologia etc.)...


Uma ligeira leitura do texto deveria ser suficiente para alertar-nos sobre sua precariedade. E onde se esperava a sensatez, por se tratar de pessoas que trabalham em uma universidade, reduto da reflexão metódica e exaustiva, o que se vê, porém, é a mais rasa credulidade...


Há em nossas vidas uma crucial contradição, resultado do uso alienado, do “analfabetismo científico”, que nos mantém apenas na superfície, nas “interfaces” dos aparatos tecnológicos  – o teclado do celular, da tela do computador, do controle remoto da TV, da direção do automóvel, da poltrona do avião, do creme vegetal sobre a fatia do pão de sanduíche etc. parece que não temos estímulo para entender “o que está pro trás”, qual a “magia” que está ali... Por certo isso exige um certo esforço intelectual (talvez aí esteja um dos nós da questão...), mas tal empenho revelaria que não há magia propriamente, mas um preciso funcionamento derivado de um enorme esforço acumulado de saberes.

Desenhos de 30 mil anos



Pessoal,

Achei muito bacana um artigo – que segue mais abaixo – falando de um documentário, que deve ser igualmente muito bonito (vou tentar conseguir o DVD – segue no final um link para a sinopse e trailer do filme).

“A Caverna dos Sonhos Perdidos” é dirigido e narrado pelo famoso cineasta alemão Werner Herzog. Fala sobre os desenhos feitos há 30 mil anos, achados não faz muito, em 1994, no sul da França, ocultos ao fundo de uma enorme caverna, chamada hoje de caverna de Chouvet (pouco conhecida em relação a outra caverna famosa por suas pinturas rupestres, a de Lascaux, também na França).

Já destaco para vocês o seguinte trecho do artigo:

“[...] perdemos nos dias de hoje esta integração com a totalidade do cosmos, com a natureza. Somos seres dissociados da totalidade, vivendo uma vida partida que se contrapõe ao mundo natural. Na escalada da nossa história, na busca do conhecimento, do esclarecimento, fomos nos afastando do mundo mágico das incursões fantásticas de nossos ancestrais, tornando-nos escravos dos ditames da ciência. Para nós, torna-se ridículo qualquer movimento nesta área, pois as tachamos próprias de sociedades primitivas e sem cultura. Observando-se tais murais, a elegância contida nos cavalos e demais animais da Caverna de Chouvet, percebemos que existe um artista em cada um de nós, em cada ser humano. Mas, como exercer essa arte num mundo tomado pela mercadoria? Como é possível integrar-se à paisagem, se todas as nossas ações foram tomadas pela economia, que controla o nosso tempo e a nossa alma?”

Uma ressalva: a expressão acima “escravo dos ditames da ciência” poderia ser substituída por outros ditames, como o “ditames de uma igreja” ou “de uma ideologia política” etc. Acho que todos os “ditames”, todo dogmatismo, toda a explicação fechada é limitadora dos potenciais humanos.

Para mim, a ciência tem um enorme potencial transcendente, que busca sempre se aprofundar, “ir além”, qualificar e expandir a compreensão do mundo, das suas coisas, do próprio ser humano. O “achamento” da caverna, aliás, é fruto do impulso científico, pois foi descoberta por três cientistas: Jean-Marie Chouvet (de onde vem o nome da caverna), acompanhado de Cristian Hillaire e Elliete Brunel, conforme está no artigo. Para quem já tem toda a explicação do universo e sentido da vida dado por uma religião, filosofia ou ideologia, por que continuar procurando?? Até porque a procura efetiva pode levar a conhecimentos destrutivos de velhas crenças ou/e de compreensões fragilmente embasadas...

Abraços!

Iuri


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A Caverna dos Sonhos Perdidos

Por Arlindenor Pedro*

Na instigante entrevista que deu ao jornalista Bill Moyers (divulgada em vídeo no Brasil em 1988), Joseph Campbell relata que ficou muito emocionado quando ele e sua mulher visitaram a caverna de Lascaux , no sudoeste francês e interagiram com as imagens dos artistas do paleolítico que deixaram imortalizadas suas obras de arte nas profundezas das grutas, nas suas paredes.

