Na segunda-feira passada (18/06/12) li a entrevista do diretor Ridley Scott sobre seu último filme, “Prometheus”, um episódio anterior ao mitológico (e jamais superado nas suas sequencias, dirigidos por outros diretores) “Alien – O Oitavo Passageiro”.
Algo que me chamou a atenção foi a menção ao escritor e ufólogo Erik Von Däniken (ilustração acima: photographed 19-October-2006 por Michal Maňas). Está aí mais uma prova de sobrevivência e fôlego das obras desse famoso estudioso suíço, mais conhecido pelo best-seller mundial “Eram Os Deuses Astronautas?”. E também numa prova da extensão dos leitores Däniken e sua influência na cultura de massas, no pensamento de inúmeras e diversas pessoas, caso do próprio diretor de “Promettheus” e “Alien”.
Gostei do que disse Ridley Scott, porque ao não endossar como “fatos verídicos”, não descarta hipóteses diretas e indiretas derivadas do livro de Däniken.
O repórter indaga Scott sobre o atual filme “Prometheus”:
- Erik Von Däniken escreveu um monte de livros sobre os deuses astronautas. Foi uma influência?
Responde Scott:
- Ninguém o levava a sério, do ponto de vista científico, mas muitas hipóteses que levantou permanecem sem respostas e não podem ser descartadas. Parte disso veio para o filme, sim.
(FONTE: http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-lazer/segundo-caderno/noticia/2012/06/confira-entrevista-com-o-diretor-de-prometheus-ridley-scott-3792939.html)
Também em Zero Hora, numa reportagem de dias anteriores (07/06/12) sobre o lançamento do filme, o jornalista Marcelo Perrone abre o texto justamente com o título do livro de Däniken, ou seja,
Eram os deuses astronautas?
"Prometheus" marca o retorno de Ridley Scott ao universo de "Alien"
Perrone diz que há “enorme expectativa com a volta de Ridley Scott à ficção científica, 30 anos após o diretor se consagrar com duas obras-primas do gênero, Alien – O Oitavo Passageiro e Blade Runner – O Caçador de Androides, [que agora] chega ao fim diante de Prometheus”. (FONTE: http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-lazer/segundo-caderno/noticia/2012/06/prometheus-marca-o-retorno-de-ridley-scott-ao-universo-de-alien-3783177.html)
Na abertura da entrevista mencionada anteriormente, é dito: “Durante muito tempo se falou no retorno do diretor a seu filme mítico, Alien – O Oitavo Passageiro, de 1979. O próprio título, Scott reconhece, é simbólico. Prometeu, o herói mitológico, roubou o fogo de Zeus para dá-lo aos homens e foi punido pelo deus. Prometheus, o filme, parece que vai responder ao enigma de Alien e lança novas perguntas.”
“Lançar perguntas!” Eis, na minha opinião, a principal colaboração da ufologia. Uma pena que tantos “ufólogos”, afoitos (afoitólogos?), já querem trazer as “respostas”, muitas vezes de um primarismo intelectual que nem a pior ficção científica é capaz de conceber. Filmes com os de Ridley Scott fazem da ficção uma prospecção o íntimo do micro e do macrocosmos humanos.
*** Erik Von Däniken, do alto dos seus 76 anos, talvez seja o mais afamado e prototípico ufólogo existente – alguém que não é um pesquisador acadêmico, ne de formação universitária, mas que, pelo autodidatismo, diletantemente se preparou e se empenhou em levantar hipóteses a partir de suas observações, tendo uma enorme produção de livros e outras derivações. Recomendo a entrevista dele, que saiu no SwissInfo no ano passado:
http://www.swissinfo.ch/por/reportagens/Erich_von_Daeniken:_O_mundo_nao_acaba_em_2012.html?cid=30620348
Posto aqui cometários pessoais sobre acontecimentos e outras reflexões que ligo à ufologia - pela qual nutro várias simpatias. Com apreensão, observo cada vez mais o interesse e o estudo sobre vida e a inteligência fora da Terra e além da humanidade derivar, dentro dos meios chamados "ufológicos", para as mais tacanhas formas de crendice e superstição, reforçando o obscurantismo, a irracionalidade, o fundamentalismo religioso e a pseudociência.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
terça-feira, 19 de junho de 2012
"O melhor filme de alienígenas da história do cinema" completou 30 anos de lançamento
Falando em moldagem do imaginário, completou-se na semana passada 30 anos da estreia nos cinema de ET, O Extraterrestre, outro clássico emplacado pelo diretor Steven Spielberg.
Olha o que diz a reportagem do portal Terra:
“O drama do pequeno extraterrestre E.T., perdido na Terra e empenhado em telefonar para sua casa, comoveu milhões de espectadores há 30 anos, tempo em que se consolidou como o melhor filme de alienígenas da história do cinema. E.T.: O Extraterrestre estreou nos Estados Unidos em 11 de junho de 1982, poucos dias após ser apresentado no Festival de Cannes, entre os aplausos da crítica e do público. A produção foi um sucesso de bilheteria e recebeu nove indicações ao Oscar - entre elas as de melhor filme, direção e roteiro - levando quatro prêmios: melhores efeitos especiais, melhores efeitos sonoros, melhor som e trilha sonora original, com a inesquecível composição de John Williams.”
Definitivamente, pelo tremendo sucesso do filme – e que continua emocionando as pessoas em seus relançamentos periódicos e nos infindávei downloads e locações – , os extraterrestres são incorporados no imaginário da humanidade de uma forma massiva (proporcionado pela abrangência global da indústria cultural americana). Não como seres malignos, mas empaticamente, como já aconteceu através de outro filme do “mago” Spielbeg, o “Contatos Imediatos”. Já, filmes como “Alien, o 8º passageiro” (outro clássico sensacional, este de Ridley Scott), apresentam a figura de um ser extreterrestre de forma assustadora, ameaçadora, cruel. Spielberg constrói a ideia da possibilidade não só do contato, mas da amizade, da colaboração, da harmonia entre humanos e ETs.
