Segue umas anotações que fiz do livro do geneticista Richard Dawkins (foto acima), professor britânico na Universidade de Oxford, autor de inúmeras obras, onde se inclui “The God delusion”, afamado no Brasil pelo título “Deus, uma ilusão”.
Independente de descrenças ou crenças, sempre é interessante escutar pessoas que nos fazem pensar. No “mundo ufológico” (“Ufo World”... assim como Disney World...), acho bom puxar o apito do trem, alertando os incautos ou bêbados (ou até os potenciais suicidas) para os cuidado nos cruzamentos ferroviários...
Na minha opinião, Dawkins é um bom apito:
- Vejo o esforço humano para entender o universo como um empreendimento de modelismo. Cada um de nós constrói, dentro de nossa cabeça, um modelo do mundo em que vivemos. O modelo mínimo do mundo é o modelo de que nossos ancestrais precisavam para sobreviver nele. O software da simulação foi construído e aperfeiçoado pela seleção natural, e funciona melhor no mundo que nossos ancestrais da savana africana conheciam: um mundo tridimensional de objetos materiais de dimensões médias, movendo-se em velocidades médias proporcionalmente entre si. Num bônus inesperado, nosso cérebro revelou-se poderoso o suficiente para acomodar um modelo de mundo muito mais rico que o mundo medíocre e utilitarista de que nossos ancestrais precisavam para sobreviver. A arte e a ciência são manifestações desse bônus. p.458
- O que vemos do mundo real não é o mundo real intocado, mas um 'modelo' do mundo real, regulado e ajustado por dados sensoriais – um modelo que é construído para que seja útil para lidar com o mundo real. A natureza desse modelo depende do tipo que somos. Um animal que voa precisa de um modelo de mundo diferente do de um animal que anda, que escala ou que nada. p.471
- [Sam Harris em The end of faith diz que] O perigo da fé religiosa é que ela permite a seres humanos normais colher os frutos da loucura e considerá-los 'sagrados'. Como cada nova geração de crianças aprende que as proposições religiosas não precisam ser justificadas, como todas as outras precisam, a civilização ainda está sitiada pelos exércitos dos irracionais. Estamos, agora mesmo, nos matando por causa de literatura da Antiguidade. Quem imaginaria que uma coisa tão tragicamente absurda seria possível? p.358-359
- [Gore Vidal diz que] O grande e indizível mal no cerne de nossa cultura é o monoteísmo. A partir de um texto bárbaro da Idade do Bronze, conhecido como Antigo Testamento, evoluíram três religiões anti-humanas – o judaísmo, o cristianismo e o islã. São religiões de deus-no-céu. São, literalmente, patriarcais – Deus é o Pai Onipotente –, daí o desprezo às mulheres por 2 mil anos nos países afligidos pelo deus-no-céu e seus enviados masculinos terrestres. [...] A mais antiga das três religiões abraâmicas [ou seja, fundadas pelo patriarca bíblico Abraão], e a clara ancestral das outras duas, é o judaísmo: originalmente um culto tribal a um Deus único e desagradável, que tinha uma obsessão mórbida por restrições sexuais, pelo cheiro de carne queimada, por sua superioridade em relação aos deuses rivais e pelo exclusivismo de sua tribo desértica escolhida. Durante a ocupação romana da Palestina, o cristianismo foi fundado por Paulo de Tarso como uma seita do judaísmo menos intrasigentemente monoteísta e menos exclusivista, que olhou além dos judeus e para o resto do mundo. Vários séculos depois, Maomé e seus seguidores retomaram o monoteísmo inflexível do original judaico, mas não seu exclusivismo, e fundaram o islamismo a partir de um novo livro sagrado, o Corão, ou Qur'an, acresscentando uma forte ideologia de conquista militar à dimensão da fé. O cristianimso também foi disseminado pela espada, primeiro nas mãos romanas, quando o imperador Constantino o elevou de culto excêntrico a religião oficial, depois nas dos cruzados e depois nas dos conquistadores e outros invasores e colonizadores europeus, com acompanhamento missionário. p.63-64
- Os fundamentalistas sabem que estão certos porque leram a verdade num livro sagrado e sabem, desde o começo, que nada os afastará da crença. A verdade do livro sagrado é um axioma, não o produto final de um processo de raciocínio. O livro é a verdade e, se as provas parecem contradizê-lo são as provas que devem ser rejeitadas, não o livro. p.362
***Como um certo contraponto, fiz o seguinte comentário, usando um poucos as ideias de um outro pensador, Alain de Botton:
Acredito que diante da nossas fragilidades, abraçar uma religião é algo muito reconfortante em certas situações ou alturas das nossas vidas. Mas é também aceitar um limite, uma autoridade, e se submeter a ela.
A religião tem isso de agregar as pessoas, fazê-las compartilhar, se sentirem aconchegadas e felizes com um futuro bom e sem fim, nem que seja após a morte.
Estou lendo uns livros de um filósofo (suíço, morando na Inglaterra) chamado Alain de Botton. Excelente. Gostoso de ler. Com erudição, mas sem pedantismo, e abordando coisas como... uma fábrica de biscoito nos arredores de Londres, a pesca de salmão nas maldivas, que é o caso de Prazeres e Desprazeres do Trabalho.
Na cabeceira, degustando aos poucos, o Desejo de Status - um destrinchamento das nossas neuroses advindas da inveja, da competitividade entre pares e do absurdo de pautar a vida em espectativas ditadas pelo consumo...
Na lista desse autor, está o Religião para Ateus...
Quando der, olhem (abaixo) a resenha e já vejam que interessante a abordagem dese Alain, um ateu vendo a religião em sua positividade ou utilidade - até para descrentes totais...
Religião para ateus
Alain de Botton
Em Religião para ateus, o filósofo - e ateu obstinado - Alain de Botton discute o principal erro do ateísmo moderno: negligenciar os aspectos relevantes das religiões após o descarte dos princípios centrais das fés. Embora, em um primeiro momento, a discussão a respeito da existência ou não de Deus possa ser considerada como um divertido exercício, ao observar os ritos e conceitos morais que regem as religiões, o autor propõe um passo adiante. Dissecadas, crenças, como cristianismo, judaísmo e budismo, podem ser compreendidas como arcabouços éticos estruturados por nós para atender à demanda humana de viver em comunidade, controlando sua tendência à violência, estimulando hábitos essenciais, como a compaixão e o perdão, e reconfortando mente e corpo diante do sofrimento.