Antes tinham visitado as catedrais medievais do interior da Europa, e ele então aproveitou para fazer um paralelo entre os objetivos que motivaram os artistas que criaram os belos vitrais dessas igrejas e as imagens que encontrou dos pintores rupestres. O ambiente criado por essas figuras não cumpririam as mesmas funções? Não seriam locais de adoração aos deuses, onde os reflexos do mundo real seriam afastados e as mentes poderiam ser tocadas pelas imagens, levando o observador para o mundo do oculto, do irreal, do fantástico - o mundo dos espíritos?

Levados pelos xamãs, assim descreveu Campbell, os jovens que se iniciariam na caça desciam as profundezas da caverna e ali, em plena escuridão, que só desparecia com as luzes dos archotes, desenvolviam cerimônias de contato com os espíritos presentes nos animais que iriam abater mais tarde. As figuras desses animais, dispostas ao longo das paredes, aproveitando as protuberâncias das pedras, numa postura de movimento, iluminadas pelo fogo, tomam então vida, e como num filme, saltam aos olhos. Ao som de música ritual e fumaças de ervas inebriantes, chega-se então ao êxtase e ao desprendimento do mundo lá de fora - o rito de passagem muito presente nas sociedades primitivas. Campbell deduz, então, que esta é a razão de que essas obras, feitas pelos homens do paleolítico, se encontram, invariavelmente no fundo das cavernas, aonde não existe luz e o som do exterior. Isto é, sem a interferência do mundo real.

Tais cerimonias tornam-se incompreensíveis para nós, cidadãos das polis contemporâneas. Mas, são plenamente aceitáveis e necessárias num mundo onde se articulam os conceitos de fluidez (onde é possível uma parede falar, um animal se manifestar, um homem se transformar em uma árvore, etc.) e de permeabilidade (onde não existem barreiras entre o mundo dos espíritos e o nosso mundo, o chamado mundo real). Dessa forma, no seu êxtase, o xamã se eleva ao mundo dos espíritos e leva com ele os participantes do cerimonial.

O cineasta alemão Werner Herzog também viveu essa experiência do que nos fala Campbell. Mas, desta vez em outra caverna, a caverna de Chouvet, próximo ao rio Ardèche, no sul da França.

Esta caverna foi descoberta pelo cientista Jean-Marie Chouvet (de onde vem o nome da caverna) acompanhado dos cientistas Cristian Hillaire e Elliete Brunel, em 1994, três dias antes do Natal.

Eles estavam à procura de uma corrente de ar indicativa da presença de cavernas e toparam com uma fenda em um grande rochedo que os levou a uma das maiores descobertas cientificas de todos os tempos: uma grandiosa caverna, com cerca de 400 metros de extensão, aprofundando- se terra adentro. No seu fundo depara-se com majestosos painéis, com inúmeras pinturas, praticamente intactas, com cerca de 30 mil anos de existência.

Devido ao fato de que há algumas dezenas de milhares de anos ter ocorrido um deslizamento que tampou toda a entrada desta caverna, ela manteve-se intocada, transformando-se numa verdadeira cápsula do tempo, com a história congelada em um momento.

Herzog, ciente desta descoberta e do seu valor para a humanidade, desenvolveu um processo de negociação com o Ministério da Cultura da França conseguindo, então, o feito de ser o único cineasta que conseguiu mostrar imagens da Caverna de Chouvet, produzindo um documentário que tem um inestimável papel para o debate da formação da cultura humana e do papel dos mitos na nossa existência. Ele deu o nome ao documentário de “A Caverna dos Sonhos Perdidos”, que exemplifica bem a sua visão do que viu e queria mostrar.

O governo francês, já experiente com os problemas que surgiram em Lascaux, que teve que ser fechada devido ao mofo que surgiu nas paredes, motivado pela respiração dos turistas, montou uma política de quase total restrição de acesso ao sítio. Sua entrada está lacrada com uma porta, que lembra a porta de um banco, e a permanência no seu interior é monitorada, restringindo-se a um pequeno tempo. Desta forma, o tempo de Herzog e sua pequena equipe foi restringido ao máximo, e ele só conseguiu a licença de filmagem no interior da caverna pelo prestígio que desfruta junto aos franceses, e ao tornar o filme disponível ao público francês como elemento cultural, sem fins comerciais.

