sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Vendo ufos

Lendo um artigo, "Justiça do Olhômetro", enviado pelo colega Cesar Goes, de autoria do sociólogo José de Souza Martins*, sobre graves falhas no sistema judiciário brasileiro, que levam a condenação de pessoas inocentes, que chegam a passar 19 anos na prisão sem que tenham cometido delito algum (como é o caso narrado do mecânico Marcos Mariano da Silva). Pois lendo sobre tal assunto “nada a ver” com ufologia, me deparei com a seguinte passagem a respeito da observação de fotos:

“A fotografia é polissêmica [tem muitos significados], não contém uma verdade em si, depende da situação, das motivações e das referências culturais de quem a vê. A imagem não está lá, na foto: está nas orientações de quem a olha. De certo modo, quem vê a fotografia vê o que quer e pode ver.”

Para entender essa passagem um pouco melhor, colocando-a no contexto, segue o parágrafo inteiro de onde ela foi extraída:

“O caso de Fabiano Russi, identificado [equivocadamente] por meio de uma fotografia tirada [pela polícia] anos antes [e que acabou o levando injustamente à prisão], é bem indicativo de quanto o uso da imagem está entre nós atrasado e se alinha com esse pressuposto equivocado. A fotografia é polissêmica, não contém uma verdade em si, depende da situação, das motivações e das referências culturais de quem a vê. A imagem não está lá, na foto: está nas orientações de quem a olha. De certo modo, quem vê a fotografia vê o que quer e pode ver. Do mesmo modo, quem vê o agressor o vê sob as deformações da desatenção do medo. Dificilmente terá condições de reconhecer alguém numa fotografia com a objetividade que pede um ato que pode redundar em injusta privação da liberdade de outrem.”

A passagem acima me remeteu ao comum (e às vezes constrangedor) deslumbramento de muitas pessoas com luzes, sombras entre outras formas tidas como óvnis ou “seres” ou “mensagens” em certas fotografias. Acredito que tais avaliações (deslumbradas) têm tudo a ver com as “orientações [íntimas] de quem a olha”, como diz no artigo de Martins. Quando a gente “quer acreditar”, qualquer vaga-lume passando a 3 metros da lente da máquina fotográfica se transforma em uma “Nave de Luz Dourada” sob o comando de Asthar Sharan...

Por isso, concluo, para ufologistas e ufólogos é tão importante o constante “auto-policiamento”, a autocrítica, o distanciamento e a frieza na análise, o olhar não viciado pela crença. Antes de partir para explicações extraordinárias, é preciso esgotar-se as hipóteses de se estar diante de um acontecimento comum, ordinário, perfeita e materialmente compreensível. A “empolgação”, que transforma um fenômeno ótico tecnicamente explicável em uma “manifestação do além-físico” alimenta o descrédito da ufologia, que fica mergulhada num campo nebuloso, onde as subjetividades, os desejos, a divagação de cunho transcendental, religiosa sobrepõem-se a busca e análise racionais de possíveis indícios e manifestações de seres inteligentes para além da Terra.

Bem, há gente que sempre fez da ufologia uma nova religião, como alertou muitas vezes, em muitas obras, o saudoso astrofísico Carl Sagan. E talvez não haja mesmo saída: a ufologia é uma vertente do movimento místico contemporâneo e das narrações que configuram um novo folclore da era espacial.


*José de Souza Martins é sociólogo e Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Dentre outros livros, autor de A Política do Brasil Lúmpen e Místico (Contexto, 2011) e Uma Arqueologia da Memória Social - Autobiografia de um moleque de fábrica, (Ateliê Editorial), 2011.

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