Com uma linguagem acessível e provocativa, Alain de Botton discute como as religiões são sábias por não esperar que lidemos sozinhos com nossas emoções e sugere como a sociedade contemporânea pode fazer uso dessas ferramentas para mitigar alguns dos males mais persistentes e negligenciados da vida secular. Ao descartar os dogmas e o sobrenatural, o autor propõe o resgate de uma sabedoria que pertence a toda humanidade, inclusive aos mais céticos.
FONTE: www.intrinseca.com.br
Posto aqui cometários pessoais sobre acontecimentos e outras reflexões que ligo à ufologia - pela qual nutro várias simpatias. Com apreensão, observo cada vez mais o interesse e o estudo sobre vida e a inteligência fora da Terra e além da humanidade derivar, dentro dos meios chamados "ufológicos", para as mais tacanhas formas de crendice e superstição, reforçando o obscurantismo, a irracionalidade, o fundamentalismo religioso e a pseudociência.
terça-feira, 5 de junho de 2012
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Glória
Num daqueles acasos (talvez não seja o termo adequado), depois de ter postado um comentário sobre a fé depositada em relíquias, no caso, as capelinhas de Shoenstatt, que remete ao culto da Virgem Maria, ícone religioso católico recorrente em aparições, sendo uma das mais famosas aqui no Brasil a de Fátima (Nossa Senhora de Fátima), pois depois disso me deparo com uma interessantíssimo artigo “A ciência da glória”, publicado na Scientific American Brasil, edição 117, de fevereiro 2012.
No artigo, o professor de física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, H. Moysés Nussenzveig, ganhador do prêmio Max Born da Optical Society of America, desenvolvendo “abordagens teóricas inovadoras numa ampla gama de fenômenos ópticos e atualmente pesquisa biofísica celular”, apresenta uma síntese, justamente, de um fenômeno atmosférico que causa impressionantes visualizações, chamado de “glória” – em alusão, sim, às pinturas e relatos de formas corporais iluminadas, em especial na cabeça (aurelas), caso dos “santos” em várias iconografias religiosas de várias crenças, não só cristãs.
O objetivo da matéria do físico brasileiro Nussenzveig não é desmistificar aparições de virgens e outras deidades (ele nem toca nesse assunto), mas de entender cientificamente “Um dos mais belos fenômenos na meteorologia [e que] tem uma explicação surpreendentemente sutil” e, assim, auxiliar “a prever o papel que as nuvens terão na mudança climática”. Entretanto, eu fiquei a pensar (como dizem os lusitanos) que quantas e quantas “aparições” podem ser explicadas como visualizações desse fenômeno físico-químico ocorrendo em determinadas condições atmosféricas e posicionamentos visual da(s) pessoa(s).
Observem a ilustração de Alfred T. Kamajian que reproduzo (divulgação) abaixo e está na matéria, acessível pelo link
http://www2.uol.com.br/sciam/artigos/a_ciencia_da_gloria.html
Comparem com a ilustração da aparição da Nossa Senhora de Fátima...
E tirem suas própria conclusões...
Pessoas já sensibilizadas/educadas/instruídas pela educação religiosa, vendo figuras de santos e santas, em um certo dia local “propícios”, vêm a projeção – com halos coloridos, neblina e sombras – de seus próprio corpos “no ar”... Imediatamente associam aquilo a uma divindade, desencadeando reações emocionais das mais diversas... Não será muito difícil que concluam que a imagem esteja “falando com elas”, dando à observação de um fenômeno puramente ótico-atmosférico atributos “extras”, advindo da imaginação (mantos cintilantes, rostos lívidos, lágrimas copiosas, vozes tristes etc.).
E mais: a mesma situação de visualizações “incrementadas” pela emotiva imaginação não pode ser dita sobre os “contatos imediatos” com figuras prateadas ou cinzas saídas de discos voadores?
Vejam a ilustração...
Mais uma ligação – para mim ao mesmo tempo interessante e triste – entre ufologia e misticismo religioso. A ufologia como uma continuidade do messianismo religioso, e não uma investigação pautada na objetividade científica, calcada nos conhecimentos e tecnologias de investigação mais avançados. Continuamos, numa contradição de palavras, “beatos ufológicos”...
***Num site devoto da Nossa senhora de Fátima localizei um histórico dos acontecidos, que culminaram num novo culto a essa figura polinômica, que teria sido a mãe de Jesus Cristo:
As três crianças costumavam apascentar as suas ovelhas em propriedades da família. Um dia, pela primavera de 1916, tiveram de se abrigar de uma chuva passageira, numa pequena caverna a que chamavam “loca do Cabeço”. Aí continuaram a brincar pelo dia afora, até que sentiram um vento forte sacudir as árvores e, ao levantarem os olhos, vêem encaminhar-se para elas “um jovem dos seus 14 ou 15 anos, mais branco que se fora de neve” – como o descreveu Lúcia, que narrou assim a aparição.
“Estávamos surpreendidos e meio absortos e não dizíamos palavra. Ao chegar junto de nós, disse: ‘Não temais! Sou o Anjo da Paz. Orai comigo (...). Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam.’ Depois de repetir isto três vezes, ergueu-se e disse: ‘Orai assim. Os Corações de Jesus e Maria estão atentos à voz das vossas súplicas’. E desapareceu.”
Percebam que no próprio relato cita-se condições ambientais (caverna no campo) e atmosféricas (chuva passageira, vento forte), cuja combinação – junto com a posição das crianças – poderia, somado a predisposições psicológicas, produzir a “aparição”, no caso, de um jovem “anjo” - “mais branco que se fora neve”.
Na última “aparição”, o texto diz o seguinte:
Abrindo as mãos – continua a narração de Lúcia – fez com que elas refletissem no Sol, e, enquanto se elevava, continuava o reflexo da sua própria luz a projetar-se no sol. (...) Foi ao ver isto que exclamei: - Olhem para o sol!”
Chegara o grande momento do milagre! O Dr. Almeida Garrett narra o que presenciou nas seguintes palavras: “O sol, momentos antes, tinha rompido a densa camada de nuvens (...). Pude vê-lo semelhante a um disco de bordo nítido e aresta viva, luminosa e reluzente, mas sem magoar. (...) Também se não confundia com o sol encarado através do nevoeiro (...). Maravilhoso é que, durante longo tempo, se pudesse fitar o astro (...) sem uma dor nos olhos (...). Este fenômeno (...) devia ter durado cerca de dez minutos. (...) Este disco nacarado tinha a vertigem do movimento. (...) Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada. De repente, ouve-se (...) um grito de angústia de todo aquele povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca-se do firmamento e, sanguíneo, avança sobre a terra (...). São segundos de impressão terrífica...”