Temos então um filme muito bem acabado, escrito, dirigido e narrado por ele, com imagens em 3D, o que dá a esta obra um caráter espetacular, que merece ser visto. Destacam-se nele a fotografia, a música inquietante do violoncelo do compositor Ernest Reijseger, além do texto recitado pelo diretor, que nos leva a profundas reflexões. Uma obra que foge ao clichê dos documentários científicos, possuindo a chancela característica de um dos cineastas mais criativos do cinema contemporâneo, que sempre encarou o seu oficio de forma intuitiva e como parte da sua própria existência, nos legando uma obra extensa, onde a realidade funde-se com a ficção.

Participante do movimento do Cinema Novo Alemão e influenciado pela Nouvelle Vague francesa e do Cinema Novo do Brasil, amigo e admirador de cineastas e artistas brasileiros, como Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Milton Nascimento, e outros, Werner Herzog produziu grandes clássicos do cinema pós-guerra, filmando várias obras na América do Sul. O público brasileiro certamente conhece os filmes de 1972 “Aquire – A Cólera dos Deuses ( que retrata a natureza humana submetida a um processo limite de tensão que leva ao caos e a um total descolamento com a realidade ) e o de 1982, Fitzcarraldo (onde é vivida a determinação de um alemão que move um barco por sobre uma montanha na busca de concretizar a utopia de ver sua opera encenada em plena Amazônia). Ambos os filmes têm um elenco grandioso, com elementos estéticos inesquecíveis, onde, sem dúvidas, se destaca o polêmico ator Klaus Kinski, amigo-inimigo de Herzog. Filmes com a marca registrada do diretor, inclusive com o seu humor ácido e desconcertante nas falas de alguns personagens.

Em determinado momento do documentário, com a câmera acompanhando as sobras e luzes que emanam das figuras postas nos murais, um dos cientistas pede aos visitantes um silêncio total, para que o som da caverna se destaque. Nessa hora, chegamos a escutar o bater do coração dos visitantes. Herzog propõe então a seguinte questão: ¨será o som dos nossos corações o que escutamos, ou será o dos artistas que pintaram nessa caverna? Será que seremos capazes de compreender a visão dos artistas através desse abismo de tempo?¨.

A câmera sai então da caverna e ao som da musica incidental, nas imagens em 3D, tomamos contato com o entorno, com a exuberância do vale do rio Ardèche, e para um pórtico de pedra chamado Ponto D’Arc . Herzog diz: “há certa áurea de melodrama nesta paisagem (o rio, o marco, as árvores), retirada de uma ópera de Wagner ou de uma pintura do romantismo alemão.

Seria essa a nossa ligação com eles? Esta representação da paisagem como um evento operístico não pertence apenas ao romantismo: os homens da idade da pedra podiam ter tido a mesma percepção ao retratar essa paisagem.”

Esta é também a minha opinião.

Fica claro, é plenamente perceptível, que perdemos nos dias de hoje esta integração com a totalidade do cosmos, com a natureza. Somos seres dissociados da totalidade, vivendo uma vida partida que se contrapõe ao mundo natural. Na escalada da nossa história, na busca do conhecimento, do esclarecimento, fomos nos afastando do mundo mágico das incursões fantásticas de nossos ancestrais, tornando-nos escravos dos ditames da ciência. Para nós, torna-se ridículo qualquer movimento nesta área, pois as tachamos próprias de sociedades primitivas e sem cultura.

Observando-se tais tais murais, a elegância contida nos cavalos e demais animais da Caverna de Chouvet, percebemos que existe um artista em cada um de nós, em cada ser humano.

Mas, como exercer essa arte num mundo tomado pela mercadoria? Como é possível integrar-se à passagem [obs.: por provável falha na digitação, acredito que a palavra deveria ser “paisagem”, e não “passagem”], se todas as nossas ações foram tomadas pela economia, que controla o nosso tempo e a nossa alma?