No “mundo da ufologia”, a ficção literária e o cinematográfica são uma base psicológica importantíssima para entendermos (e explicarmos) boa parte dos relatos ufológicos – avistamentos, abduções, enfim, contatos.
***Acima, ilustração com a nave que vem regatar o E.T. do filme. Em sua configuração, elementos já estabelecidos do imaginário para um veículo de viagem espacial, e, ao mesmo tempo, que, pela divulgação massiva, estabelece um padrão que bem possivelmente confugura relatados como avistamentos tidos como "reais".
terça-feira, 5 de junho de 2012
Para pensar
Segue umas anotações que fiz do livro do geneticista Richard Dawkins (foto acima), professor britânico na Universidade de Oxford, autor de inúmeras obras, onde se inclui “The God delusion”, afamado no Brasil pelo título “Deus, uma ilusão”.
Independente de descrenças ou crenças, sempre é interessante escutar pessoas que nos fazem pensar. No “mundo ufológico” (“Ufo World”... assim como Disney World...), acho bom puxar o apito do trem, alertando os incautos ou bêbados (ou até os potenciais suicidas) para os cuidado nos cruzamentos ferroviários...
Na minha opinião, Dawkins é um bom apito:
- Vejo o esforço humano para entender o universo como um empreendimento de modelismo. Cada um de nós constrói, dentro de nossa cabeça, um modelo do mundo em que vivemos. O modelo mínimo do mundo é o modelo de que nossos ancestrais precisavam para sobreviver nele. O software da simulação foi construído e aperfeiçoado pela seleção natural, e funciona melhor no mundo que nossos ancestrais da savana africana conheciam: um mundo tridimensional de objetos materiais de dimensões médias, movendo-se em velocidades médias proporcionalmente entre si. Num bônus inesperado, nosso cérebro revelou-se poderoso o suficiente para acomodar um modelo de mundo muito mais rico que o mundo medíocre e utilitarista de que nossos ancestrais precisavam para sobreviver. A arte e a ciência são manifestações desse bônus. p.458
- O que vemos do mundo real não é o mundo real intocado, mas um 'modelo' do mundo real, regulado e ajustado por dados sensoriais – um modelo que é construído para que seja útil para lidar com o mundo real. A natureza desse modelo depende do tipo que somos. Um animal que voa precisa de um modelo de mundo diferente do de um animal que anda, que escala ou que nada. p.471
- [Sam Harris em The end of faith diz que] O perigo da fé religiosa é que ela permite a seres humanos normais colher os frutos da loucura e considerá-los 'sagrados'. Como cada nova geração de crianças aprende que as proposições religiosas não precisam ser justificadas, como todas as outras precisam, a civilização ainda está sitiada pelos exércitos dos irracionais. Estamos, agora mesmo, nos matando por causa de literatura da Antiguidade. Quem imaginaria que uma coisa tão tragicamente absurda seria possível? p.358-359
- [Gore Vidal diz que] O grande e indizível mal no cerne de nossa cultura é o monoteísmo. A partir de um texto bárbaro da Idade do Bronze, conhecido como Antigo Testamento, evoluíram três religiões anti-humanas – o judaísmo, o cristianismo e o islã. São religiões de deus-no-céu. São, literalmente, patriarcais – Deus é o Pai Onipotente –, daí o desprezo às mulheres por 2 mil anos nos países afligidos pelo deus-no-céu e seus enviados masculinos terrestres. [...] A mais antiga das três religiões abraâmicas [ou seja, fundadas pelo patriarca bíblico Abraão], e a clara ancestral das outras duas, é o judaísmo: originalmente um culto tribal a um Deus único e desagradável, que tinha uma obsessão mórbida por restrições sexuais, pelo cheiro de carne queimada, por sua superioridade em relação aos deuses rivais e pelo exclusivismo de sua tribo desértica escolhida. Durante a ocupação romana da Palestina, o cristianismo foi fundado por Paulo de Tarso como uma seita do judaísmo menos intrasigentemente monoteísta e menos exclusivista, que olhou além dos judeus e para o resto do mundo. Vários séculos depois, Maomé e seus seguidores retomaram o monoteísmo inflexível do original judaico, mas não seu exclusivismo, e fundaram o islamismo a partir de um novo livro sagrado, o Corão, ou Qur'an, acresscentando uma forte ideologia de conquista militar à dimensão da fé. O cristianimso também foi disseminado pela espada, primeiro nas mãos romanas, quando o imperador Constantino o elevou de culto excêntrico a religião oficial, depois nas dos cruzados e depois nas dos conquistadores e outros invasores e colonizadores europeus, com acompanhamento missionário. p.63-64
- Os fundamentalistas sabem que estão certos porque leram a verdade num livro sagrado e sabem, desde o começo, que nada os afastará da crença. A verdade do livro sagrado é um axioma, não o produto final de um processo de raciocínio. O livro é a verdade e, se as provas parecem contradizê-lo são as provas que devem ser rejeitadas, não o livro. p.362
***Como um certo contraponto, fiz o seguinte comentário, usando um poucos as ideias de um outro pensador, Alain de Botton:
Acredito que diante da nossas fragilidades, abraçar uma religião é algo muito reconfortante em certas situações ou alturas das nossas vidas. Mas é também aceitar um limite, uma autoridade, e se submeter a ela.