Enquanto a multidão assistia ao prodígio, entre jubilosa e aterrada, às três crianças eram dadas ainda as visões da Sagrada Família, de Cristo abençoando o povo e de novo a da Virgem. Sobre o milagre do sol, escreveu o Bispo de Leiria, mais tarde, em Carta Pastoral, estas palavras serenas e definitivas: “Este fenômeno que nenhum observatório astronômico registrou e, portanto, não foi natural, presenciaram-no pessoas de todas as categorias e classes sociais, crentes e descrentes, jornalistas dos principais diários portugueses e até indivíduos a quilômetros de distância, o que destrói toda a explicação de ilusão coletiva.”
Os incrédulos explicaram que tudo isso era um caso de “histeria em massa”. Mas quando depois se soube que o fenômeno fôra visto e registrado por grupos independentes localizados até cinqüenta quilômetros longe de Fátima, os críticos incrédulos se calaram.
Que “os críticos incrédulo se calaram”, duvido muito. A narração novamente se refere a situações ambientais e atmosféricas peculiares (o “sol rompendo imensa camada de nuvens”; “o sol encarado através do nevoeiro”), afora, novamente, uma predisposição coletiva (“gritos de angústia, “multidão jubilosa e aterrada”) para transformar, como se diz, “uma lagartixa em jacaré”... A hipótese da “histeria em massa” para mim é muito boa: produto de fenômenos atmosféricos perfeitamente naturais, catalizado por expectativas, emoções “a flor da pele”, induções religiosas.
No artigo, o professor de física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, H. Moysés Nussenzveig, ganhador do prêmio Max Born da Optical Society of America, desenvolvendo “abordagens teóricas inovadoras numa ampla gama de fenômenos ópticos e atualmente pesquisa biofísica celular”, apresenta uma síntese, justamente, de um fenômeno atmosférico que causa impressionantes visualizações, chamado de “glória” – em alusão, sim, às pinturas e relatos de formas corporais iluminadas, em especial na cabeça (aurelas), caso dos “santos” em várias iconografias religiosas de várias crenças, não só cristãs.
O objetivo da matéria do físico brasileiro Nussenzveig não é desmistificar aparições de virgens e outras deidades (ele nem toca nesse assunto), mas de entender cientificamente “Um dos mais belos fenômenos na meteorologia [e que] tem uma explicação surpreendentemente sutil” e, assim, auxiliar “a prever o papel que as nuvens terão na mudança climática”. Entretanto, eu fiquei a pensar (como dizem os lusitanos) que quantas e quantas “aparições” podem ser explicadas como visualizações desse fenômeno físico-químico ocorrendo em determinadas condições atmosféricas e posicionamentos visual da(s) pessoa(s).
Observem a ilustração de Alfred T. Kamajian que reproduzo (divulgação) abaixo e está na matéria, acessível pelo link
http://www2.uol.com.br/sciam/artigos/a_ciencia_da_gloria.html
Comparem com a ilustração da aparição da Nossa Senhora de Fátima...
E tirem suas própria conclusões...
Pessoas já sensibilizadas/educadas/instruídas pela educação religiosa, vendo figuras de santos e santas, em um certo dia local “propícios”, vêm a projeção – com halos coloridos, neblina e sombras – de seus próprio corpos “no ar”... Imediatamente associam aquilo a uma divindade, desencadeando reações emocionais das mais diversas... Não será muito difícil que concluam que a imagem esteja “falando com elas”, dando à observação de um fenômeno puramente ótico-atmosférico atributos “extras”, advindo da imaginação (mantos cintilantes, rostos lívidos, lágrimas copiosas, vozes tristes etc.).
E mais: a mesma situação de visualizações “incrementadas” pela emotiva imaginação não pode ser dita sobre os “contatos imediatos” com figuras prateadas ou cinzas saídas de discos voadores?
Vejam a ilustração...
Mais uma ligação – para mim ao mesmo tempo interessante e triste – entre ufologia e misticismo religioso. A ufologia como uma continuidade do messianismo religioso, e não uma investigação pautada na objetividade científica, calcada nos conhecimentos e tecnologias de investigação mais avançados. Continuamos, numa contradição de palavras, “beatos ufológicos”...
***Num site devoto da Nossa senhora de Fátima localizei um histórico dos acontecidos, que culminaram num novo culto a essa figura polinômica, que teria sido a mãe de Jesus Cristo:
As três crianças costumavam apascentar as suas ovelhas em propriedades da família. Um dia, pela primavera de 1916, tiveram de se abrigar de uma chuva passageira, numa pequena caverna a que chamavam “loca do Cabeço”. Aí continuaram a brincar pelo dia afora, até que sentiram um vento forte sacudir as árvores e, ao levantarem os olhos, vêem encaminhar-se para elas “um jovem dos seus 14 ou 15 anos, mais branco que se fora de neve” – como o descreveu Lúcia, que narrou assim a aparição.
“Estávamos surpreendidos e meio absortos e não dizíamos palavra. Ao chegar junto de nós, disse: ‘Não temais! Sou o Anjo da Paz. Orai comigo (...). Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam.’ Depois de repetir isto três vezes, ergueu-se e disse: ‘Orai assim. Os Corações de Jesus e Maria estão atentos à voz das vossas súplicas’. E desapareceu.”
Percebam que no próprio relato cita-se condições ambientais (caverna no campo) e atmosféricas (chuva passageira, vento forte), cuja combinação – junto com a posição das crianças – poderia, somado a predisposições psicológicas, produzir a “aparição”, no caso, de um jovem “anjo” - “mais branco que se fora neve”.
Na última “aparição”, o texto diz o seguinte:
Abrindo as mãos – continua a narração de Lúcia – fez com que elas refletissem no Sol, e, enquanto se elevava, continuava o reflexo da sua própria luz a projetar-se no sol. (...) Foi ao ver isto que exclamei: - Olhem para o sol!”
Chegara o grande momento do milagre! O Dr. Almeida Garrett narra o que presenciou nas seguintes palavras: “O sol, momentos antes, tinha rompido a densa camada de nuvens (...). Pude vê-lo semelhante a um disco de bordo nítido e aresta viva, luminosa e reluzente, mas sem magoar. (...) Também se não confundia com o sol encarado através do nevoeiro (...). Maravilhoso é que, durante longo tempo, se pudesse fitar o astro (...) sem uma dor nos olhos (...). Este fenômeno (...) devia ter durado cerca de dez minutos. (...) Este disco nacarado tinha a vertigem do movimento. (...) Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada. De repente, ouve-se (...) um grito de angústia de todo aquele povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca-se do firmamento e, sanguíneo, avança sobre a terra (...). São segundos de impressão terrífica...”