Associamos a arte ao dinheiro e ao valor no mercado. Isto se faz com a pintura, a música, o cinema, enfim, com a tudo o que possa pertencer à “indústria cultural”.

Herzog associa a arte das cavernas a movimentos grandiosos, tais como o que nos deu Schiller e Goethe. E ele tem razão, pois a manifestação artística está associada ao mundo em que ela foi gerada. Um movimento, como o romantismo alemão, é um momento único e se deu quando almas sensíveis fizeram aflorar a sua arte a despeito das amarras sociais, avançando para um novo tempo. A percepção do ambiente estava tanto presente para os artistas alemães como para os artistas do paleolítico.

Acredito que na atualidade, com a força que tem a mercadoria e o dinheiro, que se divide o homem da natureza e o impede de ter com ela uma relação direta, isto está cada dia mais difícil de ocorrer. Dai então, a atual crise do processo criativo onde se vaticina a morte da arte.

Platão nos propõe que saiamos da caverna para conhecer a realidade, onde está a luz do sol. Mas, através das palavras de Sócrates, nos diz que somos como um rebanho de carneiros que precisam de um pastor para sobreviver. E nos diz, então, que o pastor (aquele que sabe) é quem deve conduzir as nossas vidas. Sairíamos da caverna, porém veríamos os dias com os olhos dos outros ( como fazemos no dia-a-dia com os especialistas nos meios de comunicação, que nos explicam o que ocorreu e o que ocorrerá ), acentuando a nossa postura de contemplação no mundo.

Ao contrário, acredito que devamos voltar à caverna, e pelas mãos do xamã (nesse caso o artista) devamos experimentar o êxtase diretamente, vivendo a sensação da inter-relação com a natureza e seus elementos míticos – como os jovens caçadores, dos quais nos falou Joseph Campbell. A forma de escaparmos da intermediação do mercado e do dinheiro ( que se coloca entre o homem e a natureza) é chegarmos a uma relação direta com o cosmos e experimentarmos nossas emoções num processo direto de vida-vivida.

Afinal, cada sensação na relação com o mundo é única, pois certamente cada jovem caçador reagia à sua maneira aos estímulos dos espíritos da caverna.

Serra da Mantiqueira, junho de 2012.

*Arlindenor Pedro – é professor de história, funcionário público e especialista em Projetos Educacionais. Anistiado por sua oposição ao Regime Militar, atualmente dedica-se à produção de flores tropicais na Região das Agulhas Negras.

E-mail para contatos : arlindenor@newageconsultores.com.br

Blog: arlindenor. wordpress.com


Link com sinopse e o trailer:

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Bóson, Gleiser e os ufólogos


Olá,

Compartilho com todos o comentário que fiz para o Bala, ajeitando e acrescentando mais algumas informações. É sobre o artigo do Marcelo Gleiser sobre o Bóson de Higgs, publicado esses dias na Folha de São Paulo (em 08/07, “Encontrado o bóson de Higgs” – procurem na internet, por favor), onde o físico é articulista. Havia dito que o texto era “Muito bom. Sintético, claro. Dá para entender de forma muito rápida o que aconteceu, o que é o tal bóson e suas consequências”:

Sei que vários ufólogos e ufologistas têm ojeriza ao Gleiser, por suas contrariedades às teses como a da procedência extraterrestre dos agroglifos. Carl Sagan faz a mesmíssima coisa em seu (excelente!) livro “O mundo Assombrado pelos Demônios”, talvez até com mais veemência, denunciando barbaridades categorizadas como “ufologia”. Acho que Sagan jamais visitou um agroglifo... (Eu tenho aqui o artigo em que o Gleiser fala dos agroglifos, “Agroglifos: mensagens ou fraude?” – mas, mais uma vez, solicito que digitem num procurador na internet se quiserem lê-lo, para evitar problemas de copyrights com a Folha, OK?)