A religião tem isso de agregar as pessoas, fazê-las compartilhar, se sentirem aconchegadas e felizes com um futuro bom e sem fim, nem que seja após a morte.
Estou lendo uns livros de um filósofo (suíço, morando na Inglaterra) chamado Alain de Botton. Excelente. Gostoso de ler. Com erudição, mas sem pedantismo, e abordando coisas como... uma fábrica de biscoito nos arredores de Londres, a pesca de salmão nas maldivas, que é o caso de Prazeres e Desprazeres do Trabalho.
Na cabeceira, degustando aos poucos, o Desejo de Status - um destrinchamento das nossas neuroses advindas da inveja, da competitividade entre pares e do absurdo de pautar a vida em espectativas ditadas pelo consumo...
Na lista desse autor, está o Religião para Ateus...
Quando der, olhem (abaixo) a resenha e já vejam que interessante a abordagem dese Alain, um ateu vendo a religião em sua positividade ou utilidade - até para descrentes totais...
Religião para ateus
Alain de Botton
Em Religião para ateus, o filósofo - e ateu obstinado - Alain de Botton discute o principal erro do ateísmo moderno: negligenciar os aspectos relevantes das religiões após o descarte dos princípios centrais das fés. Embora, em um primeiro momento, a discussão a respeito da existência ou não de Deus possa ser considerada como um divertido exercício, ao observar os ritos e conceitos morais que regem as religiões, o autor propõe um passo adiante. Dissecadas, crenças, como cristianismo, judaísmo e budismo, podem ser compreendidas como arcabouços éticos estruturados por nós para atender à demanda humana de viver em comunidade, controlando sua tendência à violência, estimulando hábitos essenciais, como a compaixão e o perdão, e reconfortando mente e corpo diante do sofrimento.
Com uma linguagem acessível e provocativa, Alain de Botton discute como as religiões são sábias por não esperar que lidemos sozinhos com nossas emoções e sugere como a sociedade contemporânea pode fazer uso dessas ferramentas para mitigar alguns dos males mais persistentes e negligenciados da vida secular. Ao descartar os dogmas e o sobrenatural, o autor propõe o resgate de uma sabedoria que pertence a toda humanidade, inclusive aos mais céticos.
FONTE: www.intrinseca.com.br
Independente de descrenças ou crenças, sempre é interessante escutar pessoas que nos fazem pensar. No “mundo ufológico” (“Ufo World”... assim como Disney World...), acho bom puxar o apito do trem, alertando os incautos ou bêbados (ou até os potenciais suicidas) para os cuidado nos cruzamentos ferroviários...
Na minha opinião, Dawkins é um bom apito:
- Vejo o esforço humano para entender o universo como um empreendimento de modelismo. Cada um de nós constrói, dentro de nossa cabeça, um modelo do mundo em que vivemos. O modelo mínimo do mundo é o modelo de que nossos ancestrais precisavam para sobreviver nele. O software da simulação foi construído e aperfeiçoado pela seleção natural, e funciona melhor no mundo que nossos ancestrais da savana africana conheciam: um mundo tridimensional de objetos materiais de dimensões médias, movendo-se em velocidades médias proporcionalmente entre si. Num bônus inesperado, nosso cérebro revelou-se poderoso o suficiente para acomodar um modelo de mundo muito mais rico que o mundo medíocre e utilitarista de que nossos ancestrais precisavam para sobreviver. A arte e a ciência são manifestações desse bônus. p.458
- O que vemos do mundo real não é o mundo real intocado, mas um 'modelo' do mundo real, regulado e ajustado por dados sensoriais – um modelo que é construído para que seja útil para lidar com o mundo real. A natureza desse modelo depende do tipo que somos. Um animal que voa precisa de um modelo de mundo diferente do de um animal que anda, que escala ou que nada. p.471
- [Sam Harris em The end of faith diz que] O perigo da fé religiosa é que ela permite a seres humanos normais colher os frutos da loucura e considerá-los 'sagrados'. Como cada nova geração de crianças aprende que as proposições religiosas não precisam ser justificadas, como todas as outras precisam, a civilização ainda está sitiada pelos exércitos dos irracionais. Estamos, agora mesmo, nos matando por causa de literatura da Antiguidade. Quem imaginaria que uma coisa tão tragicamente absurda seria possível? p.358-359
- [Gore Vidal diz que] O grande e indizível mal no cerne de nossa cultura é o monoteísmo. A partir de um texto bárbaro da Idade do Bronze, conhecido como Antigo Testamento, evoluíram três religiões anti-humanas – o judaísmo, o cristianismo e o islã. São religiões de deus-no-céu. São, literalmente, patriarcais – Deus é o Pai Onipotente –, daí o desprezo às mulheres por 2 mil anos nos países afligidos pelo deus-no-céu e seus enviados masculinos terrestres. [...] A mais antiga das três religiões abraâmicas [ou seja, fundadas pelo patriarca bíblico Abraão], e a clara ancestral das outras duas, é o judaísmo: originalmente um culto tribal a um Deus único e desagradável, que tinha uma obsessão mórbida por restrições sexuais, pelo cheiro de carne queimada, por sua superioridade em relação aos deuses rivais e pelo exclusivismo de sua tribo desértica escolhida. Durante a ocupação romana da Palestina, o cristianismo foi fundado por Paulo de Tarso como uma seita do judaísmo menos intrasigentemente monoteísta e menos exclusivista, que olhou além dos judeus e para o resto do mundo. Vários séculos depois, Maomé e seus seguidores retomaram o monoteísmo inflexível do original judaico, mas não seu exclusivismo, e fundaram o islamismo a partir de um novo livro sagrado, o Corão, ou Qur'an, acresscentando uma forte ideologia de conquista militar à dimensão da fé. O cristianimso também foi disseminado pela espada, primeiro nas mãos romanas, quando o imperador Constantino o elevou de culto excêntrico a religião oficial, depois nas dos cruzados e depois nas dos conquistadores e outros invasores e colonizadores europeus, com acompanhamento missionário. p.63-64
- Os fundamentalistas sabem que estão certos porque leram a verdade num livro sagrado e sabem, desde o começo, que nada os afastará da crença. A verdade do livro sagrado é um axioma, não o produto final de um processo de raciocínio. O livro é a verdade e, se as provas parecem contradizê-lo são as provas que devem ser rejeitadas, não o livro. p.362
***Como um certo contraponto, fiz o seguinte comentário, usando um poucos as ideias de um outro pensador, Alain de Botton:
Acredito que diante da nossas fragilidades, abraçar uma religião é algo muito reconfortante em certas situações ou alturas das nossas vidas. Mas é também aceitar um limite, uma autoridade, e se submeter a ela.