Enquanto a multidão assistia ao prodígio, entre jubilosa e aterrada, às três crianças eram dadas ainda as visões da Sagrada Família, de Cristo abençoando o povo e de novo a da Virgem. Sobre o milagre do sol, escreveu o Bispo de Leiria, mais tarde, em Carta Pastoral, estas palavras serenas e definitivas: “Este fenômeno que nenhum observatório astronômico registrou e, portanto, não foi natural, presenciaram-no pessoas de todas as categorias e classes sociais, crentes e descrentes, jornalistas dos principais diários portugueses e até indivíduos a quilômetros de distância, o que destrói toda a explicação de ilusão coletiva.”
Os incrédulos explicaram que tudo isso era um caso de “histeria em massa”. Mas quando depois se soube que o fenômeno fôra visto e registrado por grupos independentes localizados até cinqüenta quilômetros longe de Fátima, os críticos incrédulos se calaram.
Que “os críticos incrédulo se calaram”, duvido muito. A narração novamente se refere a situações ambientais e atmosféricas peculiares (o “sol rompendo imensa camada de nuvens”; “o sol encarado através do nevoeiro”), afora, novamente, uma predisposição coletiva (“gritos de angústia, “multidão jubilosa e aterrada”) para transformar, como se diz, “uma lagartixa em jacaré”... A hipótese da “histeria em massa” para mim é muito boa: produto de fenômenos atmosféricos perfeitamente naturais, catalizado por expectativas, emoções “a flor da pele”, induções religiosas.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
IMAGENS REAIS... Impressionantes luzes no céu... Um óvni? Minha filha fotografou e filmou com o iPhone... Confira você mesmo...
Relato:
Na semana passada, quinta-feira, 19 de abril, estávamos chegando em casa à tardinha após o trabalho e a escola das meninas aqui em Santa Cruz do Sul. Ao olhar para o horizonte, na direção do sol nascente, observamos, muito espantados, fulgurantes luzes no céu, como se um disco muito luminoso estivesse parado no céu, aparecendo de perfil. Olhamos por vários segundos (que pareceram muitos minutos) e “a coisa” parecia permanecer estacionada no alto do céu. Algo aos mesmo tempo muito bonito, extremamente intrigante e amedrontador. Não havia emissão de sons naquele momento. Mas mais alguns segundos e as luzes, agora sim, pareciam estar se movendo em nossa direção, se aproximando... se aproximando cada vez mais... cada vez mais forte a luminosidade... E um zumbido, um grande chiado, começou a ficar audível... A minha filha pequena começou a chorar – e foi aí que a minha filha mais velha iniciou a filmagem com o iPhone dela. A pequena estava literalmente apavorada com a aproximação daquele objeto voador não identificado e o som cada vez mais alto que ele emitia ali no céu crepuscular...
Mas mais uns segundos e o óvni revelou-se como um grande jato executivo (ou algum tipo assemelhado), que preparava-se para pousar no aeroporto logo adiante, a uns 400 metros de onde estávamos parados com o carro observando o “fenômeno”.
Confiram a foto e, depois, na filmagem (arquivos anexos). ***A filmagem está “deitada” pela maneira que a Shiva filmou pelo celular (o Rafa ficou de ajeitar isso).
Foi um momento curto, mas de grande emoção, perplexidade e deslumbramento. Começou como um óvni, mas terminou com um jato particular aterrissando no aeroporto santa-cruzense. Se a foto e a filmagem tivessem sido interrompidas num determinado ponto, aposto que muitos acreditariam se tratar de um disco voador “real”. Ou seja, para manipuladores da crendice e sede do fantástico obscuro, seria um prato cheio... Mas pergunto: a verdade, a realidade, não é algo fantástico por si mesmo? Para quem se dispõe a ver com olhos interessados e detectando a complexidade de qualquer acontecimento, o momento foi incrível, mesmo que o piloto da nave (de tecnologia 100% humana) fosse um ser humano (muito bem treinado, diga-se), e não algum ser de olhos e cabeça grandes, corpo longilíneo e pele cinza acetinada...
segunda-feira, 30 de abril de 2012
A fé e o caminhão
Pessoal,
O assunto vai mais diretamente para um campo do fenômeno da fé humana, ou seja, das religiões instituídas, no caso, do catolicismo. Mas pode ter ligações com o que poderíamos chamar de “crença em óvnis" e congêneres – algo muito diferente da considerações científicas sobre o objetos voadores não identificados. (Como sempre digo, muitos ufólogos e ufologistas continuam a reforçar uma abordagem religiosa, mística, em detrimento ao sufixo “logos” e “logista”, que remetem à racionalidade científica em toda a sua complexidade contemporânea.)
Segue o meu comentário:
A fé e o caminhão
O jornal santa-cruzense Gazeta do Sul de 18/04/12, na sua página 12, publicou uma reportagem sobre as famosas capelinhas de Schoenstatt – uma delas, inclusive, circula lá por casa uma vez por mês mais ou menos.
Tudo começou com um comerciante, João Pozzobon, “um homem de muita fé”, que recebeu uma capela de irmãs da congregação Schoenstatt durante um retiro espiritual em Santa Maria no ano de 1950.
“Ele ganhou o presente [das irmãs Schoenstatt] como uma missão e, durante 35 anos, noite após noite, no inverno ou verão, levou a imagem de casa em casa, aos hospitais, escolas, presídios e outros.”
Chegou a criar calo no ombro, pois a capela original era pesada, 8 quilos, obrigando-o a usar tal apoio. Andava a pé por trechos de até 15km.
Mas uma coisa não deu bem certo...
“João morreu atropelado em 1985, quando se dirigia para a missa com a imagem”, diz a reportagem.
Putz!
Fiquei imaginando o seu Pozzebon, com a santa em baixo do braço ou no ombro, atravessando a rua, a igreja logo adiante... Num descuido, não vê o caminhão que vem em alta velocidade e BAMMM!!! Rolam no chão o devoto e a capela da santa espatifada...
Chega a ser tragicômico. Como isso pode acontecer? Onde estava as bênçãos e proteção do amuleto católico, tchê?! Para que serviram tamanha devoção do seu Pozzobon? A essa altura, era um devoto já idoso e.. não mereceria uma morte menos estúpida, brutal? Mais tranquila, durante o sono, sendo conduzindo pela mão da santa e anjos? Qual é a lógica disso? Como explicar, senão usando de subterfúgios do tipo “mas sua morte poderia ser ainda pior”... Mas pior que ser estupidamente atropelado?!