Tanto Sangan como Gleiser são professores e pesquisadores para lá de capacitados. Não dá para esquecer que Gleiser dá aulas de Física e Astronomia numa das mais antigas (fundada em 1789) e importantes universidade dos EUA, a Dartmouth College, instituição à frente, inclusive, da todo-poderosa Harvard. Ele fez seu doutorado no King's College London, sendo pesquisador da Nasa e do Institute for Theoretical Physics da Califórnia, entre vários outros. Ou seja, o cara não é “qualquer coisa”! Hehe!!  Ao menos é uma “coisa” com doutorado e conhecedor da Nasa como poucos, agência esta que, como todos sabem, é referência quando se fala em tecnologia, astrobiologia, astrofísica etc.

Concordo que tem gente muito do preconceituosa em relação às hipóteses e teses da ufologia. Gosto de caras como o Erich von Däniken (para mim, o ufólogo prototípico em vários sentidos), que se colocam como um construtor de hipóteses, um provocador do pensamento, e não como alguém que tem uma prova cabal sobre ETs.

Danikem, no seu artigo “Onde fui mal interpretado por meus críticos”, publicado no livro “Vieram os deuses de outras galáxias” (editora Melhoramentos, 1972), coletânea de artigos de 16 cientistas, compiladas pelo jornalista alemão Ernst von Khuon, diz o seguinte:

“A questão primária levantada em minhas obras [caso de “Eram os deuses astronautas?”] não é a de quem tem razão, pois jamais tive a menor dúvida de que, segundo o critério científico, eu ainda não podia estar com a razão, em base do material apresentado. Minha pergunta foi formulada da seguinte maneira: Poderia ter sido assim.”

Como já opinei outras vezes, aí está a principal colaboração da ufologia: trazer elementos apoiando a hipótese de seres extraterrestres inteligentes contatando com a Terra e os terráqueos. Infelizmente, quando as hipóteses são substituídas por “certezas”, sem que se tenha elemento (mínimo que sejam) de comprovação genuinamente científica, os ufólogos acabam entrando (e tem todo o direito de fazerem isso) na seara dos beatos, crentes, pastores e profetas, (porém) abrindo mão de, ao menos, estarem desenvolvendo uma paraciência respeitável e útil para avançar o conhecimento humano, não se somando ao obscurantismo contra o qual caras como Carl Sagan tanto se debateram.

Abraços!

Iuri

PS: Acho que às vezes, para alguns ufologistas, Glaiser (e outros) é como aquele estraga-prazer, que vem para a criança e diz em tom zombeteiro e amargo que Papai Noel não existe... Já Sagan foi um cara tão simpático, inteligente e comunicativo que nem os ufologistas mais “crentões” o afrontam; pelo contrário, há quem queira fazê-lo um ufólogo, atestando que, ou não leram a sua obra, ou agem de má fé, tentando capitalizar-se com o vínculo com um cientista que denunciou as fragilidades e enganações que se fazem, abusando da “vontade de acreditar” de muita gente.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

"Prometheus", o que aconteceu antes de "Alien - O Oitavo Passageiro" e sua ligação com “Eram Os Deuses Astronautas?”

Na segunda-feira passada (18/06/12) li a entrevista do diretor Ridley Scott sobre seu último filme, “Prometheus”, um episódio anterior ao mitológico (e jamais superado nas suas sequencias, dirigidos por outros diretores) “Alien – O Oitavo Passageiro”.

Algo que me chamou a atenção foi a menção ao escritor e ufólogo Erik Von Däniken (ilustração acima: photographed 19-October-2006 por Michal Maňas). Está aí mais uma prova de sobrevivência e fôlego das obras desse famoso estudioso suíço, mais conhecido pelo best-seller mundial “Eram Os Deuses Astronautas?”. E também numa prova da extensão dos leitores Däniken e sua influência na cultura de massas, no pensamento de inúmeras e diversas pessoas, caso do próprio diretor de “Promettheus” e “Alien”.

Gostei do que disse Ridley Scott, porque ao não endossar como “fatos verídicos”, não descarta hipóteses diretas e indiretas derivadas do livro de Däniken.