A religião tem isso de agregar as pessoas, fazê-las compartilhar, se sentirem aconchegadas e felizes com um futuro bom e sem fim, nem que seja após a morte.
Estou lendo uns livros de um filósofo (suíço, morando na Inglaterra) chamado Alain de Botton. Excelente. Gostoso de ler. Com erudição, mas sem pedantismo, e abordando coisas como... uma fábrica de biscoito nos arredores de Londres, a pesca de salmão nas maldivas, que é o caso de Prazeres e Desprazeres do Trabalho.
Na cabeceira, degustando aos poucos, o Desejo de Status - um destrinchamento das nossas neuroses advindas da inveja, da competitividade entre pares e do absurdo de pautar a vida em espectativas ditadas pelo consumo...
Na lista desse autor, está o Religião para Ateus...
Quando der, olhem (abaixo) a resenha e já vejam que interessante a abordagem dese Alain, um ateu vendo a religião em sua positividade ou utilidade - até para descrentes totais...
Religião para ateus
Alain de Botton
Em Religião para ateus, o filósofo - e ateu obstinado - Alain de Botton discute o principal erro do ateísmo moderno: negligenciar os aspectos relevantes das religiões após o descarte dos princípios centrais das fés. Embora, em um primeiro momento, a discussão a respeito da existência ou não de Deus possa ser considerada como um divertido exercício, ao observar os ritos e conceitos morais que regem as religiões, o autor propõe um passo adiante. Dissecadas, crenças, como cristianismo, judaísmo e budismo, podem ser compreendidas como arcabouços éticos estruturados por nós para atender à demanda humana de viver em comunidade, controlando sua tendência à violência, estimulando hábitos essenciais, como a compaixão e o perdão, e reconfortando mente e corpo diante do sofrimento.
Com uma linguagem acessível e provocativa, Alain de Botton discute como as religiões são sábias por não esperar que lidemos sozinhos com nossas emoções e sugere como a sociedade contemporânea pode fazer uso dessas ferramentas para mitigar alguns dos males mais persistentes e negligenciados da vida secular. Ao descartar os dogmas e o sobrenatural, o autor propõe o resgate de uma sabedoria que pertence a toda humanidade, inclusive aos mais céticos.
FONTE: www.intrinseca.com.br
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Glória
Num daqueles acasos (talvez não seja o termo adequado), depois de ter postado um comentário sobre a fé depositada em relíquias, no caso, as capelinhas de Shoenstatt, que remete ao culto da Virgem Maria, ícone religioso católico recorrente em aparições, sendo uma das mais famosas aqui no Brasil a de Fátima (Nossa Senhora de Fátima), pois depois disso me deparo com uma interessantíssimo artigo “A ciência da glória”, publicado na Scientific American Brasil, edição 117, de fevereiro 2012.
No artigo, o professor de física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, H. Moysés Nussenzveig, ganhador do prêmio Max Born da Optical Society of America, desenvolvendo “abordagens teóricas inovadoras numa ampla gama de fenômenos ópticos e atualmente pesquisa biofísica celular”, apresenta uma síntese, justamente, de um fenômeno atmosférico que causa impressionantes visualizações, chamado de “glória” – em alusão, sim, às pinturas e relatos de formas corporais iluminadas, em especial na cabeça (aurelas), caso dos “santos” em várias iconografias religiosas de várias crenças, não só cristãs.
O objetivo da matéria do físico brasileiro Nussenzveig não é desmistificar aparições de virgens e outras deidades (ele nem toca nesse assunto), mas de entender cientificamente “Um dos mais belos fenômenos na meteorologia [e que] tem uma explicação surpreendentemente sutil” e, assim, auxiliar “a prever o papel que as nuvens terão na mudança climática”. Entretanto, eu fiquei a pensar (como dizem os lusitanos) que quantas e quantas “aparições” podem ser explicadas como visualizações desse fenômeno físico-químico ocorrendo em determinadas condições atmosféricas e posicionamentos visual da(s) pessoa(s).
Observem a ilustração de Alfred T. Kamajian que reproduzo (divulgação) abaixo e está na matéria, acessível pelo link
http://www2.uol.com.br/sciam/artigos/a_ciencia_da_gloria.html
Comparem com a ilustração da aparição da Nossa Senhora de Fátima...
E tirem suas própria conclusões...