Eu até queria colar a reportagem aqui pra vocês, ou colocar o link, mas, não sei porquê, não foi publicada na versão eletrônica do jornal... Será que é porque a coisa ficou estranha? Revelar algo que contradiz a suposta proteção obtida pela fé na santa? De fato, ter mencionado o acontecido com o seu João desabona muito o amuleto!
A fé exige esforços de altíssima irracionalidade. Nega-se, assim, o que, acho eu, é a marca principal do animal humano, que lhe faz transcender – ao menos um pouco – a sua condição biológica, de ser da natureza, ou seja, nega-se o pensar racional, baseado em evidências sistemáticas, em comprovações fidedignas. Entretanto, vigora o obscurantismo, apesar de todas as evidências que minam as inúmeras crendices, lendas e explicações sem pé nem cabeça (nonsense!), disparates, superstições.
Aposto que a reportagem, lida por um devoto, mesmo que com a atenção, no máximo vai dar uma arranhada na “fé”; a seguir, a pessoa – por conta de alguma “necessidade” (ou seria embotamento emocional ou do pensamento?) – vai continuar indo convictamente na procissão, inclusive raspando os joelhos no asfalto...
A capela foi reformada após o acidente. E seu Pozzebon, ao invés de ser o exemplo das falhas e contradições da fé, numa “ultranegação” do acontecido – sua morte trágica com a santa na mão sem lhe avisar do descuido ao atravessar uma rua –, deverá ser canonizado. Há todo um esforço para que “milagres concedidos por João” seja comprovados... (Milagre são tantas pessoas persistirem cultuando a santa e seu devoto!)
Todo caso, recomendo: Ao atravessar a rua, com ou sem santa, muito cuidado com o caminhão...
* O Papa João Paulo II (se não me engano) ter levado um tiro é também uma baita ironia, já que é o representante-mor do Deus dos Católicos. Ele, o Papa, creditou a sua salvação na época à "mão da Nossa Senhora" (não sei qual das milhares de denominações), que teria desviado a bala; caso contrário, seria fulminante. Como mencionou o biólogo Dawkins, o "sumo pontífice" não falou das mãos do cirurgiões, que durante seis horas o operaram... A invés de creditar (ao menos em boa parte) às habilidades dos profissionais médicos e a ciência e tecnologia a sua recuperação, creditou em primeiro lugar a uma aparição lendária e seu poder miraculoso incomprovado... Bem, a crítica que eu estou tentando fazer é direcionada aos adeptos de relíquias de proteção e de pedidos de bênçãos "clássicas" do catolicismo, mas pode servir a inúmeras outras superstições. Óbvio que não estou querendo ofender pessoalmente ninguém, mas seis que isso é impossível quando se trata de religião(e futebol...); quero levantar uma contradição flagrante, quando um devoto ferrenho não recebe a proteção do seu amuleto. No caso do seu João Pozzobon, como eu mencionei, se o acontecido não fosse realmente trágico, poderia ser hilário ("humor negro"); mas mesmo com todos esses componentes de suprema ironia, quando um grande fiel acaba por não ter a proteção do seu objeto de culto (que portava no momento, inclusive), mesmo assim parece que a fé, depois de umas balançadas na cabeça das pessoas, volta em sua firmeza irracional...
** Há quem diga, como sábio Roxão K., que o humano, de um modo geral, precisa acreditar em histórias que lhe tirem um pouco o medo da morte, que falem da continuidade da vida e de sua proteção pessoal num mundo extremamente hostil. Acho que devemos é nos esforçar para vivermos todos bem, aqui e agora, ajudando a criar um mundo acolhedor, de fraternidade, para além (ou aquém!) de crenças em anjos e demônios...
*** O citado Dawkins (Richard) é uma ferrenho combatente do obscurantismo religioso, inclusive por parte de cientistas "crentes". Ele não poupa nem agnósticos como eu. Acho os seus trabalhos muuuuuito importantes na atualidade, quando, na segunda década do século XXI, continuam a proliferar concepções das mais estapafúrdias, milenaristas, arcaicas, emburrecedoras, em choque com o conhecimento e tecnologia que já geramos. É o caso já comentado do Criacionismo - proposto em escolas norte-americanas para substituir (ou voltar a vigorar) no lugar da biologia evolucionista iniciada por Darwin e outros; a Bíblia ainda seria a descrição correta (e literal) para o surgimento da vida...
quinta-feira, 19 de abril de 2012
"A Magia da Realidade"
Amigos/as,
Semana passada, olhando a vitrine da livraria aqui do campus, vi o livro do meu “guru” Dawkins, o biólogo genetiscista britânico (mas nascido em Nairóbi) e que tem sido um paladino – assim como o foi o astrofísico Carl Sagan – por uma visão que rompa com as superstições, o obscurantismo, apresentando a ciência como o nosso caminho – mesmo que falho – de conhecimento/interpretação da vida, do universo, dos fenômenos que nos rodeiam.
Pois Dawkins lançou um livro direcionado a piazada – pré-adolescentes pra cima, suponho. Se chama
A Magia da Realidade
E tem o subtítulo
Como sabemos o que é verdade
Consegui dar uma folhada e já reservei na biblioteca. Achei fantástico pela sua abrangência.
E fantástico também pelo seguinte: as ilustrações são muuuuito bacanas, feita pelo desenhista que trabalhou muito com o Neil Gaiman, o Dave McKean. O cara usa várias técnicas. Quando der, deem uma olhada nessa obra – tão necessária na barafunda irracional que o misticismo muitas vezes nos remete.
Tem um pedaço (as primeiras páginas) do livro nesse link, incluindo as ilustrações:
http://media.folha.uol.com.br/ilustrada/2012/03/29/a_magia_da_realidade.pdf
Uma resenha sobre o livro tem aqui:
http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=12946
Abraços!
Iuri
***Achei també um vídeo onde o Dawkins apresenta a versão para iPad do livro A Magia da Realidade:
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=eBrP3-Ep3ww
terça-feira, 27 de março de 2012
Terra em perigo! (Céticos e crentes, uni-vos! )

Aproveitando o que eu enviei para uma outra lista, segue abaixo uma entrevista com o biólogo norte-americano Edward Wilson (foto de divulgação acima), que guarda algumas semelhanças com outro cara das ciências biológicas, o Richard Dawkins, de "Deus, um delírio". Apesar de ter saído em lá em 2006 numa Veja, achei interessante repassar. O centro da entrevista é a proposta de “unir forças” entre “crentes e céticos”. Independentes das nossas compreensões, há o planeta Terra em perigo.