O repórter indaga Scott sobre o atual filme “Prometheus”:

- Erik Von Däniken escreveu um monte de livros sobre os deuses astronautas. Foi uma influência?

Responde Scott:

- Ninguém o levava a sério, do ponto de vista científico, mas muitas hipóteses que levantou permanecem sem respostas e não podem ser descartadas. Parte disso veio para o filme, sim.


(FONTE: http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-lazer/segundo-caderno/noticia/2012/06/confira-entrevista-com-o-diretor-de-prometheus-ridley-scott-3792939.html)


Também em Zero Hora, numa reportagem de dias anteriores (07/06/12) sobre o lançamento do filme, o jornalista Marcelo Perrone abre o texto justamente com o título do livro de Däniken, ou seja,


Eram os deuses astronautas?

"Prometheus" marca o retorno de Ridley Scott ao universo de "Alien"



Perrone diz que há “enorme expectativa com a volta de Ridley Scott à ficção científica, 30 anos após o diretor se consagrar com duas obras-primas do gênero, Alien – O Oitavo Passageiro e Blade Runner – O Caçador de Androides, [que agora] chega ao fim diante de Prometheus”. (FONTE: http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-lazer/segundo-caderno/noticia/2012/06/prometheus-marca-o-retorno-de-ridley-scott-ao-universo-de-alien-3783177.html)

Na abertura da entrevista mencionada anteriormente, é dito: “Durante muito tempo se falou no retorno do diretor a seu filme mítico, Alien – O Oitavo Passageiro, de 1979. O próprio título, Scott reconhece, é simbólico. Prometeu, o herói mitológico, roubou o fogo de Zeus para dá-lo aos homens e foi punido pelo deus. Prometheus, o filme, parece que vai responder ao enigma de Alien e lança novas perguntas.”

“Lançar perguntas!” Eis, na minha opinião, a principal colaboração da ufologia. Uma pena que tantos “ufólogos”, afoitos (afoitólogos?), já querem trazer as “respostas”, muitas vezes de um primarismo intelectual que nem a pior ficção científica é capaz de conceber. Filmes com os de Ridley Scott fazem da ficção uma prospecção o íntimo do micro e do macrocosmos humanos.


*** Erik Von Däniken, do alto dos seus 76 anos, talvez seja o mais afamado e prototípico ufólogo existente – alguém que não é um pesquisador acadêmico, ne de formação universitária, mas que, pelo autodidatismo, diletantemente se preparou e se empenhou em levantar hipóteses a partir de suas observações, tendo uma enorme produção de livros e outras derivações. Recomendo a entrevista dele, que saiu no SwissInfo no ano passado:

http://www.swissinfo.ch/por/reportagens/Erich_von_Daeniken:_O_mundo_nao_acaba_em_2012.html?cid=30620348

terça-feira, 19 de junho de 2012

"O melhor filme de alienígenas da história do cinema" completou 30 anos de lançamento


Falando em moldagem do imaginário, completou-se na semana passada 30 anos da estreia nos cinema de ET, O Extraterrestre, outro clássico emplacado pelo diretor Steven Spielberg.

Olha o que diz a reportagem do portal Terra:

“O drama do pequeno extraterrestre E.T., perdido na Terra e empenhado em telefonar para sua casa, comoveu milhões de espectadores há 30 anos, tempo em que se consolidou como o melhor filme de alienígenas da história do cinema. E.T.: O Extraterrestre estreou nos Estados Unidos em 11 de junho de 1982, poucos dias após ser apresentado no Festival de Cannes, entre os aplausos da crítica e do público.  A produção foi um sucesso de bilheteria e recebeu nove indicações ao Oscar - entre elas as de melhor filme, direção e roteiro - levando quatro prêmios: melhores efeitos especiais, melhores efeitos sonoros, melhor som e trilha sonora original, com a inesquecível composição de John Williams.”