Pessoas já sensibilizadas/educadas/instruídas pela educação religiosa, vendo figuras de santos e santas, em um certo dia local “propícios”, vêm a projeção – com halos coloridos, neblina e sombras – de seus próprio corpos “no ar”... Imediatamente associam aquilo a uma divindade, desencadeando reações emocionais das mais diversas... Não será muito difícil que concluam que a imagem esteja “falando com elas”, dando à observação de um fenômeno puramente ótico-atmosférico atributos “extras”, advindo da imaginação (mantos cintilantes, rostos lívidos, lágrimas copiosas, vozes tristes etc.).
E mais: a mesma situação de visualizações “incrementadas” pela emotiva imaginação não pode ser dita sobre os “contatos imediatos” com figuras prateadas ou cinzas saídas de discos voadores?
Vejam a ilustração...
Mais uma ligação – para mim ao mesmo tempo interessante e triste – entre ufologia e misticismo religioso. A ufologia como uma continuidade do messianismo religioso, e não uma investigação pautada na objetividade científica, calcada nos conhecimentos e tecnologias de investigação mais avançados. Continuamos, numa contradição de palavras, “beatos ufológicos”...
***Num site devoto da Nossa senhora de Fátima localizei um histórico dos acontecidos, que culminaram num novo culto a essa figura polinômica, que teria sido a mãe de Jesus Cristo:
As três crianças costumavam apascentar as suas ovelhas em propriedades da família. Um dia, pela primavera de 1916, tiveram de se abrigar de uma chuva passageira, numa pequena caverna a que chamavam “loca do Cabeço”. Aí continuaram a brincar pelo dia afora, até que sentiram um vento forte sacudir as árvores e, ao levantarem os olhos, vêem encaminhar-se para elas “um jovem dos seus 14 ou 15 anos, mais branco que se fora de neve” – como o descreveu Lúcia, que narrou assim a aparição.
“Estávamos surpreendidos e meio absortos e não dizíamos palavra. Ao chegar junto de nós, disse: ‘Não temais! Sou o Anjo da Paz. Orai comigo (...). Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam.’ Depois de repetir isto três vezes, ergueu-se e disse: ‘Orai assim. Os Corações de Jesus e Maria estão atentos à voz das vossas súplicas’. E desapareceu.”
Percebam que no próprio relato cita-se condições ambientais (caverna no campo) e atmosféricas (chuva passageira, vento forte), cuja combinação – junto com a posição das crianças – poderia, somado a predisposições psicológicas, produzir a “aparição”, no caso, de um jovem “anjo” - “mais branco que se fora neve”.
Na última “aparição”, o texto diz o seguinte:
Abrindo as mãos – continua a narração de Lúcia – fez com que elas refletissem no Sol, e, enquanto se elevava, continuava o reflexo da sua própria luz a projetar-se no sol. (...) Foi ao ver isto que exclamei: - Olhem para o sol!”
Chegara o grande momento do milagre! O Dr. Almeida Garrett narra o que presenciou nas seguintes palavras: “O sol, momentos antes, tinha rompido a densa camada de nuvens (...). Pude vê-lo semelhante a um disco de bordo nítido e aresta viva, luminosa e reluzente, mas sem magoar. (...) Também se não confundia com o sol encarado através do nevoeiro (...). Maravilhoso é que, durante longo tempo, se pudesse fitar o astro (...) sem uma dor nos olhos (...). Este fenômeno (...) devia ter durado cerca de dez minutos. (...) Este disco nacarado tinha a vertigem do movimento. (...) Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada. De repente, ouve-se (...) um grito de angústia de todo aquele povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca-se do firmamento e, sanguíneo, avança sobre a terra (...). São segundos de impressão terrífica...”
Enquanto a multidão assistia ao prodígio, entre jubilosa e aterrada, às três crianças eram dadas ainda as visões da Sagrada Família, de Cristo abençoando o povo e de novo a da Virgem. Sobre o milagre do sol, escreveu o Bispo de Leiria, mais tarde, em Carta Pastoral, estas palavras serenas e definitivas: “Este fenômeno que nenhum observatório astronômico registrou e, portanto, não foi natural, presenciaram-no pessoas de todas as categorias e classes sociais, crentes e descrentes, jornalistas dos principais diários portugueses e até indivíduos a quilômetros de distância, o que destrói toda a explicação de ilusão coletiva.”
Os incrédulos explicaram que tudo isso era um caso de “histeria em massa”. Mas quando depois se soube que o fenômeno fôra visto e registrado por grupos independentes localizados até cinqüenta quilômetros longe de Fátima, os críticos incrédulos se calaram.
Que “os críticos incrédulo se calaram”, duvido muito. A narração novamente se refere a situações ambientais e atmosféricas peculiares (o “sol rompendo imensa camada de nuvens”; “o sol encarado através do nevoeiro”), afora, novamente, uma predisposição coletiva (“gritos de angústia, “multidão jubilosa e aterrada”) para transformar, como se diz, “uma lagartixa em jacaré”... A hipótese da “histeria em massa” para mim é muito boa: produto de fenômenos atmosféricos perfeitamente naturais, catalizado por expectativas, emoções “a flor da pele”, induções religiosas.
No artigo, o professor de física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, H. Moysés Nussenzveig, ganhador do prêmio Max Born da Optical Society of America, desenvolvendo “abordagens teóricas inovadoras numa ampla gama de fenômenos ópticos e atualmente pesquisa biofísica celular”, apresenta uma síntese, justamente, de um fenômeno atmosférico que causa impressionantes visualizações, chamado de “glória” – em alusão, sim, às pinturas e relatos de formas corporais iluminadas, em especial na cabeça (aurelas), caso dos “santos” em várias iconografias religiosas de várias crenças, não só cristãs.