Diz Edward: “Faço um apelo às pessoas religiosas. Peço que deixem de lado suas diferenças com as pessoas seculares e os cientistas materialistas, como eu, e se juntem a nós para salvar o planeta. A ciência e a religião são as duas forças mais poderosas do mundo. Para ambas, a natureza é sagrada.”
Entretanto, ele faz uma distinção crucial: “A religião exige fé, uma fé sem questionamentos. A ciência não tem nada parecido com isso. Baseia-se em um conjunto de conhecimentos acumulados e tem uma trajetória de agregar mais e mais informações que explicam o mundo. É um processo de busca, de exploração e descoberta. Totalmente diferente de religião”.
Há outras coisas interessantes na argumentação de Wilson, famoso também por ser um dos desenvolvedores da sociobiologia e uma das maiores autoridades no conhecimento sobre as formigas (entomologista), seres numerosos e diversos que habitam e convivem conosco, humanos, as parte superficiais da Terra.
Ele diz, por exemplo: "Acredito na grande força do espírito humano. Mas não creio em vida após a morte ou em uma alma separada do corpo e da mente. A criatividade, a estética, o sentimento de totalidade e o amor são essencialmente parte do funcionamento da mente. Sabemos que o cérebro se comporta de maneira diferente quando ocorrem mudanças químicas no organismo ou quando nos machucamos. Isso sugere que a essência humana depende de um sistema celular complexo. Não há incoerência alguma em acreditar que os sentimentos têm uma base física e, ao mesmo tempo, ter uma visão espiritual da mente humana".
Edward é um estudioso apaixonado, engajado, que se mantem muito ativo aos seus 83 anos de vida. Uma pessoa de referência nesse mundão de muitas nulidades, apatias, alienação, moralismo caquético e pseudoconhecimentos. E como toda personalidade instigante, muitas das sua afirmações são polêmicas.
Segue a entrevista completa.
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Revista Veja
Edição 1956, de 17 de maio de 2006
Entrevista: Edward Wilson
Salvem o planeta
O biólogo americano diz que a situação é tão grave que ciência e religião deveriam se unir na defesa da biodiversidade
Diogo Schelp
Autor de um celebrado estudo sobre a fartura de seres vivos no planeta, chamado Diversidade da Vida, o biólogo americano Edward Wilson foi um dos pioneiros a alertar sobre a extinção em massa de espécies causada pela atividade humana no século XX. Em sua mais recente empreitada – cujo resultado está no livro A Criação, a ser publicado em setembro [de 2006] nos Estados Unidos –, ele analisou as relações entre religião e ciência e propôs uma solução para o confronto ideológico nesse campo. "Religiosos e cientistas deveriam ter um objetivo comum: defender a natureza, porque dela depende a criação humana", diz Wilson. Fundador da sociobiologia, ciência que estuda as bases genéticas do comportamento social dos animais, inclusive o ser humano, ele ganhou duas vezes o Prêmio Pulitzer – por Formigas, inseto do qual é o maior especialista mundial, e Sobre a Natureza Humana, em que estuda o modo como a evolução se reflete na agressividade, na sexualidade e na ética humana. Aos 76 anos [2006], aposentado mas em plena atividade como professor e escritor, Wilson concedeu a seguinte entrevista de seu escritório na Universidade Harvard, nos Estados Unidos.
Veja – Mais de 80% da população dos Estados Unidos não acredita na teoria da evolução. Trata-se de um fenômeno tipicamente americano?
Wilson – Para 51% dos americanos, a espécie humana foi criada por uma força superior alguns milhares de anos atrás. Outros 34% acreditam que houve uma evolução guiada por Deus. Os 15% restantes dizem que os cientistas estão corretos. Esses números são extraordinários porque representam exatamente o oposto do que pensam os europeus. Na Europa, 40% da população dá razão à tese de que as espécies evoluíram pela seleção natural. Apenas uma minoria concorda com os criacionistas, que descartam a teoria da evolução.
Veja – O que explica o vigor do criacionismo, a ponto de estar em cogitação ensiná-lo nas escolas americanas, em oposição à teoria da evolução das espécies?
Wilson – Algumas organizações religiosas estão conseguindo introduzir no governo americano a tese do design inteligente. Isto é, que foi Deus quem guiou a evolução. Ajuda o fato de termos [em 2006] um presidente, George W. Bush, que acredita que Deus fala com ele quando toma certas decisões ou vai à guerra. Isso fortalece as crenças fundamentalistas mais radicais da população. Para completar, após os atentados de 11 de setembro, a população americana, sentindo-se vulnerável, agarrou-se à idéia de que o país precisa se voltar mais para a religião. Em meu próximo livro, A Criação, faço um apelo às pessoas religiosas. Peço que deixem de lado suas diferenças com as pessoas seculares e os cientistas materialistas, como eu, e se juntem a nós para salvar o planeta. A ciência e a religião são as duas forças mais poderosas do mundo. Para ambas, a natureza é sagrada.
Veja – O senhor sustenta existir uma relação direta entre a seleção natural e o sentimento religioso. Qual é?
Wilson – A religião está sempre dizendo às pessoas que sobrevivam, e esse é um princípio básico da seleção natural. A religião estimula a mente humana a transpor as dificuldades, a juntar-se a outros indivíduos e a se comportar de maneira altruísta em favor do grupo. O objetivo é a sobrevivência do grupo. Isso explica por que as religiões são tão tribalistas.
Veja – Qual é o erro da teoria do design inteligente, a idéia de que a complexidade dos organismos vivos é a melhor prova da existência de um projetista divino?
Wilson – O único argumento dos defensores do design inteligente é que a ciência não consegue explicar todos os detalhes da evolução e dos fenômenos naturais. Para eles, isso é o suficiente para justificar a crença numa força sobrenatural por trás do inexplicável. Obviamente, não se trata de um argumento científico. A motivação dos cientistas é justamente a de descobrir a verdade sobre o que ainda não se consegue explicar. Ao adotar a crença de que a evolução é uma invenção de Deus, a religião coloca em risco sua credibilidade e prestígio. Se os defensores do design inteligente tivessem evidências da existência de forças sobrenaturais nos processos físicos e biológicos, os cientistas seriam os primeiros a estudar esses fenômenos.
Veja – É possível aceitar a teoria da evolução e, ao mesmo tempo, ser religioso?