Definitivamente, pelo tremendo sucesso do filme – e que continua emocionando as pessoas em seus relançamentos periódicos e nos infindávei downloads e locações – , os extraterrestres são incorporados no imaginário da humanidade de uma forma massiva (proporcionado pela abrangência global da indústria cultural americana). Não como seres malignos, mas empaticamente, como já aconteceu através de outro filme do “mago” Spielbeg, o “Contatos Imediatos”. Já, filmes como “Alien, o 8º passageiro” (outro clássico sensacional, este de Ridley Scott), apresentam a figura de um ser extreterrestre de forma assustadora, ameaçadora, cruel. Spielberg constrói a ideia da possibilidade não só do contato, mas da amizade, da colaboração, da harmonia entre humanos e ETs.

No “mundo da ufologia”, a ficção literária e o cinematográfica são uma base psicológica importantíssima para entendermos (e explicarmos) boa parte dos relatos ufológicos – avistamentos, abduções, enfim, contatos.

***Acima, ilustração com a nave que vem regatar o E.T. do filme. Em sua configuração, elementos já estabelecidos do imaginário para um veículo de viagem espacial, e, ao mesmo tempo, que, pela divulgação massiva, estabelece um padrão que bem possivelmente confugura relatados como avistamentos tidos como "reais".

terça-feira, 5 de junho de 2012

Para pensar

Segue umas anotações que fiz do livro do geneticista Richard Dawkins (foto acima), professor britânico na Universidade de Oxford, autor de inúmeras obras, onde se inclui “The God delusion”, afamado no Brasil pelo título “Deus, uma ilusão”.

Independente de descrenças ou crenças, sempre é interessante escutar pessoas que nos fazem pensar. No “mundo ufológico” (“Ufo World”... assim como Disney World...), acho bom puxar o apito do trem, alertando os incautos ou bêbados (ou até os potenciais suicidas) para os cuidado nos cruzamentos ferroviários...

Na minha opinião, Dawkins é um bom apito:


- Vejo o esforço humano para entender o universo como um empreendimento de modelismo. Cada um de nós constrói, dentro de nossa cabeça, um modelo do mundo em que vivemos. O modelo mínimo do mundo é o modelo de que nossos ancestrais precisavam para sobreviver  nele. O software da simulação foi construído e aperfeiçoado pela seleção natural, e funciona melhor no mundo que nossos ancestrais da savana africana conheciam: um mundo tridimensional de objetos materiais de dimensões médias, movendo-se em velocidades médias proporcionalmente entre si. Num bônus inesperado, nosso cérebro revelou-se poderoso o suficiente para acomodar um modelo de mundo muito mais rico que o mundo medíocre e utilitarista de que nossos ancestrais precisavam para sobreviver. A arte e a ciência são manifestações desse bônus. p.458

- O que vemos do mundo real não é o mundo real intocado, mas um 'modelo' do mundo real, regulado e ajustado por dados sensoriais – um modelo que é construído para que seja útil para lidar com o mundo real. A natureza desse modelo depende do tipo que somos. Um animal que voa precisa de um modelo de mundo diferente do de um animal que anda, que escala ou que nada. p.471


- [Sam Harris em The end of faith diz que] O perigo da fé religiosa é que ela permite a seres humanos normais colher os frutos da loucura e considerá-los 'sagrados'. Como cada nova geração de crianças aprende que as proposições religiosas não precisam ser justificadas, como todas as outras precisam, a civilização ainda está sitiada pelos exércitos dos irracionais. Estamos, agora mesmo, nos matando por causa de literatura da Antiguidade. Quem imaginaria que uma coisa tão tragicamente absurda seria possível? p.358-359