O objetivo da matéria do físico brasileiro Nussenzveig não é desmistificar aparições de virgens e outras deidades (ele nem toca nesse assunto), mas de entender cientificamente “Um dos mais belos fenômenos na meteorologia [e que] tem uma explicação surpreendentemente sutil” e, assim, auxiliar “a prever o papel que as nuvens terão na mudança climática”. Entretanto, eu fiquei a pensar (como dizem os lusitanos) que quantas e quantas “aparições” podem ser explicadas como visualizações desse fenômeno físico-químico ocorrendo em determinadas condições atmosféricas e posicionamentos visual da(s) pessoa(s).
Observem a ilustração de Alfred T. Kamajian que reproduzo (divulgação) abaixo e está na matéria, acessível pelo link
http://www2.uol.com.br/sciam/artigos/a_ciencia_da_gloria.html
Comparem com a ilustração da aparição da Nossa Senhora de Fátima...
E tirem suas própria conclusões...
Pessoas já sensibilizadas/educadas/instruídas pela educação religiosa, vendo figuras de santos e santas, em um certo dia local “propícios”, vêm a projeção – com halos coloridos, neblina e sombras – de seus próprio corpos “no ar”... Imediatamente associam aquilo a uma divindade, desencadeando reações emocionais das mais diversas... Não será muito difícil que concluam que a imagem esteja “falando com elas”, dando à observação de um fenômeno puramente ótico-atmosférico atributos “extras”, advindo da imaginação (mantos cintilantes, rostos lívidos, lágrimas copiosas, vozes tristes etc.).
E mais: a mesma situação de visualizações “incrementadas” pela emotiva imaginação não pode ser dita sobre os “contatos imediatos” com figuras prateadas ou cinzas saídas de discos voadores?
Vejam a ilustração...
Mais uma ligação – para mim ao mesmo tempo interessante e triste – entre ufologia e misticismo religioso. A ufologia como uma continuidade do messianismo religioso, e não uma investigação pautada na objetividade científica, calcada nos conhecimentos e tecnologias de investigação mais avançados. Continuamos, numa contradição de palavras, “beatos ufológicos”...
***Num site devoto da Nossa senhora de Fátima localizei um histórico dos acontecidos, que culminaram num novo culto a essa figura polinômica, que teria sido a mãe de Jesus Cristo:
As três crianças costumavam apascentar as suas ovelhas em propriedades da família. Um dia, pela primavera de 1916, tiveram de se abrigar de uma chuva passageira, numa pequena caverna a que chamavam “loca do Cabeço”. Aí continuaram a brincar pelo dia afora, até que sentiram um vento forte sacudir as árvores e, ao levantarem os olhos, vêem encaminhar-se para elas “um jovem dos seus 14 ou 15 anos, mais branco que se fora de neve” – como o descreveu Lúcia, que narrou assim a aparição.
“Estávamos surpreendidos e meio absortos e não dizíamos palavra. Ao chegar junto de nós, disse: ‘Não temais! Sou o Anjo da Paz. Orai comigo (...). Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam.’ Depois de repetir isto três vezes, ergueu-se e disse: ‘Orai assim. Os Corações de Jesus e Maria estão atentos à voz das vossas súplicas’. E desapareceu.”
Percebam que no próprio relato cita-se condições ambientais (caverna no campo) e atmosféricas (chuva passageira, vento forte), cuja combinação – junto com a posição das crianças – poderia, somado a predisposições psicológicas, produzir a “aparição”, no caso, de um jovem “anjo” - “mais branco que se fora neve”.
Na última “aparição”, o texto diz o seguinte:
Abrindo as mãos – continua a narração de Lúcia – fez com que elas refletissem no Sol, e, enquanto se elevava, continuava o reflexo da sua própria luz a projetar-se no sol. (...) Foi ao ver isto que exclamei: - Olhem para o sol!”
Chegara o grande momento do milagre! O Dr. Almeida Garrett narra o que presenciou nas seguintes palavras: “O sol, momentos antes, tinha rompido a densa camada de nuvens (...). Pude vê-lo semelhante a um disco de bordo nítido e aresta viva, luminosa e reluzente, mas sem magoar. (...) Também se não confundia com o sol encarado através do nevoeiro (...). Maravilhoso é que, durante longo tempo, se pudesse fitar o astro (...) sem uma dor nos olhos (...). Este fenômeno (...) devia ter durado cerca de dez minutos. (...) Este disco nacarado tinha a vertigem do movimento. (...) Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada. De repente, ouve-se (...) um grito de angústia de todo aquele povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca-se do firmamento e, sanguíneo, avança sobre a terra (...). São segundos de impressão terrífica...”
Enquanto a multidão assistia ao prodígio, entre jubilosa e aterrada, às três crianças eram dadas ainda as visões da Sagrada Família, de Cristo abençoando o povo e de novo a da Virgem. Sobre o milagre do sol, escreveu o Bispo de Leiria, mais tarde, em Carta Pastoral, estas palavras serenas e definitivas: “Este fenômeno que nenhum observatório astronômico registrou e, portanto, não foi natural, presenciaram-no pessoas de todas as categorias e classes sociais, crentes e descrentes, jornalistas dos principais diários portugueses e até indivíduos a quilômetros de distância, o que destrói toda a explicação de ilusão coletiva.”
Os incrédulos explicaram que tudo isso era um caso de “histeria em massa”. Mas quando depois se soube que o fenômeno fôra visto e registrado por grupos independentes localizados até cinqüenta quilômetros longe de Fátima, os críticos incrédulos se calaram.