Wilson – Sim, claro. Eu próprio me considero um espiritualista. Acredito na grande força do espírito humano. Mas não creio em vida após a morte ou em uma alma separada do corpo e da mente. A criatividade, a estética, o sentimento de totalidade e o amor são essencialmente parte do funcionamento da mente. Sabemos que o cérebro se comporta de maneira diferente quando ocorrem mudanças químicas no organismo ou quando nos machucamos. Isso sugere que a essência humana depende de um sistema celular complexo. Não há incoerência alguma em acreditar que os sentimentos têm uma base física e, ao mesmo tempo, ter uma visão espiritual da mente humana.
Veja – O senhor não se sentiria reconfortado se soubesse que existe vida após a morte?
Wilson – Pense no que significaria passar o resto da eternidade no céu. Não fomos feitos para isso. A mente humana foi construída para durar por um tempo limitado. Ultrapassar esse limite seria obrigar o indivíduo a uma existência infernal. Uma pesquisa com a elite científica dos Estados Unidos mostrou que 85% dos pesquisadores não se importam se existe ou não vida após a morte. Eu não me importo.
Veja – O senhor afirmou certa vez que se considera um deísta provisório. O que quer dizer com isso?
Wilson – Primeiro é preciso definir teísmo e deísmo. O teísmo é a crença de que Deus intervém nos assuntos humanos. Deus seria capaz de fazer milagres e está diretamente ligado ao discurso humano. Já o deísta é aquele que aceita a possibilidade de existir uma força superior que estabeleceu as leis responsáveis pela criação do universo. O deísta, no entanto, não acredita que Deus esteja envolvido nos assuntos diários dos seres humanos. Enquanto não soubermos dar uma melhor explicação para o início do universo, considero-me um deísta provisório. A ciência está avançando rapidamente. Quem sabe em breve os físicos já possam explicar de onde viemos.
Veja – Muitos críticos dizem que a ciência é uma espécie de religião e que a teoria da evolução exige devoção. O senhor concorda?
Wilson – Não. Existe uma grande diferença. A religião exige fé, uma fé sem questionamentos. A ciência não tem nada parecido com isso. Baseia-se em um conjunto de conhecimentos acumulados e tem uma trajetória de agregar mais e mais informações que explicam o mundo. É um processo de busca, de exploração e descoberta. Totalmente diferente de religião.
Veja – O senhor vê progresso na evolução?
Wilson – Sim, porque em bilhões de anos a evolução tem produzido espécies cada vez mais complexas, um maior número de organismos e ecossistemas mais sofisticados. Se tomarmos exemplos isolados, no entanto, veremos que nem sempre a evolução significa progresso. Afinal, ela é fruto de mutações e mudanças genéticas aleatórias. Há casos de parasitas que perderam os olhos e de animais que perderam os pés. Se complexidade é progresso, então essas espécies regrediram.
Veja – O fato de o ser humano ter evoluído a ponto de controlar a natureza como nenhum outro animal nos dá o direito de fazer o que quisermos com as outras espécies?
Wilson – A espécie humana sem dúvida é a mais sagrada do planeta. Afinal, é a mais inteligente e a única civilizada. Nos estágios iniciais da nossa evolução, quando os seres humanos viviam da caça e em bandos, o objetivo era derrotar a natureza, porque isso era uma questão de sobrevivência. Hoje, derrotar a natureza significa destruir parte do que resta de vida na Terra. Temos de saber quando parar. Estamos arruinando a natureza só para abrir um pouco de espaço para mais seres humanos. Isso não é progresso, nem sob o aspecto moral, nem como opção para garantir o futuro da humanidade. Nós precisamos da natureza para garantir a produtividade na biosfera. A espécie humana foi bem-sucedida demais.
Veja – Um estudo da ONU estimou que em 2050 a população da Terra atingirá o pico de 9 bilhões de pessoas, para então estabilizar. Como podemos melhorar a situação econômica de tanta gente e, ao mesmo tempo, impedir a destruição da natureza?
Wilson – A maioria dos especialistas acredita que os recursos existentes na Terra suportariam essa superpopulação sem destruir a natureza. É preciso aumentar a produtividade da terra, e, para isso, temos de utilizar sementes geneticamente modificadas. A espécie humana depende de apenas vinte tipos de planta para se alimentar. Arroz, milho e trigo são as principais. Existem, no entanto, mais de 50.000 plantas cultiváveis. Muitas delas podem se tornar viáveis economicamente com a modificação genética. Se soubermos preservar o que restou da natureza e torná-la mais produtiva, conseguiremos alimentar os 9 bilhões de pessoas previstos para 2050.
Veja – Por que existe resistência tão grande aos alimentos geneticamente modificados?
Wilson – O primeiro medo é o de que existam riscos ambientais no uso de transgênicos. Há quem tema, por exemplo, que possam dar origem a superbactérias, resistentes a qualquer tipo de remédio. Essa é uma visão hollywoodiana. Não existem evidências de que isso possa ocorrer. Já há as superbactérias, mas elas são naturais. Em geral são espécies de outros países ou continentes trazidas sem querer em navios ou aviões. Em ambientes sem a competição de outras espécies, essas bactérias se espalham e acabam se tornando pestes sérias. O segundo temor é o de que os alimentos transgênicos possam ser prejudiciais à saúde humana. Até agora também não há evidências disso, apesar dos inúmeros estudos. Nos Estados Unidos, 40% dos alimentos consumidos pela população são geneticamente modificados. Há quem diga que isso não é natural. Bobagem. Na prática, temos feito isso há 10.000 anos. Desde que a agricultura foi inventada, criamos plantas e animais modificando sua genética e escolhendo as melhores espécies. Isso não é diferente de introduzir novos genes diretamente em uma espécie. Não é o gene que interessa, e sim se o produto criado com ele é bom.
Veja – Por que é tão urgente preservar a biodiversidade do planeta?
Wilson – Um cálculo feito em 1997 por biólogos e economistas mostrou que as espécies de todos os ecossistemas contribuíram com 30 trilhões de dólares em "serviços", como limpeza e retenção de água, regeneração de solo e limpeza da atmosfera. Esse valor era, naquele momento, próximo ao de toda a produção humana. Dependemos da biodiversidade mais do que imaginamos. Outro aspecto é que estamos começando a compreender como as espécies que surgiram 1 milhão de anos atrás foram extintas e substituídas por outras. Isso é importante para entendermos a origem da vida. Precisamos desse conhecimento. Os cientistas identificaram apenas 10% das espécies e organismos existentes no planeta. Conhecer os 90% restantes tem um valor inestimável.
Veja – Alguns cientistas dizem que a espécie humana está vivendo uma evolução acelerada. A tese é a de que a humanidade está começando a decidir sobre sua própria evolução. O senhor concorda?