- [Gore Vidal diz que] O grande e indizível mal no cerne de nossa cultura é o monoteísmo. A partir de um texto bárbaro da Idade do Bronze, conhecido como Antigo Testamento, evoluíram três religiões anti-humanas – o judaísmo, o cristianismo e o islã. São religiões de deus-no-céu. São, literalmente, patriarcais – Deus é o Pai Onipotente –, daí o desprezo às mulheres por 2 mil anos nos países afligidos pelo deus-no-céu e seus enviados masculinos terrestres. [...] A mais antiga das três religiões abraâmicas [ou seja, fundadas pelo patriarca bíblico Abraão], e a clara ancestral das outras duas, é o judaísmo: originalmente um culto tribal a um Deus único e desagradável, que tinha uma obsessão mórbida por restrições sexuais, pelo cheiro de carne queimada, por sua superioridade em relação aos deuses rivais e pelo exclusivismo de sua tribo desértica escolhida. Durante a ocupação romana da Palestina, o cristianismo foi fundado por Paulo de Tarso como uma seita do judaísmo menos intrasigentemente monoteísta e menos exclusivista, que olhou além dos judeus e para o resto do mundo. Vários séculos depois, Maomé e seus seguidores retomaram o monoteísmo inflexível do original judaico, mas não seu exclusivismo, e fundaram o islamismo a partir de um novo livro sagrado, o Corão, ou Qur'an, acresscentando uma forte ideologia de conquista militar à dimensão da fé. O cristianimso também foi disseminado pela espada, primeiro nas mãos romanas, quando o imperador Constantino o elevou de culto excêntrico a religião oficial, depois nas dos cruzados e depois nas dos conquistadores e outros invasores e colonizadores europeus, com acompanhamento missionário. p.63-64


- Os fundamentalistas sabem que estão certos porque leram a verdade num livro sagrado e sabem, desde o começo, que nada os afastará da crença. A verdade do livro sagrado é um axioma, não o produto final de um processo de raciocínio. O livro é a verdade e, se as provas parecem contradizê-lo são as provas que devem ser rejeitadas, não o livro. p.362


***Como um certo contraponto, fiz o seguinte comentário, usando um poucos as ideias de um outro pensador, Alain de Botton:

Acredito que diante da nossas fragilidades, abraçar uma religião é algo muito reconfortante em certas situações ou alturas das nossas vidas. Mas é também aceitar um limite, uma autoridade, e se submeter a ela.

A religião tem isso de agregar as pessoas, fazê-las compartilhar, se sentirem aconchegadas e felizes com um futuro bom e sem fim, nem que seja após a morte.

Estou lendo uns livros de um filósofo (suíço, morando na Inglaterra) chamado Alain de Botton. Excelente. Gostoso de ler. Com erudição, mas sem pedantismo, e abordando coisas como... uma fábrica de biscoito nos arredores de Londres, a pesca de salmão nas maldivas, que é o caso de Prazeres e Desprazeres do Trabalho.

Na cabeceira, degustando aos poucos, o Desejo de Status - um destrinchamento das nossas neuroses advindas da inveja, da competitividade entre pares e do absurdo de pautar a vida em espectativas ditadas pelo consumo...

Na lista desse autor, está o Religião para Ateus...

Quando der, olhem (abaixo) a resenha e já vejam que interessante a abordagem dese Alain, um ateu vendo a religião em sua positividade ou utilidade - até para descrentes totais...


Religião para ateus

Alain de Botton

Em Religião para ateus, o filósofo - e ateu obstinado - Alain de Botton discute o principal erro do ateísmo moderno: negligenciar os aspectos relevantes das religiões após o descarte dos princípios centrais das fés. Embora, em um primeiro momento, a discussão a respeito da existência ou não de Deus possa ser considerada como um divertido exercício, ao observar os ritos e conceitos morais que regem as religiões, o autor propõe um passo adiante. Dissecadas, crenças, como cristianismo, judaísmo e budismo, podem ser compreendidas como arcabouços éticos estruturados por nós para atender à demanda humana de viver em comunidade, controlando sua tendência à violência, estimulando hábitos essenciais, como a compaixão e o perdão, e reconfortando mente e corpo diante do sofrimento.

Com uma linguagem acessível e provocativa, Alain de Botton discute como as religiões são sábias por não esperar que lidemos sozinhos com nossas emoções e sugere como a sociedade contemporânea pode fazer uso dessas ferramentas para mitigar alguns dos males mais persistentes e negligenciados da vida secular. Ao descartar os dogmas e o sobrenatural, o autor propõe o resgate de uma sabedoria que pertence a toda humanidade, inclusive aos mais céticos.


FONTE: www.intrinseca.com.br