Que “os críticos incrédulo se calaram”, duvido muito. A narração novamente se refere a situações ambientais e atmosféricas peculiares (o “sol rompendo imensa camada de nuvens”; “o sol encarado através do nevoeiro”), afora, novamente, uma predisposição coletiva (“gritos de angústia, “multidão jubilosa e aterrada”) para transformar, como se diz, “uma lagartixa em jacaré”... A hipótese da “histeria em massa” para mim é muito boa: produto de fenômenos atmosféricos perfeitamente naturais, catalizado por expectativas, emoções “a flor da pele”, induções religiosas.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
IMAGENS REAIS... Impressionantes luzes no céu... Um óvni? Minha filha fotografou e filmou com o iPhone... Confira você mesmo...
Relato:
Na semana passada, quinta-feira, 19 de abril, estávamos chegando em casa à tardinha após o trabalho e a escola das meninas aqui em Santa Cruz do Sul. Ao olhar para o horizonte, na direção do sol nascente, observamos, muito espantados, fulgurantes luzes no céu, como se um disco muito luminoso estivesse parado no céu, aparecendo de perfil. Olhamos por vários segundos (que pareceram muitos minutos) e “a coisa” parecia permanecer estacionada no alto do céu. Algo aos mesmo tempo muito bonito, extremamente intrigante e amedrontador. Não havia emissão de sons naquele momento. Mas mais alguns segundos e as luzes, agora sim, pareciam estar se movendo em nossa direção, se aproximando... se aproximando cada vez mais... cada vez mais forte a luminosidade... E um zumbido, um grande chiado, começou a ficar audível... A minha filha pequena começou a chorar – e foi aí que a minha filha mais velha iniciou a filmagem com o iPhone dela. A pequena estava literalmente apavorada com a aproximação daquele objeto voador não identificado e o som cada vez mais alto que ele emitia ali no céu crepuscular...
Mas mais uns segundos e o óvni revelou-se como um grande jato executivo (ou algum tipo assemelhado), que preparava-se para pousar no aeroporto logo adiante, a uns 400 metros de onde estávamos parados com o carro observando o “fenômeno”.
Confiram a foto e, depois, na filmagem (arquivos anexos). ***A filmagem está “deitada” pela maneira que a Shiva filmou pelo celular (o Rafa ficou de ajeitar isso).
Foi um momento curto, mas de grande emoção, perplexidade e deslumbramento. Começou como um óvni, mas terminou com um jato particular aterrissando no aeroporto santa-cruzense. Se a foto e a filmagem tivessem sido interrompidas num determinado ponto, aposto que muitos acreditariam se tratar de um disco voador “real”. Ou seja, para manipuladores da crendice e sede do fantástico obscuro, seria um prato cheio... Mas pergunto: a verdade, a realidade, não é algo fantástico por si mesmo? Para quem se dispõe a ver com olhos interessados e detectando a complexidade de qualquer acontecimento, o momento foi incrível, mesmo que o piloto da nave (de tecnologia 100% humana) fosse um ser humano (muito bem treinado, diga-se), e não algum ser de olhos e cabeça grandes, corpo longilíneo e pele cinza acetinada...
segunda-feira, 30 de abril de 2012
A fé e o caminhão
Pessoal,
O assunto vai mais diretamente para um campo do fenômeno da fé humana, ou seja, das religiões instituídas, no caso, do catolicismo. Mas pode ter ligações com o que poderíamos chamar de “crença em óvnis" e congêneres – algo muito diferente da considerações científicas sobre o objetos voadores não identificados. (Como sempre digo, muitos ufólogos e ufologistas continuam a reforçar uma abordagem religiosa, mística, em detrimento ao sufixo “logos” e “logista”, que remetem à racionalidade científica em toda a sua complexidade contemporânea.)
Segue o meu comentário:
A fé e o caminhão
O jornal santa-cruzense Gazeta do Sul de 18/04/12, na sua página 12, publicou uma reportagem sobre as famosas capelinhas de Schoenstatt – uma delas, inclusive, circula lá por casa uma vez por mês mais ou menos.
Tudo começou com um comerciante, João Pozzobon, “um homem de muita fé”, que recebeu uma capela de irmãs da congregação Schoenstatt durante um retiro espiritual em Santa Maria no ano de 1950.
“Ele ganhou o presente [das irmãs Schoenstatt] como uma missão e, durante 35 anos, noite após noite, no inverno ou verão, levou a imagem de casa em casa, aos hospitais, escolas, presídios e outros.”
Chegou a criar calo no ombro, pois a capela original era pesada, 8 quilos, obrigando-o a usar tal apoio. Andava a pé por trechos de até 15km.
Mas uma coisa não deu bem certo...
“João morreu atropelado em 1985, quando se dirigia para a missa com a imagem”, diz a reportagem.
Putz!
Fiquei imaginando o seu Pozzebon, com a santa em baixo do braço ou no ombro, atravessando a rua, a igreja logo adiante... Num descuido, não vê o caminhão que vem em alta velocidade e BAMMM!!! Rolam no chão o devoto e a capela da santa espatifada...
Chega a ser tragicômico. Como isso pode acontecer? Onde estava as bênçãos e proteção do amuleto católico, tchê?! Para que serviram tamanha devoção do seu Pozzobon? A essa altura, era um devoto já idoso e.. não mereceria uma morte menos estúpida, brutal? Mais tranquila, durante o sono, sendo conduzindo pela mão da santa e anjos? Qual é a lógica disso? Como explicar, senão usando de subterfúgios do tipo “mas sua morte poderia ser ainda pior”... Mas pior que ser estupidamente atropelado?!
Eu até queria colar a reportagem aqui pra vocês, ou colocar o link, mas, não sei porquê, não foi publicada na versão eletrônica do jornal... Será que é porque a coisa ficou estranha? Revelar algo que contradiz a suposta proteção obtida pela fé na santa? De fato, ter mencionado o acontecido com o seu João desabona muito o amuleto!