Wilson – Sim, em meu livro dei a esse fenômeno o nome de evolução voluntária. Estamos próximos de atingir um estágio de desenvolvimento em que poderemos escolher o caminho da nossa evolução. Em breve poderemos eliminar totalmente doenças genéticas, como fibroses, simplesmente substituindo os genes defeituosos. Essa é uma forma de conduzir a evolução. A questão é se deveria ser permitido usar a engenharia genética para melhorar indivíduos humanos. Em alguns anos, os pais poderão escolher se o filho será um bom atleta ou um bom músico. Devemos permitir isso? Trata-se de uma questão ética que ainda não foi analisada em profundidade. Simplesmente porque ainda não estamos enfrentando os problemas relacionados a essas possibilidades tecnológicas. Em algum momento, a humanidade deverá decidir sobre isso, e aí teremos a evolução voluntária. Precisaremos ser muito cuidadosos ao mudar a natureza, pois é ela que nos faz humanos.
Veja – Qual o limite?
Wilson – Não sei, está fora do meu alcance. Precisamos de mais conhecimentos sobre genética, saber melhor o que somos, qual é a natureza humana e quais as conseqüências dessas mudanças na organização da nossa sociedade atual. É uma grande pergunta. Nós mal conseguimos entender a nós mesmos nas condições atuais. Tentar entender como seríamos se nos alterássemos geneticamente é um passo gigantesco.
Veja – Em sua opinião, é eticamente aceitável tentar encontrar uma explicação genética para o comportamento homossexual?
Wilson – Sim. Quanto mais soubermos, quanto mais verdades tivermos, mais teremos capacidade de resolver questões que mobilizam a sociedade. Já existem algumas evidências de que a homossexualidade acontece por um componente genético hereditário. Parte da variação da preferência sexual deve-se aos genes. Se soubermos o que está envolvido nisso, poderemos tomar decisões racionais e morais sobre o assunto. Se a ciência provar que a homossexualidade tem uma base genética e que o gene está bem distribuído pela população, os gays vão poder dizer: "A evolução natural nos fez assim, e, por isso, não há nada de errado no que fazemos e no tipo de vida que levamos". Esse é um ótimo argumento. Por outro lado, se descobrirmos que a homossexualidade não tem nenhuma origem genética, ganhará força a tese de que esse comportamento sexual tem como causa um trauma ocorrido na infância. Os defensores dessa tese terão argumentos para querer curar ou corrigir os homossexuais. Até descobrirmos a verdade sobre isso, essa discussão vai continuar indefinidamente. Por isso, quanto mais soubermos, mais livres seremos.
FONTE: http://veja.abril.com.br/170506/entrevista.html
quinta-feira, 15 de março de 2012
Raios Cósmicos

Pode até parecer coisa de gente com sérios transtornos mentais ou assunto de algum tipo de clube bizarro. Mas é algo extremamente sério e de fato importante. Tanto é que no ano que vem (2013), cientistas – físicos em especial – do mundo inteiro estarão no Brasil para uma conferência mundial sobre “raios cósmicos”.
Numa matéria que fala sobre o tal encontro científico é dito que “Os raios cósmicos são partículas com muita energia e que bombardeiam constantemente o planeta Terra. Seu estudo permite uma visão mais íntima da natureza das partículas, bem como a formação e evolução do Universo”, afora outras relações.
Nem precisamos da ficção científica para ficarmos abismados com o que está ao nosso redor – seja visível ou invisível aos olhos. Também não precisamos de nenhum misticismo para nos sentir conectados com o micro e macrocosmos. Um olhar com as ferramentas da ciência já é um poderoso estimulante à vertigem da existência humana e o Universo onde estamos embebidos.
Segue a referida matéria em sua totalidade.
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JC e-mail 4451, de 08 de Março de 2012.
Brasil entra no foco dos raios cósmicos
País se prepara para receber conferência em 2013, onde pesquisadores nacionais terão a oportunidade de discutir e expor seus trabalhos para colegas de vários países.
Todo mundo só fala em Copa do Mundo e Olimpíada, mas nem só de esporte vive o Brasil. O Rio de Janeiro sediará em julho do ano que vem a 33ª Conferência Internacional de Raios Cósmicos, importante evento da União Internacional de Física Pura e Aplicada (IUPAP, na sigla inglesa). Realizado a cada dois anos sob os auspícios da C4 (Comissão sobre Raios Cósmicos), ele irá reunir em sua próxima edição cerca de 1.500 especialistas de várias partes do mundo, para discutir o futuro das pesquisas com radiações de origem cósmica.
Toda a organização da conferência estará a cargo da equipe brasileira, composta por pesquisadores de excelente reputação no exterior. "Isso dará uma boa exposição dos cientistas brasileiros atuando na área", afirma Ronald Cintra Shellard, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Física (SBF) e membro brasileiro da C4. Ele chefiará a conferência realizada no Brasil.
Os raios cósmicos são partículas com muita energia e que bombardeiam constantemente o planeta Terra. Seu estudo permite uma visão mais íntima da natureza das partículas, bem como a formação e evolução do Universo. Devido à complexidade e ao valor gasto na realização de experimentos, o estudo dos raios cósmicos tem demandado competências de vários países, trabalhando de forma conjunta e colaborativa.
Aliás, atualmente, um dos assuntos mais discutidos na comissão sobre raios cósmicos é a mudança do seu próprio nome, pois as ações dela têm abrangido não apenas os chamados raios cósmicos, mas também os raios gama de alta energia (compostos pelas mesmas partículas da luz comum, mas com energia muito acima da luz visível), neutrinos de origem extraterrestre e até mesmo a matéria escura, um dos grandes mistérios da Física atual. Discute-se a mudança do nome para "Comissão de Astropartículas", mas a definição terá de passar pela Assembleia Geral da IUPAP para poder entrar em vigor.
A comunidade de físicos brasileiros na IUPAP tem um perfil jovem, quando se compara às de outros países. Não na idade de seus membros, mas em sua tradição (são cerca de 70 anos apenas) e no vanguardismo de seus cientistas, que têm apontado visões variadas sobre os grandes temas discutidos nessa e em outras comissões.
Segundo Shellard, a comunidade de Física brasileira já tem um amadurecimento que permite contribuir para o debate dos grandes temas que afetam o futuro da Física como disciplina de inquirição intelectual. "O que nos falta ainda é autoconfiança, mas que virá com a experiência dos debates nestes fóruns", diz o físico. Shellard é um dos 11 brasileiros escolhidos como membros de comissões da IUPAP.
FONTE: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=81480
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