A fé exige esforços de altíssima irracionalidade. Nega-se, assim, o que, acho eu, é a marca principal do animal humano, que lhe faz transcender – ao menos um pouco – a sua condição biológica, de ser da natureza, ou seja, nega-se o pensar racional, baseado em evidências sistemáticas, em comprovações fidedignas. Entretanto, vigora o obscurantismo, apesar de todas as evidências que minam as inúmeras crendices, lendas e explicações sem pé nem cabeça (nonsense!), disparates, superstições.
Aposto que a reportagem, lida por um devoto, mesmo que com a atenção, no máximo vai dar uma arranhada na “fé”; a seguir, a pessoa – por conta de alguma “necessidade” (ou seria embotamento emocional ou do pensamento?) – vai continuar indo convictamente na procissão, inclusive raspando os joelhos no asfalto...
A capela foi reformada após o acidente. E seu Pozzebon, ao invés de ser o exemplo das falhas e contradições da fé, numa “ultranegação” do acontecido – sua morte trágica com a santa na mão sem lhe avisar do descuido ao atravessar uma rua –, deverá ser canonizado. Há todo um esforço para que “milagres concedidos por João” seja comprovados... (Milagre são tantas pessoas persistirem cultuando a santa e seu devoto!)
Todo caso, recomendo: Ao atravessar a rua, com ou sem santa, muito cuidado com o caminhão...
* O Papa João Paulo II (se não me engano) ter levado um tiro é também uma baita ironia, já que é o representante-mor do Deus dos Católicos. Ele, o Papa, creditou a sua salvação na época à "mão da Nossa Senhora" (não sei qual das milhares de denominações), que teria desviado a bala; caso contrário, seria fulminante. Como mencionou o biólogo Dawkins, o "sumo pontífice" não falou das mãos do cirurgiões, que durante seis horas o operaram... A invés de creditar (ao menos em boa parte) às habilidades dos profissionais médicos e a ciência e tecnologia a sua recuperação, creditou em primeiro lugar a uma aparição lendária e seu poder miraculoso incomprovado... Bem, a crítica que eu estou tentando fazer é direcionada aos adeptos de relíquias de proteção e de pedidos de bênçãos "clássicas" do catolicismo, mas pode servir a inúmeras outras superstições. Óbvio que não estou querendo ofender pessoalmente ninguém, mas seis que isso é impossível quando se trata de religião(e futebol...); quero levantar uma contradição flagrante, quando um devoto ferrenho não recebe a proteção do seu amuleto. No caso do seu João Pozzobon, como eu mencionei, se o acontecido não fosse realmente trágico, poderia ser hilário ("humor negro"); mas mesmo com todos esses componentes de suprema ironia, quando um grande fiel acaba por não ter a proteção do seu objeto de culto (que portava no momento, inclusive), mesmo assim parece que a fé, depois de umas balançadas na cabeça das pessoas, volta em sua firmeza irracional...
** Há quem diga, como sábio Roxão K., que o humano, de um modo geral, precisa acreditar em histórias que lhe tirem um pouco o medo da morte, que falem da continuidade da vida e de sua proteção pessoal num mundo extremamente hostil. Acho que devemos é nos esforçar para vivermos todos bem, aqui e agora, ajudando a criar um mundo acolhedor, de fraternidade, para além (ou aquém!) de crenças em anjos e demônios...
*** O citado Dawkins (Richard) é uma ferrenho combatente do obscurantismo religioso, inclusive por parte de cientistas "crentes". Ele não poupa nem agnósticos como eu. Acho os seus trabalhos muuuuuito importantes na atualidade, quando, na segunda década do século XXI, continuam a proliferar concepções das mais estapafúrdias, milenaristas, arcaicas, emburrecedoras, em choque com o conhecimento e tecnologia que já geramos. É o caso já comentado do Criacionismo - proposto em escolas norte-americanas para substituir (ou voltar a vigorar) no lugar da biologia evolucionista iniciada por Darwin e outros; a Bíblia ainda seria a descrição correta (e literal) para o surgimento da vida...
quinta-feira, 19 de abril de 2012
"A Magia da Realidade"
Amigos/as,
Semana passada, olhando a vitrine da livraria aqui do campus, vi o livro do meu “guru” Dawkins, o biólogo genetiscista britânico (mas nascido em Nairóbi) e que tem sido um paladino – assim como o foi o astrofísico Carl Sagan – por uma visão que rompa com as superstições, o obscurantismo, apresentando a ciência como o nosso caminho – mesmo que falho – de conhecimento/interpretação da vida, do universo, dos fenômenos que nos rodeiam.
Pois Dawkins lançou um livro direcionado a piazada – pré-adolescentes pra cima, suponho. Se chama
A Magia da Realidade
E tem o subtítulo
Como sabemos o que é verdade
Consegui dar uma folhada e já reservei na biblioteca. Achei fantástico pela sua abrangência.
E fantástico também pelo seguinte: as ilustrações são muuuuito bacanas, feita pelo desenhista que trabalhou muito com o Neil Gaiman, o Dave McKean. O cara usa várias técnicas. Quando der, deem uma olhada nessa obra – tão necessária na barafunda irracional que o misticismo muitas vezes nos remete.
Tem um pedaço (as primeiras páginas) do livro nesse link, incluindo as ilustrações:
http://media.folha.uol.com.br/ilustrada/2012/03/29/a_magia_da_realidade.pdf
Uma resenha sobre o livro tem aqui:
http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=12946
Abraços!
Iuri
***Achei també um vídeo onde o Dawkins apresenta a versão para iPad do livro A Magia da Realidade:
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=eBrP3-Ep3ww
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